Associação de pescadores culpa barra do porto da Figueira por naufrágio

Barcos apanham as ondas de lado ao saírem da barra, o que os torna mais vulneráveis, diz dirigente associativo. Restos de embarcação já foram encontrados.

Os naufrágio deu-se à saída da barra do porto da Figueira da Foz
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Os naufrágio deu-se à saída da barra do porto da Figueira da Foz Sérgio Azenha (arquivo)

A forma como a barra do porto da Figueira da Foz foi construída pode ter ajudado ao naufrágio da Jesus dos Navegantes, a embarcação da Póvoa de Varzim que levava oito pescadores, e naufragou na sexta-feira ao final da tarde, a 200 metros a sul da barra, causando a morte de dois e o desaparecimento de outros dois. Essa é, pelo menos, a tese do mestre José Festas, presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar.

“Este barco foi engolido de lado”, diz José Festas, um antigo pescador que, como pertence à comunidade piscatória de Caxinas, zona de onde são originárias  vítimas do acidente, conhece todos os homens que foram para o mar na Jesus dos Navegantes. “Desde há dois anos e meio a três anos que isto está sempre a acontecer na Figueira da Foz”, refere.

O acidente deu-se por volta das 18h20. Cinco dos pescadores foram resgatados com vida após o acidente. O mestre da embarcação, Francisco Fortunato, de 40 anos, foi um deles, juntamente com Eurico João, de 26 anos, Francisco Ferreira, de 31, António Reijão, de 41 e Luís Santos, de 48 anos. Luís Santos, que estava em estado crítico quando foi encontrado, acabou por morrer por volta das 13h00 já neste sábado no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Um dos três pescadores que faltava resgatar foi encontrado já hoje sem vida a três quilómetros da praia do Cabedelo, tendo o seu corpo sido retirado das águas por um helicóptero da Força Aérea.

Colete salva-vidas não é obrigatório

Um dado surpreendente é que nenhum dos homens foi encontrado com colete salva-vidas. “Não são obrigados pela lei a utilizá-lo”, garante José Festas, referindo que essa imposição não recai sobre os ocupantes de todo o tipo de barcos. “E o mar não estava mau, se não a barra estaria fechada”, acrescenta, referindo-se a sexta-feira. Então porque é que se deu o acidente? “A forma como a barra foi feita faz com que as embarcações estejam sujeitas ao acidente”, responde.

Segundo José Festas, a barra está construída no sentido sudeste-noroeste, o que obriga os barcos a receberem as ondas de lado quando entram no mar. Foi o que terá acontecido. A embarcação, de 15 metros de comprimento, recebeu o embate de uma onda mais forte, primeiro, e depois uma segunda que a afundou. “Se a barra tivesse saída mais para norte as embarcações recebiam as ondas na proa, que tem muito mais facilidade de segurar a onda”, argumenta o presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar.

Casco descoberto

Entretanto, o casco do Jesus dos Navegantes foi encontrado às 16h56 deste sábado, segundo o comandante do porto local, adianta a Lusa. Um barco salva-vidas chegou ao local seguido do helicóptero da Força Aérea, que largou uma bomba de fumo na água para sinalizar onde se encontra o casco.

A embarcação pertencia a Francisco Fortunato há cinco ou seis anos, diz José Festas, adiantando tratar-se de um pescador experiente. “É o pai daquela gente, quando está no mar é o pai deles. E perder um filho é um grande sacrifício. Eu também perdi um pescador e marcou-me para o resto da vida.”

O PÚBLICO tentou contactar diversas vezes a capitania do porto da Figueira da Foz durante a tarde de sábado, sem sucesso.