Vítimas da ETA protestam contra a justiça europeia e chamam traidor a Rajoy

“Já não há patriotas”, disse um manifestante. Milhares contestaram a anulação da “doutrina Parot” e a libertação de uma etarra.

“Rajoy, marioneta, é a ETA que vota em ti”, gritaram, os manifestantes
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“Rajoy, marioneta, é a ETA que vota em ti”, gritaram, os manifestantes Dani Pozo/AFP

Há as vítimas da ETA e há o Partido Popular, de Mariano Rajoy, no poder em Espanha. Durante décadas foram a mesma coisa, ontem ficou claro que estas duas realidades já não se sobrepõem como antes.

Há as vítimas, representadas na Associação de Vítimas de Terrorismo (AVT), e há o PP, no Governo, incapaz de contrariar o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos — e isso é algo que algumas vítimas não podem perdoar.

A primeira decisão é de Junho de 2012, a sentença definitiva de 21 Outubro. O ano passado, o tribunal de Estrasburgo ordenou que Inés del Río fosse posta em liberdade “no mais breve prazo” e condenou o Estado espanhol a pagar-lhe 30 mil euros por danos morais. Este mês, Espanha teve mesmo de libertar Del Río, condenada a mais de 3000 anos de prisão por atentados atribuídos à organização separatista ETA.

Ninguém cumpre penas de centenas de anos mas desde 2006 quase parece que sim: foi nesse ano que o Supremo Tribunal espanhol estabeleceu a chamada “doutrina Parot”, endurecendo o cumprimento de penas dos condenados a mais de 30 anos de prisão por delitos cometidos antes de 1995. A doutrina, contestada então pela maioria dos constitucionalistas do país, foi determinada face ao caso de Henri Parot, condenado a 4700 anos de prisão por 33 assassínios.

A decisão do tribunal europeu só se aplica a Del Río, que estava na prisão desde 1999, mas mata uma doutrina aplicada a mais de 60 pessoas em Espanha, quase todas condenados por múltiplos crimes de terrorismo. Há mais de 30 queixas em lista de espera em Estrasburgo.

Uma direita de verdade

Foi por isto que milhares de pessoas se manifestaram ontem em Madrid. O protesto foi marcado pela AVT e apoiado pelo PP. Nunca esteve previsto que dirigentes populares subissem ao palco — a libertação de Del Río foi um choque e a direcção do PP chegou a discutir se deveria apoiar a manifestação — mas vários planeavam acompanhar a marcha até à praça Colón.

A concentração já tinha começado quando três vice-secretários do PP apareceram à porta da sede do partido, na rua Génova, para se juntarem ao protesto — foram imediatamente apupados, descrevem os sites dos jornais espanhóis.“Não enganem as pessoas, nesta manifestação também vamos protestar contra vocês, vocês cumpriram a sentença de Estrasburgo, vocês enganaram-nos”, disse um manifestante que se dirigiu directamente aos três dirigentes de topo do partido, Javier Arenas, Estaban González Pons e Carlos Floriano. “Já não há patriotas”, gritou-lhes outro manifestante, “muito aplaudido”, escreve o
El País. “À concentração somaram-se vários dirigentes do PP, alguns dos quais foram recebidos com apupos e gritos de ‘traidores’”, diz o diário El Mundo.

Javier Arenas, Estaban González Pons e Carlos Floriano acabaram por fugir da multidão e dirigiram-se de carro até ao destino final da manifestação, a praça Colón. À chegada, foram de novo recebidos por gritos: “traidores”, “cobardes”, “onde está Rajoy?”. Também houve manifestantes que tentaram abafar estes protestos com os seus aplausos mas, segundo as descrições, não foram muito bem sucedidos.

“Queremos uma direita de verdade, não foi para isso que votámos em vocês, são uns cobardes, traidores, iguais ao PSOE”, gritou ainda uma senhora. As intervenções das vítimas que subiram ao palanque foram interrompidas várias vezes por insultos — “Rajoy, marioneta, é a ETA que vota em ti” — e havia cartazes onde se lia “Rajoy traidor”.