Um gay a romper preconceitos na Banca

António Simões foi eleito o gay mais influente da área dos negócios pela rede OUTstanding. Presidente do HSBC no Reino Unido, fala da responsabilidade em "ser honesto"

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JOSé FARINHA

Na terça-feira, foi eleito o gay mais influente da área dos negócios pela rede OUTstanding numa lista publicada pelo Financial Times. Presidente do HSBC no Reino Unido, um dos maiores bancos mundiais, António Simões não só é poderoso, como é gay assumido publicamente e tem tido um papel activo na agenda da diversidade. Numa entrevista exclusiva, fala da responsabilidade em "ser honesto", de preconceitos e da importância de existirem modelos.

António Simões, 38 anos, tem um currículo de sucesso como poucos portugueses. No ano passado, foi promovido a presidente do banco HSBC no Reino Unido, o maior banco europeu e um dos maiores mundiais. Passou a liderar 50 mil pessoas e a gerir mais de quatro mil milhões de dólares anuais de lucros. É um Jovem Líder Global do Fórum Económico Mundial, organização não-governamental que todos os anos reúne milhares de líderes de todo o mundo em Davos para debater assuntos globais.

Mas nunca como nesta terça e quarta-feira recebeu tantas mensagens de parabéns, mesmo de pessoas com quem não falava há anos, pelo facto de ter sido eleito o gay mais influente pela rede de executivos OUTstanding in Business, que seleccionou uma lista com os Top 50, publicada pelo jornal Financial Times. Ter ficado em n.º 1 significa que foi considerado o mais poderoso líder gay no mundo dos negócios e empresas que se assumiram publicamente e se afirmaram como modelos para outros.

Conclusão: apesar "de ser muito mais impressionante ser presidente de um banco aos 38 anos do que ser um gay presidente de um banco", como ele diz, a verdade é que o impacto gerado pelo OUTstanding significa, no fundo, que este é um tema que "as pessoas sentem que é importante, que há alguma coisa a fazer" e "que a visibilidade ainda não é suficiente, especialmente nas grandes empresas que não acompanharam o ritmo de evolução da sociedade", comenta à Revista 2 por telefone a partir de Londres.

Simões ficou no primeiro lugar porque "teve pontuação muito alta em todos os critérios", disse Suki Sandhu, fundador desta rede de executivos LGBT (lésbica, gay, bissexual e transgénero): é um líder que assume a sua homossexualidade, tem impulsionado a agenda da diversidade no HSBC, desafiou estereótipos e ganhou ainda o prémio do líder do ano da diversidade nos European Diversity Awards (organização que distingue a excelência nas áreas do género, deficiência, orientação sexual, idade, raça, cultura e religião), justificou.

Estreada este ano, a lista OUTstanding in Business tem como objectivo aumentar a visibilidade, inspirar, ser a voz dos executivos LGBT no mundo dos negócios e promover a diversidade nas empresas ("coming out" é a expressão em inglês equivalente a "sair do armário").

"A lista dos 50 OUTstanding é a prova de que os executivos LGBT estão a fazer uma enorme diferença e contribuição para a economia. Mostra que uma pessoa se pode assumir publicamente e ter sucesso", escreveu Suki Sandhu.

Simões suplantou, assim, homens como Vincent François, da Société Générale (26.º), Paul Reed, CEO da BP (3.º), e mulheres como Beth Brooke, vice-presidente do conselho de administração da empresa EY (2.º), ou Claudia Brind-Woody, vice-presidente da IBM (6.º).

Para se estar na lista, era preciso cumprir cinco critérios: liderança, ser um modelo de inspiração, contribuir para a causa LGBT, ter sucesso e marcar a diferença desafiando os estereótipos. E era preciso também o próprio dar autorização, algo que achou que era importante por várias razões: porque a ideia é que no futuro isto se torne uma não-notícia e depois porque sente que tem uma responsabilidade de ser um modelo e servir de inspiração a outros gays. "Sempre fui aberto com toda a gente - família e amigos. No HSBC, todas as minhas equipas sempre souberam que eu era gay. Mas mais recentemente tenho falado mais sobre o tema porque lidero 50 mil pessoas no banco e é importante que eu seja um exemplo positivo e que fale disso de forma normal", diz o homem que trabalha das 6h30 às 19h00.

Imagem de autenticidade

"Ser honesto" é uma expressão que António Simões utiliza frequentemente ao longo da conversa quando fala da experiência de tornar público que é gay. Casado em Espanha em 2007 com um espanhol que trabalha na área da finança em Londres, vê-se por vezes na posição de responder "o meu marido faz isto ou aquilo" quando lhe perguntam pela mulher. Diz não ter uma actividade militante. E defende: "De alguma forma, até é uma das coisas menos interessantes da minha personalidade. É interessante porque não é vulgar que o presidente de um banco seja gay. A única razão por que isto é notícia é porque não há muitas pessoas na mesma posição que eu."

Licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa em 1997, e com um MBA na Columbia Business School de Nova Iorque, trabalhou na consultora McKinsey, onde foi sócio, e na Goldman Sachs, isto antes de, em 2007, ir para o HSBC, onde é ainda responsável para a Europa pela área de retalho e gestão de fortunas. Viveu em Hong Kong, Nova Iorque, Londres, Paris e Milão. Na McKinsey, liderava o GLAM, um grupo LGBT, posição que assumiu "para inspirar, servir de modelo aos associados mais novos", e fazê-los sentirem-se confortáveis, "não necessariamente do ponto de vista da sexualidade, mas de diversidade".

Essa diversidade passava também pelas questões de género e pelas questões raciais. "O facto de ser gay e "diferente", entre aspas, ajudou-me a construir uma imagem de autenticidade porque não estava a falar de forma abstracta mas de experiência pessoal."

Ao longo do seu percurso, foi tendo um papel mais activo do que activista. Apesar de nunca ter sido preciso "sair do armário" no ambiente profissional - "quando comecei a trabalhar já estava out" -, sabe que "para muitas pessoas é preciso fazer isso repetidamente", ou seja, coisas como "ir para uma reunião com pessoas que não se conhece e a certa altura ter de, de forma elegante, dizê-lo" em resposta a alguém que presumiu que era heterossexual.

Por outro lado, "estamos em 2013, não vivemos na Rússia, nem na Índia e temos uma sociedade muito mais aberta", daí defender que quem é LGBT tem também a "responsabilidade" de "não se sentir uma vítima". "O que percebi cedo na minha carreira é que o facto de ser relativamente descontraído e aberto sobre este tema faz com que as pessoas pensem que tenha uma autoconfiança em termos profissionais. E o facto de ser bem-sucedido profissionalmente dá-me a coragem para não fingir ser alguém que não sou. Isso pode ser um ponto forte."

Contrariamente a outras "minorias", como as minorias raciais, assumir publicamente que se é gay, lésbica, bissexual ou transgénero é mesmo uma opção, sublinha. Justamente porque se pode esconder a orientação sexual, é importante dar-lhe visibilidade. "Uma mulher ou alguém de uma minoria étnica que seja CEO de uma empresa é automaticamente um modelo para outros. Sinto que é necessário ser activo porque ao longo dos anos comecei a perceber que era um exemplo para outras pessoas que não se sentem especialmente integradas no mainstream - isso tornou-se uma parte importante da minha marca pessoal, da forma como eu ajo com as minhas equipas. Eu não tenho autoridade como CEO só porque sou CEO, as pessoas têm de querer trabalhar comigo e esse grau de autenticidade é muito importante." Curioso é que, para quem trabalha com António Simões, o facto de ele ser português é exótico - há mais gays no HSBC do que portugueses.

Se nuns casos é verdade que ser aberto sobre a orientação sexual pode prejudicar, noutros, porém, isso acaba por ser uma desculpa para quem não quer assumi-lo, critica. Fazê-lo exige coragem, claro. Muitos defendem que não querem misturar a vida profissional com a pessoal, mas a verdade é que isso é raro, lembra. "Há poucas pessoas que no trabalho não falam da sua família, é complicado não dizer absolutamente nada sobre a vida pessoal." E a questão é que quando, desde o início, alguém que é LGBT não fala abertamente da sua orientação sexual, surgirá um momento em que vai ter de "sair do armário". Isso é mais complicado: "Porque a grande questão não é só a reacção, é a pessoa perguntar: "Porque não me contaste antes?" Há uma responsabilidade de se ser aberto para que as pessoas que trabalham nas nossas equipas se sintam confortáveis para falar sobre o serem diferentes no que quer que seja. A questão de ser inclusivo é muito importante."

Combate aos preconceitos

Além das outras funções, António Simões é ainda presidente do programa para a diversidade e inclusão no grupo HSBC, programa que passa por LGBT, género, deficiência, etnicidade, entre outras questões discriminatórias. Aliás, ele implementou acções específicas dirigidas às mulheres, que formam mais de 50% da massa trabalhadora no HSBC Reino Unido, mas representam apenas 20% dos gestores de topo. Durante o próximo ano e no seguinte, quer aumentar a percentagem de mulheres nos mil cargos seniores para 25%, e fazer crescer cada vez mais esse número nos anos seguintes. "O normal deveria ser 50-50. Ao longo da progressão de carreira, deveríamos ter uma igualdade na gestão de topo. Digo muitas vezes que isto não é uma questão de minorias mas de maioria, porque a maioria das pessoas no banco são mulheres. É uma questão de justiça."

O sistema que implementou não é de quotas, mas aproxima-se: na short list para todas as promoções de carreira, tem de haver uma mistura de homens e mulheres. "O resto, a pessoa que é promovida, é por mérito, é promovida porque é a melhor pessoa para aquele cargo. Isto porque o que acontece é que muitas pessoas recrutam pessoas à sua imagem. Há um chamado preconceito inconsciente que todos temos, mas temos de construir mecanismos formais para contrariar esse efeito."

A outra regra que implementou desde que é presidente é que qualquer pessoa que saia de licença de maternidade ou paternidade tem garantido o regresso a um posto ao mesmo nível hierárquico que ocupava, porque acontecia a "muitas mulheres, quando voltavam, serem postas num cargo menos importante".

Esta questão do combate aos preconceitos é de tal forma relevante para António Simões que ele organizou um workshop para a sua equipa directa sobre preconceitos inconscientes baseado no trabalho académico de Mahzarin Banaji, psicóloga social e professora na Universidade de Harvard especialista no assunto (vale a pena visitar o site e fazer o teste em https://implicit.harvard.edu/implicit/demo/). "A banca é, como indústria, menos diversa em todas as dimensões da diversidade e portanto tem de trabalhar mais do que outras para se tornar mais inclusiva."

É ainda membro fundador do Conselho da Diáspora Portuguesa, associação apoiada pelo Presidente da República, Cavaco Silva, que junta portugueses a viver e trabalhar no estrangeiro que querem credibilizar a imagem de Portugal no exterior. Vem a Portugal de vez em quando, apesar de não trabalhar cá há vários anos. Como olha para o país nesta matéria? "Do ponto de vista legislativo, Portugal avançou muito mais que outros países, aprovou o casamento gay, e essa salvaguarda legal dá imensa confiança a qualquer pessoa. Somos uma sociedade bastante tolerante mas não muito aberta. A sociedade é muito homogénea em muitas dimensões, por exemplo, etnicamente comparada com o Reino Unido, e por isso há mais preconceitos inconscientes. Isso acontece mais em Portugal porque há menos exposição à diversidade."

Estar no centro das atenções por ser o gay mais poderoso no mundo dos negócios não é a posição que mais lhe agrade. Mas é verdade que tem um grande à-vontade em assumir publicamente que é gay. Isso foi nascendo e crescendo primeiro pelo apoio da família e amigos, "porque sem isso é difícil construir a confiança"; segundo, pelo seu sucesso profissional, que o faz pensar que se tivesse problemas numa empresa teria emprego noutra, "portanto não preciso de mentir"; terceiro, pelos exemplos de outros, daí sentir a responsabilidade de ser um exemplo também. "Quando estava na Columbia Business School, os grupos LGBT das várias empresas recrutavam pessoas contactando os grupos LGBT da universidade, ou seja, não só tinha a confiança de que essas empresas eram tolerantes, como valorizavam a diversidade." Depois, "o presidente da McKinsey na altura, Ian Davis, que é hoje o presidente da Rolls-Royce, apoiava muito o grupo LGBT. Muitos dos meus mentores profissionais tinham uma abertura de espírito completa. Isto não é uma campanha de activismo solitária, fui extremamente apoiado em todas as dimensões da minha carreira, incluindo na minha vida pessoal."

Hoje olha para um factor que poderia ter sido complicado como algo que lhe deu força. "Por ser um outsider, acho que tenho mais facilidade em lidar com as pessoas em geral. Desenvolvi um à-vontade pela autoconfiança que vem da diferença e não da semelhança."

Mas podia, claro, fazer disso uma causa em benefício próprio e não estar especialmente preocupado em fazer avançar a agenda da inclusão num gigante como o HSBC. "Acredito que podemos melhorar o mundo, há uma questão de justiça e tenho a disciplina de ser o melhor que posso, de conseguir ajudar os outros e ajudar a progredir a agenda do banco. Detesto burocracia, injustiça, política corporativa e acho que as questões do background ou de qualquer característica das pessoas deveriam ser neutras. Essa é a base de uma sociedade mais justa, que funciona melhor. Não é por estar numa lista que vou trazer paz ao mundo, mas todos devemos contribuir para melhorar a situação de outras pessoas que não têm as mesmas opções que nós. Sem querer ser evangélico: daqui a 20 anos, não me vou lembrar daquela noite que tive de trabalhar até às 23h ou do produto financeiro que desenvolvi, vou lembrar-me das pessoas que me disseram que fiz diferença na vida delas porque hoje se sentem mais confortáveis consigo próprias."