A estranha vida da RTP

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Na pessoa do ministro Poiares Maduro, o governo decidiu que o futebol era de "interesse público" e que, portanto, a RTP devia apresentar um jogo por semana. Considerando, como disse Morais Sarmento, que um jogo verdadeiramente importante custa entre 350.000 e 400.000 euros, a RTP vai ficar sem uma boa parte do dinheiro que o contribuinte agora lhe dá. Mas não é preciso esperar pelo futuro: já hoje a programação do canal 1 e do canal 2 roça a pura miséria. A miséria de cultura e a miséria de meios. Como qualquer outra empresa, a televisão do Estado precisa de estabilidade institucional, de financiamento fácil e barato e, sobretudo, de talento, sempre muito caro. Na falta quase absoluta desta base primária, a degradação da RTP não pára manifestamente de se agravar.

O que se prova pela audiência do canal 1, que anda entre os dez por cento e os 15 por cento e não se aproxima sequer da SIC e da TVI; e também pela audiência do canal 2, que oscila à volta dos 2 por cento e que, para efeitos práticos, desapareceu. Quanto à hipotética imparcialidade política da RTP nem vale a pena falar. O noticiário é inócuo e repetitivo, as reportagens de investigação pouco a pouco acabaram e os comentadores, mesmo descontando a presença absurda de Sócrates, são invariavelmente piores do que os da SIC e da TVI. De resto, as telenovelas são pobríssimas, como seria de esperar, e os programas de entretenimento (excepto o de Manuela Moura Guedes) desceram em geral ao grotesco ou à pornografia. Sobra o quê? Sobram os canais ancilares como a RTP África e a RTP Internacional.

Da RTP Internacional, como se calculará, sei pouco. Mas não confio no Estado para fazer um retrato fiel do que realmente se passa no país. Quanto à RTP África, ela só é possível porque esconde ao público a que se dirige a verdadeira natureza dos regimes de Angola, Moçambique e Guiné. Este espectáculo de subserviência não ganha a Portugal o mais leve respeito ou o mais leve prestígio. Pelo contrário, espalha um desprezo universal pelo antigo colono; e contraria as regras fundamentais da suposta democracia em que ele ostensivamente pretende viver. Com a gerigonça desorganizada e triste que se chama a RTP, que não há qualquer bom motivo para sustentar, gasta o Estado 173 milhões por ano, ou seja, mais do que os "cortes" das reformas das pensões de sobrevivência. E querem eles que alguém os leve a sério.

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