Atentado no Príncipe Real, o Elogio da Prepotência

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Não vou discorrer, como gosto, sobre a evolução histórica de um lugar especial de Lisboa, que os nossos avós chamavam a Cotovia e hoje conhecemos por Príncipe Real. Ficará para outra altura a deriva sobre esse espaço de eleição, cuja história é tão inesperadamente rica como plena de peripécias, limitando-me de momento a chamar a atenção para o facto bem sensível que, do ponto de vista patrimonial, o Príncipe Real constitui um dos mais preservados conjuntos de arquitectura "nobre" oitocentista. Na verdade, dispõe-se em redor um manancial inesgotável para se entender o gosto ecléctico dominante na alta burguesia da segunda metade do século XIX, perfeitamente espelhado no vasto logradouro central, então transformado num dos belos jardins/praças de Lisboa, um must da sensibilidade romântica à inglesa, com o seu cedro/caramanchão ou aquela araucária esguia e pontiaguda, espécie de Empire State verde a cortar esganiçada o sky line de Lisboa.

Não. Ao contrário do habitual, venho juntar a minha voz a tantas outras para clamar contra um atentado inaceitável, perpetrado impunemente à vista de todos, atingindo o património material e imaterial da cidade, pois o respeito pela harmonia da propriedade dos vizinhos constitui igualmente uma componente essencial da defesa desse mesmo património. Aliás, na verdade, e como um mal nunca vem só, trata-se, sim, de dois atentados: um à imagem global do próprio espaço público e o outro, mais brutal, à integridade da propriedade vizinha. Mas, para se entender melhor a dupla questão convirá ensaiar um bosquejo histórico, tão breve quanto possível.

No fervor construtivo do Príncipe Real participou, entre muitos outros, um abastado capitalista, de seu nome José Rodrigues Penalva, que D. Luís criou visconde de Penalva d"Alva em 1877. Juntamente com a consorte, D. Eugénia Alves Valdez, elevada a condessa de Penalva d"Alva depois de viúva, adquiriu um vasto terreno no canto sul do Príncipe Real, dispondo de uma invejável situação com vista excepcional sobre a cidade e o rio. Nesse terreno vieram a erguer-se, em épocas sucessivas, duas residências. A primeira era (era, repito) um edifício sóbrio, com rés-do-chão e dois pisos, sem arrebiques nem fantasias, dentro de uma certa frugalidade tradicional a que alguma burguesia oitocentista permaneceu fiel. Aquilo a que os lisboetas chamavam uma boa casa. Depois, mesmo no canto, construiu-se uma segunda mansão destinada à filha primogénita, D. Eugénia Valdez Penalva, condessa de Penha Garcia pelo casamento. Erguida no início do século XX, é já sensível à influência do modelo da então dita vivenda, harmónica na estruturação dos volumes, com seu sótão bem composto de telhado negro. Como era tudo família, entre as duas casas ficou um espaço relativamente largo, logradouro comum, que nunca foi dividido, como deveria ter sido após a separação familiar das duas propriedades. Mas a verdade é que os sucessivos utentes foram mantendo uma relação civilizada, nunca se colocando o problema da delimitação física das duas propriedades uma vez autonomizadas.

Tudo correu, pois, sobre rodas até à instalação na residência dos condes de Penalva d"Alva da Embaixada dos Emirados Árabes Unidos. Talvez pouco agradados da frugalidade sóbria original da mansão adquirida, os representantes dos Emirados resolveram alindá-la ou, melhor, apalaçá-la. Vai daí, forraram a pedra toda a fachada, penduraram uns frontões triangulares sobre as janelas, coitadas, sem escala para tais ornamentos, e, inevitável, transformaram a antiga porta central de acesso, assaz despretensiosa, num portal desmesurado de frontão curvo, colunas e tudo, completamente desadequado, tal como os frontões das janelas, à proporcionalidade do edifício. E, como não chegasse, mais recentemente juntaram uns telheiros de vidro abaulados sobre as portas, com suportes de ferro retorcidos. Isto é, a fachada exterior da boa casa do conde de Penalva d"Alva transformou-se num cenário a fazer de conta, uma espécie única de pastiche neopacóvio, que destoa e ofende a unidade e a harmonia do conjunto do Príncipe Real. Tudo à revelia de quem de direito, pois é bom não esquecer que o Príncipe Real se encontra abrangido por várias áreas de protecção, pelo que se impunha a autorização prévia para tais desmandos dos serviços de património, hoje DGPC.

Se tal não chegasse, a ânsia de engrandecer o edifício tragou - é a expressão mais adequada - o espaço entre as duas casas, pondo e dispondo a seu bel-prazer com total desrespeito pelo vizinho, o atónito proprietário da antiga casa do conde de Penha Garcia. Sem aviso nem deferências, taparam uma escada comum que inutiliza o acesso à cave, colocaram um elevador, para o que cortaram a meio as saídas pendentes dos algerozes (fazendo a água escorrer para dentro da casa vizinha) e, por fim, ergueram um barracão incrível de metal agarrado à parede, tapando uma porta/janela do rés-do-chão da casa fronteira que outrora abria para esse mesmo logradouro comum. Tudo, claro, para clamar que, daqui por diante, o vizinho não tem qualquer direito a dispor de nenhum milímetro desse espaço, nem sequer da luz que dele provém.

Cumpre-me juntar a minha voz de olisipógrafo, se tal vale de alguma coisa, ao coro já audível de pessoas que se indignam com este comportamento inesperado dos representantes de um Estado soberano que deveriam dar o exemplo de respeito pelas leis e os costumes de boa vizinhança dos países junto dos quais estão acreditados. Mas, infelizmente, esse coro de protesto, por mais em crescendo que soe, não parece suficiente para chamar à razão quem atenta de forma tão brutal contra a sociabilidade e as boas maneiras, além de colocar em causa a unidade patrimonial de um conjunto classificado da cidade em que se instala.

Assim, nada mais resta que exigir às autoridades responsáveis cá da terra, sejam governamentais ou judiciais, caso necessário, para ser reposta a legalidade e se resolverem a bem as questões litigiosas, pois o património lisboeta dispensa a presença deste manifesto exemplo de um Elogio da Prepotência.

Olisipógrafo