Oposição convidada a governar no Luxemburgo, Juncker diz que não se sente como alguém que se retira

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Xavier Bettel deverá ser o novo primeiro-ministro

Anúncio pôs fim aos 18 anos de Jean-Claude Juncker na chefia do executivo, mas este mantém atitude combativa

O liberal Xavier Bettel foi encarregado de formar o próximo Governo do Luxemburgo, terminando assim com uma época de 18 anos do até agora primeiro-ministro, Jean-Claude Juncker. "Tomando nota da vontade" dos três partidos "de formar o novo Governo", o chefe de Estado, o grão-duque Henri, encarregou Bettel de formar o novo executivo.

"É uma carga pesada que me espera para fazer frente aos desafios", declarou Bettel, 40 anos (a idade com que Juncker chegou a primeiro-ministro). Bettel, encarregado agora de formar Governo, foi até agora um popular presidente da câmara da cidade do Luxemburgo, que dirige há dez anos.

Já Jean-Claude Juncker declarou aos jornalistas: "O meu estado de espírito não é o de alguém que se retira da política luxemburguesa, muito pelo contrário", reagiu o político de 58 anos - o líder europeu democraticamente eleito há mais tempo no poder (ultrapassando François Mitterand ou Helmut Kohl, nota a agência francesa AFP), para além de ter um percurso europeu importante enquanto presidente do Eurogrupo, que junta os ministros das Finanças dos países do euro, e que teve especial relevância na crise da dívida.

Questionado pelos jornalistas durante a cimeira europeia em que participava, Juncker recusou-se no entanto a comentar tanto a decisão do grão-duque como os rumores que o apresentam como um possível sucessor do actual presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, cujo mandato termina em Dezembro de 2014.

A decisão do grão-duque foi tomada poucos dias depois de os três principais partidos da oposição terem dado a entender que consideravam uma coligação, argumentando que os seus programas tinham mais semelhanças. O partido mais votado continuou a ser o de Juncker, elegendo 23 deputados, mas a oposição junta tem maioria - os liberais com 13 deputados, os socialistas também com 13, e os verdes com seis.

Um Governo sem o CSV é uma raridade no país: o partido tem dominado todos os executivos desde 1945, excepto cinco anos durante a década de 1970 (1974-1979, quando governaram os liberais e os socialistas).

As conversações para um entendimento entre os três partidos vão começar na terça-feira, esperando-se que demorem ainda várias semanas. Bettel indicou que esperava um executivo no máximo no mês de Dezembro. Alguns analistas dizem que ainda é cedo para avaliar da possibilidade de um entendimento deste género no país - que, com uma população de pouco mais de meio milhão de pessoas, é um dos mais ricos Estados da Europa - indicando que poderá ser uma coligação frágil.

As eleições foram antecipadas alguns meses após a retirada de confiança dos socialistas, parceiros de coligação do Partido Social-Cristão (CSV) de Juncker, na sequência de um escândalo na agência de espionagem do país.

Juncker parece ter sido penalizado nas urnas por se ter concentrado nas questões europeias mas descurando as domésticas, e pagou por ser o máximo responsável pela agência de espionagem que acumulou uma série de acções ilegais, desde escutas a políticos até à compra de automóveis para uso privado. Um inquérito parlamentar culpava Juncker por, como responsável pela agência, não ter dado suficiente informação ao Parlamento sobre as ilegalidades cometidas pelos serviços secretos.