Somos todos japoneses

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Documentário do Grande Terramoto do Este do Japão e a História do Tsunami, um projecto do Rias Ark Museum of Art

Já não é só o tempo de ir limpar Fukushima, mas de pensar sobre Fukushima, sobre o tsunami, sobre o sismo. Numa sociedade que não gosta de apontar o dedo, como é que se discute o mais importante acidente nuclear depois de Chernobyl? Os artistas e as suas metáforas podem ajudar a abrir o debate. É o que pensa a Trienal de Artes de Aichi, o primeiro grande festival pós-3/11.

Há um monumento de pedra tombado entre os destroços, dois barcos de madeira semi-destruídos e lixo e mais lixo. É uma imagem do terramoto e do tsunami que atingiram o Japão e data de 25 de Maio de 2011, mais de dois meses passados sobre o desastre.

A fotografia diz-nos que estamos em Hadenya, uma vila de pescadores na costa Norte, cujo nome pode ser interpretado como "o vale onde as ondas viajam". Diz-nos ainda a legenda para olharmos para o ar desamparado do monumento, com a sua inscrição absurdamente virada para o céu: "Cuidado com o tsunami quando ocorre o terramoto." Passamos à imagem seguinte e ao lado está uma máquina enferrujada de cozer arroz da marca National. Depois, um conjunto de ladrilhos partidos com diferentes padrões estampados, um tipo de pavimento que não é propriamente uma tradição no Japão.

É uma mistura muito forte - a poesia do nome da vila de pescadores, a memória gravada na pedra de tsunamis anteriores, uns ladrilhos que parecem aliens - e não há maneira de não saber para o que estamos a olhar, com os pormenores descritivos das legendas.

As fotografias são o resultado de um trabalho antropológico do Rias Ark Museum of Art de Kesennuma, que trabalha com estas comunidades e que entre 2011 e 2013 tirou 30 mil fotos, recolheu 250 objectos e reuniu uma imensa quantidade de documentação. O museu, que não foi atingido pelo tsunami porque fica numa colina, teve de fechar, uma vez que as casas dos trabalhadores, do director aos outros funcionários, foram quase todas destruídas.

O local tornou-se um acampamento, um refúgio. Esteve encerrado 16 meses, mas ao mesmo tempo os seus curadores quiseram ajudar as populações a lidar com as terríveis memórias de Março de 2011. O trabalho de recolha ali conduzido, Documentário do Grande Terramoto do Este do Japão e a História do Tsunami, é uma das obras mais fortes da Trienal de Artes de Aichi, que tem a sua principal exposição no Centro de Artes de Aichi, em Nagoya, no centro do Japão - situada entre Tóquio e Quioto, é, com os seus 2,3 milhões de habitantes, a quarta maior cidade japonesa.

O documentário é considerado "confrontacional" e destacado por Shihoko Iida, uma das curadoras da Trienal, o primeiro grande evento artístico com dimensão internacional a acontecer depois do terramoto, numa conversa sobre a capacidade da sociedade japonesa para discutir o pós-11 de Março (3/11) com os jornalistas estrangeiros convidados. "Os japoneses não estão habituados a dar a sua opinião de uma forma pública e franca. Este tema é particularmente difícil. Os artistas podem falar mais facilmente do que o público em geral. Muitos estão a tentar articular os seus pensamentos e é responsabilidade deles e nossa trazer essas vozes ao público."

Inaugurada em Agosto, a Trienal que está a terminar por estes dias tem como tema Awakening ("Despertar") e um subtítulo que junta três palavras, "terra, memória e ressurreição", à pergunta "Onde estamos?". Em japonês, porém, o título também tem o significado de "terra a tremer". Cruza artes visuais e artes performativas e tem um orçamento de 12 milhões de euros.

Com um arquitecto como director artístico, o japonês Taro Igarashi, que organizou a secção japonesa da primeira Trienal de Arquitectura de Lisboa em 2007 e o pavilhão japonês na Bienal de Veneza no ano seguinte, a Trienal espalha-se por vários locais em Nagoya, mas também pela cidade de Okasaki. A província de Aichi, onde ficam as duas cidades, situa-se a cerca de 500 quilómetros da zona do terramoto e do tsunami, mas o tema do sismo, segundo Igarashi - ele que viu o seu laboratório na Universidade de Tohoku, em Sendai, ser destruído no 3/11 -, "era inevitável". "Sendai foi uma das regiões atingidas. Eu ensinava numa das universidades. A universidade foi muito afectada. Estamos a usar um edifício pré-fabricado. Nesse sentido, sou uma das vítimas."

No Centro de Artes de Aichi, um edifício de mais de dez andares situado na área mais comercial de Nagoya, que foi destruída pelos raides aéreos da Segunda Guerra Mundial como muitas das cidades japonesas, seguimos umas riscas amarelas e vermelhas que se colam ao chão, às paredes e ao tecto. Com o seu aspecto de bunker, o edifício parece que estava à espera da intervenção do arquitecto Katsuhiro Miyamoto para se transformar na Central Nuclear de Fukushima, palco de um grave desastre nuclear na sequência do sismo e do tsunami. As riscas coloridas desenham à escala 1/1 um dos reactores de Fukushima e o objectivo de Miyamoto, que já ganhou um Leão de Ouro em Veneza com um trabalho sobre o sismo de Kobe, é que as pessoas de Aichi compreendam a dimensão de um local que só conhecem das imagens.

Facilmente descobrem que um dos reactores de Fukushima é do tamanho do centro cultural onde estão. E, seguindo as linhas, chegam ao outro trabalho de Miyamoto, Templo da Central Nuclear de Fukushima, em que numa maqueta à escala de 1/200 quatro reactores nucleares foram cobertos com os telhados tradicionais da arquitectura religiosa japonesa.

Yoko Okamura, uma japonesa sorridente, está a ser fotografada por um amigo como se estivesse num verdadeiro monumento. A pose é desconcertante, mas Yoko é clara no seu inglês sumário: "Detesto o nuclear. Acho que devia acabar e que devíamos ter energia da natureza."

Erimi Tanaka, outra visitante do centro, diz que precisa de pensar mais na exposição, ou seja, em Fukushima: "Posso imaginar-me na central nuclear... Estou muito tocada com o trabalho, porque lembra-me o que aconteceu e estava quase a esquecer-me. O tempo voa... A central nuclear é um pesadelo. Eu sinto-me segura, mas na realidade não estou. É uma coisa quefoilá longe, mas não sabemos o que aconteceu à comida. As coisas do terramoto ainda não acabaram. Não é só ir ajudar para Fukushima, mas pensar nas coisas de uma maneira global."

Para Hiroko Kikuchi, a designer de comunidades que trabalha no Centro de Artes de Aichi a quem cabe acompanhar os jornalistas, as pessoas que não foram ao sítio não conseguem sentir o lugar onde a tragédia aconteceu. "Há uma grande discussão sobre se [a central de] Fukushima deve ser reaberta. O que o artista faz é desafiar as pessoas aqui em Aichi: vejam se tivéssemos alguma coisa como esta no meio da cidade e viesse um terramoto...Quere-a ou não nas suas traseiras? É uma mensagem muito simples."

Qualquer crise

Mesmo ao lado do "templo" Fukushima, está uma instalação do suíço Thomas Hirschhorn, Quiet Room With Tears (1996), sobre o medo, a culpa dos sobreviventes, o luto. Num contraste absoluto com os materiais pobres de Hirschhorn, sacos de plástico azuis, jornais, fita adesiva e papel de alumínio, a obra de Yoko Ono, a viúva de John Lennon, é feita de cristais que projectam luz numa sala escura, Parts of a Light House (1966-2012).

A Trienal junta o trabalho de uma centena de artistas e, como explica o director, embora o tema seja "despertar", ela não está limitada ao sismo. "É mais ampla. É uma exposição internacional, que convidou uma série de artistas internacionais, e por isso qualquer crise na vida quotidiana ou qualquer ameaça à vida das pessoas é também o tema desta exposição."

Há trabalhos que ganham uma nova leitura quando vistos depois de Fukushima e no Japão. É o caso do vídeo de 15 minutos do artista finlandês Mika Taanila, The Most Electrified Town in Finland, em que se vê em três ecrãs a construção da central nuclear Olkiluoto 3, a primeira na Europa depois do desastre de Chernobyl. Há imensas imagens da paisagem natural do passado a preto e branco, intercaladas com o rigor da estrutura industrial, que se vai erguendo desde 2004. Figuras humanas, trabalhadores, numa escala maior do que o natural, movimentam-se ao som de música concreta na obra da central nuclear que deverá ser inaugurada em 2015. Taanila apresentou este trabalho na Documenta (13), em 2012, mas nós sentimo-lo como uma encomenda da Trienal de Artes de Aichi.

Ganham também um nova dimensão as fotografias de Mitch Epstein, como BP Carson Refinery (2007), parte da série American Power sobre a produção e o consumo de energia nos EUA, onde se vê uma bandeira americana que cobre, orgulhosamente, parte da refinaria. O insólito é que, por razões que escapam ao espectador, a bandeira está cirurgicamente esburacada.

"Escolhemos alguns artistas que já tinham tratado o assunto", explica a curadora Shihoko Iida, que com três outros colegas trabalha com o director artístico da Trienal. A outras obras, ao colocá-las sob o chapéu desta exposição, "damos-lhes uma nova interpretação. Mas discutimos isso com os artistas."

A instalação em esferovite da sul-coreana Seo Min-jeong, Sum in a Point of Time III, mostra o estilhaçamento de um edifício, a sua queda ou explosão. Presenciamos um momento em que bocados do edifício, recortados como se de uma ruína romântica se tratasse, aparecem suspensos no ar. Trata-se do Arquivo da Cidade de Nagoya, que no passado foi uma prisão. É a ruína como metáfora do instante, do passado ou do presente, tempos que se sobrepõem na memória dos edifícios históricos.

Já os pequenos jardins de Junya Ishigami são uma metáfora de todas as escalas de que é feita a cidade. Entra-se à hora marcada numa pequena sala branca, onde é preciso tirar os sapatos e sentarmo-nos em redor de uma mesa redonda, também branca, para olhar para dentro de pequenas taças de prata onde minúsculas pétalas de flores de todas as formas e cores estão meticulosamente dispostas. É de uma beleza hipnotizante, mas aquilo de que o arquitecto Ishigami quer falar é da invisibilidade da arquitectura - ele que ganhou o prémio principal em Veneza em 2010 como um trabalho intitulado Architecture as Air.

Museu ao contrário

"Uma das características desta Trienal é usar o espaço de uma maneira criativa", diz o director artístico aos jornalistas. "De facto, a minha especialidade não é a arte contemporânea mas a arquitectura." Taro Igarashi fala-nos no espaço que vamos visitar no dia seguinte, o Museu de Arte da Cidade de Nagoya, um edifício pós-moderno do arquitecto Kisho Kurokawa (fundador do movimento metabolista, que propunha uma arquitectura visionária) reinterpretado numa intervenção do arquitecto Jun Aoki, conhecido por ter feito as lojas da Louis Vuitton em Nagoya. O museu ergue-se num parque situado a dez minutos do Centro de Artes de Aichi, uma antiga zona residencial para as famílias dos militares norte-americanos no pós-Segunda Guerra Mundial que só foi devolvida à cidade em 1958.

Nagoya, chama a atenção o guia publicado pela Trienal, é uma cidade que pode ser decifrada pela influência da motorização, ou não fosse a Toyota a indústria dominante na região. Para ser vista de relance, à velocidade de quem passa, a arquitectura da cidade valorizou a monumentalização e a fachada. À porta do museu, aliás, está uma intervenção do artista de manga japonês Yuichi Yokoyama desenhada na chapa de um Toyota.

O arquitecto Jun Aoki aproveitou a sua intervenção para pôr as pessoas a entrar pelas traseiras do museu e mudar o eixo principal do edifício, explica numa entrevista publicada no guia. Acrescentou um corpo ao museu, que figura uma casa com um telhado de duas águas - é essa a nova entrada para quem quer visitar a exposição da Trienal. Ligada ao corpo, vemos uma corda que se estica pelo jardim e acaba num mastro num pequeno lago, a sugerir que partes do edifício do museu podem ser destacadas, retiradas. "Apesar de o ambiente à nossa volta parecer extremamente estável à primeira vista, isso não é verdade e nós estamos numa harmonia transitória entre ondas. Num mundo essencialmente em movimento que tipo de estabilidade podemos encontrar? Acho que esse é o tema da Trienal", continua o arquitecto. "Nós não sabemos quando desastres como sismos ou tsunamis vão atingir-nos. Tornou-se óbvio que temos de criar um ambiente à nossa volta que tenha isso em conta."

Lá dentro, na semi-escuridão, descobrimos uma intervenção do artista chileno Alfredo Jaar, que este ano representa o Chile em Veneza. À nossa frente, num quadrado disposto no chão, estão centenas de paus de giz azuis, verdes, amarelos, vermelhos e brancos. De cada lado da sala, duas aberturas, simetricamente colocadas, dão passagem a novas salas, onde 12 quadros representam as escolas devastadas em 3/11. Jaar, que visitou a área sinistrada, ficou "chocado" ao encontrar quadros das escolas que ainda tinham frases escritas pelas crianças. Na instalação que fez para o museu de Nagoya, recuperou versos de Sadako Kurihara - uma poeta que vivia em Hiroxima na altura da bomba atómica e que se tornou uma voz do movimento anti-nuclear no Japão -, transcritos pelas crianças de Aichi. Os versos vão e vêm, projectados na superfície verde dos quadros. Numa tradução para o português, os versos de Kurihara dizem qualquer coisa como isto: "Quando dizemos "Hiroxima",/ as pessoas respondem, gentilmente,/ "Ah, Hiroxima"?/ Dizemos "Hiroxima", e ouvem "Pearl Harbour."/ Dizemos "Hiroxima", e ouvem "Violação de Nanquim.""

Cada espaço da Trienal tem a sua característica específica, explica o director, e alguns dos maiores trabalhos estão num armazém ao pé do rio, na área de Nayabashi, construído originalmente para ser uma pista de bowling. Está aqui Foam/Espuma, uma das peças mais populares, diz a designer de comunidades Hiroko Kikuchi, fazendo-nos subir ao último piso, até uma sala gigante pintada de preto que está toda ocupada pela espuma de Kohei Nawa. Pisamos saibro negro, ouvimos a água correr e a paisagem de espuma, que parece apenas feita de água e sabão, é inquietantemente mutante. "Ele é muito popular na Ásia e a mensagem da peça é muito simples." É uma paisagem da criação do mundo.

O artista britânico Robert Wilson é o que trabalha mais directamente a memória do edifício, escavando as paredes para descobrir a pista de bowling. Lane 61 é novamente uma instalação sobre edifícios que já foram outra coisa, mas desta vez o espaço move-se e quer mesmo ser outra coisa. Wilson reactivou a pista de bowling, que é literalmente projectada para fora do edifício: o artista rasgou a fachada e fá-la continuar até ao exterior, deixando-a suspensa no ar. É um trabalho que desafia aquilo que o espectador pensa que sabe, sobre aquilo que está escondido. Ao sugerir uma nova possibilidade de seguir em frente, é também um trabalho sobre o optimismo e sobre a transparência.

Gueixas e Marx

Pela primeira vez, a Trienal, que vai na sua segunda edição, estende-se também à cidade de Okasaki, que fica a 30 minutos de comboio de Nagoya. É conhecida por ser a capital do xogunatoTokugawa, que foi o mais importante do Japão, antes de este se mudar para Edo, actual Tóquio. Um dos sítios mais inesperados de Okasaki é Matsumoto-cho, uma arcada em madeira construída em redor do templo de Shououji, um pequeno conjunto de ruas com a sua atmosfera fin-de-siècle onde é possível vislumbrar como terá sido o Japão antigo.

Área de entretenimento, chegou a haver aqui 250 gueixas a trabalhar nas kashi-seki, salas de encontros para alugar. Nas pequenas divisões do rés-do-chão, invulgarmente baixas, há buracos no tecto, ao alcance de uma mão, para os empregados entregarem as bebidas no primeiro andar. A perfomance-vídeo de Yoshinori Niwa é demasiado estranha para este ambiente: o artista japonês insiste em celebrar os 195 anos de Karl Marx e quer apagar as velas em sua honra numa das sedes do Partido Comunista Japonês (PCJ). Uma peça semelhante do mesmo artista, numa exposição em Tóquio, tinha parecido bastante divertida. Dessa vez, Yoshinori Niwa queria pendurar um retrato de Marx na parede de uma das sedes do PCJ. Talvez tivesse sido mesmo melhor expor apenas o espaço vazio com os fantasmas das gueixas contemporâneas de Marx.

E os fantasmas de Sendai são aliás o que também vemos nas fotografias que Leiko Shiga fez da comunidade de Kitakama, expostas na penumbra de um andar desocupado do department store Cibico, outro dos locais utilizados pela Trienal em Okasaki.

Kitakama, situada junto do aeroporto de Sendai, é um daqueles sítios a que a população não poderá voltar depois do terramoto. Metade das famílias já se mudou e está prevista a relocalização das restantes, actualmente a viverem em casas provisórias. Leiko Shiga começou a trabalhar com esta comunidade costeira em 2008, tendo-lhes proposto ser a fotógrafa de Kitakama, dos seus festivais e acontecimentos especiais.

Aos poucos, o seu trabalho de artista começou a misturar-se com o seu novo posto de fotógrafa "oficial", a população foi ganhando intimidade com ela e o resultado é um conjunto de estranhos retratos, recuperando a fotografia como um espaço de ritual. O que é duplamente desconcertante, porque se a fotografia é o momento do que já passou, então aquele momento passou duplamente, uma vez que algumas destas pessoas morreram no tsunami e a paisagem das vidas de outras nunca voltará a ser a que está representada. Quem é aquele casal de velhos que emerge à noite entre as árvores? De quem é aquele corpo feminino vestido de azul e erguido por várias mãos? As fotos, impressas em grande formato e coladas em placas de madeira, não estão penduradas nas paredes da sala, mas espalhadas pelo espaço como se fossem molduras sobre a mesa.

Noutro dos andares destes armazéns Cibico está a instalação-performance da pianista Tomoko Mukaiyama (Japão) e do designer de luzes Jean Kalman (França): um espaço que parece infinito, efeito da escuridão e da neblina, com pianos danificados em posições insólitas, milhares e milhares de jornais amarrotados e luzes que nos encandeiam de tempos a tempos. Intitulada Falling, é uma pequena viagem, musical também, sobre a vida e a morte, a história e a memória, o som e o silêncio, a luz e a sombra. Numa leitura mais literal desta obra, é fácil pensar nas paisagens apocalípticas criadas pelo tsunami e pelo acidente nuclear.

Dúvidas

Embora não lhe caiba fazer política, o director artístico da Trienal defende que o Japão precisa de definir o futuro de Fukushima, não só para si mas para o mundo. "Há três tipos de desastre: terramoto, tsunami e o acidente da central nuclear. Em Sendai, onde vivo, as pessoas não falam do acidente da central nuclear, porque é longe de Fukushima e Sendai foi afectado pelo tsunami. Se formos a Tóquio, as pessoas falam muito do acidente com a central nuclear. Mesmo no Japão, o foco da atenção é diferente, dependendo das regiões."

Se o terramoto e o tsunami tiveram impactos regionais, "o acidente nuclear, causado por erros tecnológicos, pode ser partilhado universalmente como os acidentes maiores de Chernobyl ou de Three Mile Island". O impacto de Fukushima ainda está a acontecer: "Nesse sentido, é bastante difícil abordá-lo."

A esperança no futuro foi aquilo que o arquitecto Kentaro Kurihara preferiu tratar. Ele, que trabalhou com Junya Ishigami, escolheu intervir na cobertura dos armazéns Cibico. Está à nossa espera e começa a falar dos elementos imateriais que também usou, uma boa brisa e a luz. "Eu sou um arquitecto. Quis criar um espaço, não um desenho, uma pintura ou uma escultura. Decidi criar um espaço usando o que existia e combinando-o com a natureza. Este é o sítio onde o visitante pode sentir a verdadeira dimensão do edifício."

Pintou o chão e as paredes de branco, criando um espaço abstracto, e limitou-o um metro acima das nossas cabeças com uma rede quase invisível. "Hoje há nuvens no céu, mas nos dias de sol este branco quase provoca cegueira. A intenção é que o visitante sinta todo este brilho. Eliminámos o negativo, o sujo, do espaço anterior. É um contraste com a escuridão lá debaixo, porque eu queria um espaço positivo." O tema da sua peça, que assina com Miho Iwatsuki (ambos do atelier Studio Velocity), é a ressurreição.

"Dúvida" tornou-se entretanto uma palavra importante na curadoria, diz Mami Kataoka, a responsável pelas exposições no Museu de Arte Mori, que abriu há dez anos no topo de umas das torres de Tóquio, na movimentada zona de Roppongi, e organiza de três em três anos exposições panorâmicas sobre a arte japonesa contemporânea. A última, Roppongi Crossing 2013: Out of Doubt, que é possível ver até Janeiro, tem pela primeira vez a contribuição de dois jovens curadores estrangeiros, Reyben Keehan (Austrália) e Gabriel Ritter (EUA), que se junta ao trabalho da curadora chefe.

"Depois do 3/11 muitos artistas foram para a zona trabalhar como voluntários, mas passados dois anos e meio já não é o momento de fazer alguma coisa, antes de pensar o que é que a sociedade quer dos artistas e das instituições culturais ou da própria arte", diz-nos Mami Kataoka. E "há muitas coisas sobre as quais pensar". Os daguerreótipos contemporâneos de Takashi Arai cruzam imagens recolhidas no Novo México, onde os EUA testaram a bomba atómica antes de a lançarem sobre o Japão, e Fukushima, entendendo ambos como "monumentos" ao nuclear. A artista Kazama Sachiko usa a técnica da gravura sobre madeira, numa peça intitulada Prison Nuke Fission 235, para figurar a preto e branco uma crítica à política nuclear japonesa, representando o edifício Kazamigasi, o símbolo do poder burocrático, e uma explosão nuclear. Era nesta exposição que Yoshinori Niwa queria pendurar um retrato de Marx na parede do PCJ.

"Nós não vemos grandes mudanças desde a Segunda Guerra Mundial. É muito difícil para esta sociedade mudar. Decidimos abordar a complexidade, as dificuldades e os conflitos como são. Out of Doubt mostra vários pontos de vista, incluindo trabalhos mais comprometidos do ponto de vista político", continua a curadora.

No Museu de Arte Contemporânea de Tóquio, a curadora principal, Yuko Hasegawa, está muito contente com a obra de vídeo-performance que acabou de comprar para as colecções, The Finger Pointing Worker: "É um artista muito novo, que se tornou um trabalhador em Fukushima, a limpar a central nuclear. Em frente a uma câmara de vigilância, apontou o dedo, durante vários minutos." Como estava com o fato anti-radiação, não foi reconhecido e apenas muito mais tarde Kota Takeuchi assumiu o seu acto. A performance causou furor porque quebrou as convenções sociais, propondo uma arte assumidamente comprometida.

"Há muitos artistas que depois do 3/11 começaram a pensar nestes temas. Fizeram projectos muito bons", sublinha a curadora. "As pessoas continuam a viver em casas para refugiados e ainda esta manhã soubemos que tinha havido um erro [com os tanques de água radioactiva] e que mais água contaminada foi para o mar."

O Ípsilon viajou a convite da Fundação do Japão