Embarque para Hogwarts: uma visita ao universo mágico de Harry Potter

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É um parque de diversões? É um museu? Não, é o Warner Brothers Studio London Tour - The Making of Harry Potter, uma viagem pelos bastidores de uma das mais populares sagas de todos os tempos. Agarre na vassoura e acompanhe-nos

Poderia ser a fila para o casting de um novo anúncio da Benetton. Gente de todas as idades, credos e tons de pele, ordeiramente à espera junto à paragem de um autocarro. Estereótipos lado a lado, do casal de americanos de tamanho XXL, que hão-de ocupar dois lugares cada um, a sexagenários japoneses de sorriso estampado no rosto, passando por uma família de muçulmanos, ele de turbante e barbas austeras, ela de túnica comprida e lenço a cobrir os cabelos, a empurrar um carrinho de bebé. E logo a seguir as cabeças louras de miúdos nórdicos, à frente de um grupo de adolescentes palradoras, de capa preta pelas costas e chapéus bicudos na cabeça.

Mas não são actores ou figurantes, apenas gente muito diversa com uma paixão em comum. Pelo cinema em geral e por um protagonista em particular. O jovem feiticeiro com uma cicatriz em forma de raio na testa, que dá nome a uma das sagas mais populares de todos os tempos: Harry Potter (HP).

É esta a causa da fila para o autocarro de dois andares que dali a nada nos levará até aos estúdios da Warner Brothers em Leasvesden, pequena localidade de moradias rodeadas de jardins, situada a cerca de 35 quilómetros do centro de Londres.

Terminada a rodagem das oito películas (o último livro foi dividido em duas partes), a produtora americana decidiu rentabilizar ainda mais o fenómeno abrindo a cortina para mostrar os bastidores aos imensos fãs da série - um público muito heterogéneo, como se vê pela pequena amostra. Assim, o local onde as filmagens decorreram durante dez anos foi transformado numa exposição permanente, onde se pode passear pelos cenários, apreciar os milhares de adereços, ver a colecção de trajes utilizados - e conhecer os mecanismos que fazem funcionar os seres mais estranhos ou os truques e segredos de muitas cenas.

Na verdade, nem é preciso sentir especial apreço pelas façanhas do Rapaz Que Sobreviveu para se sentir fascinado pela magia do cinema patente nesta mostra. No decurso da sua visita, a equipa da Fugas encontrou um desses indivíduos raros que nunca leu um livro de J. K. Rowling e "quando tentava ver um filme, adormecia sempre a meio." Alheio a todo este universo, Thomas só ali estava para acompanhar a filha de 13 anos. Vimo-lo à entrada, com ar distraído, e voltámos a encontrá-lo quase três horas depois, já perto da saída. Não sabemos se por artes de feitiçaria, a transformação era notória. "Isto é fabuloso", repetia, enquanto elogiava o pormenor da concepção de alguns cenários. Até já tinha prometido à miúda que veria todos os filmes com atenção, para gáudio da adolescente.

Thomas não está sozinho. Noventa e sete por cento dos utilizadores do site tripadvisor classificam a experiência nesta atracção inaugurada no final de Março de 2012 como excelente ou muito boa.

Plataforma 9 e três quartos

Com os bilhetes marcados para o início da tarde, resolvemos passar a manhã a seguir os primeiros passos de Harry Potter, a caminho da Escola de Magia. Ainda em Londres, dirigimo-nos para a estação de King"s Cross, em busca da famosa plataforma 9 ¾. Obviamente, a verdadeira plataforma, onde se apanha o Expresso de Hogwarts, é invisível aos olhos de simples muggles como nós, mas depressa descortinamos a barreira que é preciso atravessar para lá chegar. Um carrinho de bagagem, com malões antigos e uma gaiola vazia, está meio enfiado na parede, como se estivesse prestes a passar para o outro lado. Atrás dele alinhavam-se pessoas de várias nacionalidades a aguardar a sua oportunidade para serem fotografadas numa pose que recria a cena de HP e a Pedra Filosofal. Quem quiser pode ainda colocar o cachecol da sua equipa favorita, com Gryffindor a ganhar a preferência das escolhas.

Com uma embalagem de Feijões de Todos os Sabores comprada numa loja ao lado, dedicada exclusivamente ao merchandising da saga, iniciamos então o percurso em direcção a Leavesden. Entretidos com a roleta de sabores, que tanto inclui banana como cera de ouvido, erva ou pimenta preta, mal olhamos pela janela do comboio para ver desfilar os típicos bairros suburbanos intercalados por prados de verde intenso.

Passa das 14h30. Já deambulámos entre as peças de xadrez gigantes, vimos o Ford Anglia voador suspenso no tecto do átrio e estamos agora numa sala escura rodeados por plasmas que vão passando posters dos filmes escritos em várias línguas, enquanto uma guia informa sobre a regras da visita, que basicamente se resumem à proibição de fotografar nas zonas de ecrã verde. Logo a seguir passamos a uma sala de cinema, para assistir a um pequeno filme onde Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint nos dão as boas-vindas. É então que a cortina se abre para dar lugar a duas grandes portas de madeira, ainda fechadas. Ricky tem o privilégio de as abrir; é o seu aniversário.

"Awesome" e "Amazing..." são as expressões mais ouvidas, mas há também quem simplesmente fique parado a olhar, ainda sem acreditar que acabou de entrar no Salão Nobre, com as mesas corridas preparadas para a refeição, presidido por Dumbledore e os outros professores - ou, seja, manequins com as roupas utilizadas pelos personagens. O tecto está repleto de projectores, em vez de velas a flutuar e de estrelas a brilhar no céu, mas isso não contém a emoção visível nalguns olhos.

A visita guiada acaba aqui. A partir de agora cada um pode explorar tudo ao seu ritmo. Atravessado o Salão Nobre, entra-se na exposição propriamente dita, organizada mais por áreas temáticas do que por ordem cronológica. Assim, enquanto uns param em frente ao castelo de gelo do Baile Yule, que brilha ao lado do cenário montado para a Festa de Chocolate, outros aglomeram-se junto ao portão de entrada para Hogwarts. Mas o grupo de pessoas com que entramos depressa se dispersa entre o quarto dos rapazes, a sala comum dos Gryffindor e as montras cheias de adereços, onde se destacam a Snitch e o Apagador.

O espaço é amplo e consegue albergar até as peças maiores, seja o relógio da torre, a porta com as sete serpentes que dá acesso à Câmara dos Segredos ou o complexo sistema de fechaduras dos cofres de Gringotts. Para espanto de muitos, há peças que se movem, tal e qual como nos filmes. A mala de Lupin abre e fecha-se sozinha, guardando sapatos e recolhendo gavetas, há varinhas a agitar poções fumarentas, enquanto na Toca, a casa dos Weasley, os visitantes podem ver a faca a cortar legumes e a louça a ser esfregada sozinha, apenas com um toque num painel interactivo.

Vassouras voadoras

Não valerá a pena fazer uma lista exaustiva do que se pode encontrar. Bastará pensar numa cena, num cenário, num adereço em particular e pode ter a certeza que estará por lá. Até porque, desde o início, os realizadores decidiram optar "mais por efeitos físicos do que efeitos especiais". Os quadros, por exemplo, foram todos pintados a óleo, muitos deles tendo os próprios colaboradores como modelo. Tudo foi elaborado de propósito para os filmes, das tapeçarias aos livros sobre magia da biblioteca de Dumbledore, que tem as lombadas, todas diferentes, escritas à mão.

Porém, poucos resistem à zona dos efeitos especiais. Além de ficarem a saber como foram feitas algumas cenas mais alucinantes do quidditch, há ainda a possibilidade de se verem a voar sobre as ruas de Londres - basta uma vassoura, uma capa negra, ventoinha para agitar os cabelos e um ecrã verde por trás. Não faltam candidatos e é giro ver o ar empenhado com que alguns representam o papel. À saída, é entregue um CD com as imagens ou uma foto (ambos mediante pagamento extra), mas há quem o faça só pela experiência, que parece bem divertida.

Sabe bem um pouco de descanso, depois de termos percorrido o primeiro estúdio de fio a pavio. No pátio exterior, os mais pequenos ainda têm energia para corridas entre a casa número 4, de Privet Drive, e a moradia de James e Lily Potter. Estão ali também o Knight Bus, o sidecar de Hagrid e a ponte de madeira de Hogwarts, servindo de fundo para mais algumas fotos, que mais tarde vão confirmar: "Eu estive aqui. Isto é real". Pela mesma razão as filas prolongam-se frente ao balcão que serve cerveja de manteiga. É uma oportunidade rara de provar aquilo sobre o que se leu, mesmo que depois as opiniões se dividam.

Loja das criaturas. É aqui que reencontramos Thomas, fascinado com o detalhe de construção dos seres imaginários e com os mecanismos que os fazem mover, como faz o hipogrifo dócil que é o centro das atenções. Além da parte mecânica, é muito interessante ver toda a panóplia de máscaras de duendes, perucas hirsutas, orelhas pontiagudas e narizes aduncos colocados pela equipa de maquilhagem, em sessões que demoravam várias horas.

Ouve-se um coro de assombro ao entrar na Diagon-Al. Tal como é descrito na primeira vez que HP vai às compras, "havia lojas de capas e mantos, lojas de telescópios, montras de barris com baços de morcego e olhos de enguias, garrafas com poções, globos lunares". Naturalmente, também há a loja de varinhas de Ollivander e a Magias Mirabolantes dos Weasley, recheada de doces coloridos, todas apertadas numa só rua, com chão de pedra e ar sombrio.

Seria um final naturalmente feliz acabar o dia em sítio tão emblemático, antes de regressar ao mundo real. Estreitando a partir dali, os corredores demonstravam que a saída não estava longe. A subida, em ziguezague, fazia-se devagar, fosse para adiar a partida ou para ter tempo de observar as maquetas dos edifícios mais bizarros. Até que uma porta estreita se abriu, dando acesso a uma vasta área na penumbra.

E então ali, "sobre uma altíssima montanha, brilhavam as janelas iluminadas de um enorme castelo cheio de torres e torreões": Hogwarts. Não apenas mais uma maqueta, mas o modelo, à escala 1:24, da "melhor escola de feitiçaria". É este modelo, mantido em boas condições durante a produção dos oito filmes, por uma equipa de mais de cinquenta escultores, pintores e outros artistas, que vemos na película, filmado em diversos ângulos e perspectivas.

Temo-lo ali, à nossa frente, com as suas pontes e acessos escarpados, com as suas múltiplas entradas, com o pátio onde se desenrola a derradeira batalha contra Aquele Cujo Nome Não Deve Ser Pronunciado. Perante isto, duvidamos que alguma vez seja possível voltar a ver um filme da saga com os mesmos olhos. Já lhes conhecemos os truques e segredos, tocamos em azulejos que afinal são de cartão, vimos vassouras a levantar voo sem sair do chão.

E, no entanto, na próxima vez que nos sentarmos frente a um ecrã voltaremos a acreditar que tudo é real. É essa a magia do cinema, a que todos nos entregamos, sem hesitar.