Lou Reed, o músico que transformou o rock

Olhou para o outro lado de espelho, o lugar que a moralidade burguesa se recusava encarar. Morreu um dos músicos mais influentes da história do rock.

"Sou um triunfo da medicina, física e química modernas. Estou maior e mais forte do que nunca. O meu chen tai chi e um regime saudável trataram-me bem ao longo de todos estes anos", escrevia Lou Reed na sua página de Facebook no final de Maio. "Anseio estar em palco a actuar, e escrever mais canções para me ligar aos vossos corações e espíritos e ao universo, bem dentro do futuro", acrescentava. Ler esta nota, escrita quando foi revelado que Reed fora submetido a um transplante de fígado, tem agora um sabor particularmente amargo. O fundador dos Velvet Underground, autor de Walk on the wild side, Vicious ou Perfect day, ícone do rock"n"roll que o transformou profundamente, por trazer à superfície uma noção de perigo, de interdito e de marginalidade inexistente até à sua chegada, morreu na manhã de domingo, aos 71 anos.

O médico responsável pelo transplante de fígado, Charles Miller, afirmou ao New York Times que Reed "morreu pacificamente, rodeado pelos seus entes queridos" - Reed era casado desde 2008 com a música e artista Laurie Anderson. O médico revelou ainda que fora admitido no início da semana passada no hospital de Ohio no qual fora efectuado o transplante, tendo regressado a Nova Iorque quando informado pela equipa médica do estado irreversível de uma não especificada doença de fígado. "Ele queria muito estar em casa", disse Miller.

Ao Guardian, o agente inglês confirmou a notícia da morte, avançada em primeira mão pela Rolling Stone, declarando em seguida: "Estou muito perturbado." Estamos todos. A dimensão de Lou Reed enquanto figura tutelar de tanto da música popular urbana das últimas cinco décadas é tal que algo tão definitivo quanto isto, a sua morte, parecia uma impossibilidade, como se a mortalidade não ligasse bem com o homem nascido a 2 de Março de 1942 em Nova Iorque, a cidade que o moldou e da qual retirou todos os impulsos criativos - "primeiro os meus pais, depois Nova Iorque", dizia ele no documentário de 1998 Rock"n"Roll Heart.

Em reacção à sua morte, Lloyd Cole escreveu na sua conta do Twitter: "Sem Lou Reed não existiria David Bowie tal como o conhecemos. Eu? Seria provavelmente um professor de Matemática." Brian Eno estava quase certo quando proferiu uma tirada célebre: que quase ninguém comprou os discos dos Velvet Underground, onde se fundou a lenda de Reed, quando da sua edição original, mas que todos os que os compraram formaram bandas. "Quase" porque os Velvet, e com eles Lou Reed, não se limitaram a fenómeno multiplicador de grupos rock. Reed foi influência marcante para o glam, para o punk ou para a new-wave, mas a força evocativa das suas letras, a música violenta na sua exigência perante o ouvinte, a postura confrontante e polémica ou o negro que vestia (é sempre essa a cor que lhe vemos, negro noite, negro mistério, negro perigo) tornou-o uma inspiração mais abrangente, das artes plásticas (não por acaso, os Velvet Underground nasceram verdadeiramente na Factory de Andy Warhol) ao cinema (não é a canção New age, de Loaded, o último álbum dos Velvet Underground, com a sua "gorda e loura actriz" que beijara Robert Mitchum, homenagem à idade de ouro de Hollywood?) ou à literatura (não foi o nome da sua banda retirado a um romance?, não dedicou ele o seu último grande álbum, The Raven, a Edgar Allan Poe?).

Robert Wilson, o encenador, colaborou com ele em diversas ocasiões. Julian Schnabel, o artista e cineasta, ajudou-o a concretizar finalmente em palco, em 2008, a visão que tinha para Berlin, a trágica e dramática história de amor entre dois toxicodependentes, hoje considerado uma obra-prima, mas reduzido, à data da edição (1973), a "álbum mais deprimente de sempre". Irvine Welsh, o escritor escocês, expressava-lhe ontem o seu agradecimento - pela obra, por ter autorizado a inclusão de Perfect day na banda-sonora de Trainspotting. E ainda haverá, mundo fora, outro tipo de artistas a prestarem-lhe homenagem: múltiplas variações de Chico Fininhos a correrem as ruas ao som de Lou Reed, "sempre na sua", "sempre cheios de speed".

A música foi a forma de expressão que escolheu quando, criança, se apaixonou pela aspereza do rock"n"roll e pelas harmonias vocais do doo-wop. Escolheu-a pela exclusão de tudo o resto. E tornou-se maior que ela. Em 2004, na revista Uncut, perguntavam-lhe o que tinha mudado desde os primeiros tempos. "Nada mudou", respondeu. "Tento fazer algo directo e verdadeiro. Fazer algo puro e sem filtros. É completamente real e isso é uma constante. Não é uma encenação, nunca foi uma encenação." E por isso foi desde sempre e até ao fim, quando já estavam distantes os anos de boémia e excessos com todo o tipo de drogas (o tai chi, de que era praticante fervoroso, era por estes dias o seu vício), surpreendente, contraditório e imprevisível.

Depois do renascimento artístico, patrocinado pelo fã David Bowie e protagonizado com o histórico segundo álbum a solo, Transformer (1972), o de Vicious, Satellite of love, Perfect day e de Walk on the wild side, a sua canção assinatura, vimo-lo sabotar a popularidade adquirida com Metal Machine Music", duplo álbum de experiências com feedback que deixou o mundo perplexo em 1975 - esforço vanguardista, provocação, simples brincadeira de mau gosto? Mais recentemente, surpreendeu ao reunir-se aos Metallica, banda charneira do thrash-metal, para gravar Lulu, álbum conceptual inspirado em peças do dramaturgo Frank Wedekind e considerado quase unanimemente um fracasso total. Seria também o seu último álbum. Um ponto final na carreira que, de certa forma, ilustra a sua muito nova-iorquina obstinação: Lou Reed fazia o que queria e quando queria, sem se preocupar com as expectativas que o rodeavam. De previsível, tinha o lendário temperamento irascível, capaz de levar às lágrimas os jornalistas mais experientes.

Em tempos de colorido "paz e amor", quando o vimos surgir com os Velvet Underground, formados em 1965 com John Cale, Maureen Tucker e Sterling Morrison, mostrou o outro lado: o submundo violento e interdito de dealers e agarrados, a sexualidade sob todas as formas, a erupção de vida que pulsava no outro lado do espelho, para onde o conforto burguês e o moralismo hipócrita se recusavam a olhar. Quatro décadas depois, gravou (no álbum The Raven) Imp of the Perverse, baseado num conto de Poe, que questiona a nossa tentação pelo abismo. Por que somos atraídos para aquilo que sabemos ser-nos prejudicial? "Se existe algum ser humano que não tenha sentido isto, não o conheci", disse Lou Reed. Esta pulsão, este questionamento, atravessou grande parte da sua obra.

Sobre o rock, disse: "Um acorde é bom. Dois acordes e já estás a abusar. Três acordes e já estás no jazz." Era uma boutade, naturalmente. Reed era compositor complexo e prezava o virtuosismo, mas ilustrava na perfeição o impulso primitivo que dá ritmo e significado ao rock. O que Reed fez foi criar novos cenários e dar vida inesperada e corpo a esse impulso. O New York Times citava ontem uma entrevista conduzida pela jornalista Kristine McKenna. Dizia nela Reed: "Sempre acreditei que existe um incrível número de coisas que se podem fazer através de uma canção rock, e que se pode fazer escrita séria numa canção rock se o fizermos sem perder o ritmo. As coisas sobre as quais tenho escrito não seriam consideradas nada de mais se aparecessem num livro ou num filme." Foi a sua grande virtude. Não dar seriedade literária ao rock, mas transformar-lhe a natureza. E por isso a sua obra ressoou tão fortemente. E por isso ouvimo-lo ainda: a voz nasalada, aquele canto que é quase discurso falado, ora urgente, ora lançado com desdém ou com abandono. Ouvimos e depois lemos: Lou Reed morreu. Lemos e não acreditamos.