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Não há tanto espaço para operações épicas no novo - e duplo - disco dos Arcade Fire

Novidades dos Arcade Fire e de Cass McCombs, de King Crule e dos Sleigh Bells, entre muitos outros. E o jazz sem medo de Susana Santos Silva.



Pop

Mais ritmo para a intensidade de sempre

E se um dos álbuns mais surpreendentes dos últimos anos pertencesse afinal a um grupo que julgamos conhecer em detalhe? Vítor Belanciano

Arcade Fire

Reflektor

Merge; distri. Universal

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São dois discos, com 13 temas, num total de 75 minutos de música. É muita música. Toda de muito boa qualidade. O que não significa que, ouvida no seu conjunto, faça sentido para muita gente que gostou dos três anteriores álbuns dos Arcade Fire. Reflektor é obra arriscada, daquelas que podem provocar sedução em quem procura ser surpreendido e confusão em quem procura conforto no reconhecimento. Claro que estão lá os sintomas que constituem a identidade sonora do grupo: as camadas sonoras que vão crescendo, os coros colectivos, os arranjos elaborados, cada canção albergando texturas diferentes, num jogo dinâmico de diversas sobreposições.

Mas quase tudo isso é estruturado de forma diferente. As derivações rítmicas insinuantes são agora preponderantes e as canções estendem-se no tempo e no espaço. Não há tanto lugar para operações épicas. Há mais planura. A voz de Win Butler está mais desprotegida, mas também respira mais. E aparece uma série de novas influências trazidas para a identidade sonora do grupo: pós-punk, electrónicas várias, sons das caraíbas, dub, reggae, funk e disco dos anos 1970. Ou seja, os Arcade Fire do novo álbum estão mais próximos de outras bandas que exploraram o cruzamento de rock com linguagens de pendor rítmico, como os Clash, os Talking Heads, os New Order ou os LCD Soundsystem, do que de Bruce Springsteen, uma das possíveis influências do último álbum.

A primeira metade do disco é mais vibrante e impulsiva, enquanto a segunda adopta uma postura mais tranquila e luxuriante, às vezes mesmo planante, como na canção final, Supersymmetry. Há temas, como Here comes the night time ou Flashbulb eyes, em que as características sonoras mais marcadas se cruzam com o dub, fazendo lembrar o que os Clash concretizaram em temas de Sandinista. Outros existem (Reflektor, It"s never over (Oh! Orpheus) ou Afterlife) em que a intervenção de James Murphy se sente na forma como o edifício instrumental é organizado, com linhas de baixo e percussão puxadas para cima, e vozes bem distendidas (David Bowie faz uma pequena intervenção em Reflektor, mais simbólica do que marcante). Mas também há canções que fazem lembrar os Arcade Fire do último álbum, como Normal person ou Joan of Arc, numa linha em que o rock & roll clássico interage com diferentes texturas.

Apesar de tudo, os pontos de ligação com o passado não se perderam. Dir-se-ia que há mais balanço rítmico, mais temperaturas e variações, sem que o nervo e a intensidade de sempre se tivessem ressentido. Excelente, portanto.

Podia ser um best of

Cass McCombs

Big Wheel And Others

Domino; distri. Edel

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Até aqui, cada álbum de Cass McCombs habitava um universo específico. A marca do seu autor estava presente (quem tem uma voz como McCombs, quem escreve as letras que escreve McCombs é sempre imediatamente identificável), mas enquanto PREfection reflectia nas guitarras influenciadas pelo indie inglês original os tempos passados em Londres, Dropping the Writ soava a mergulho numa certa ideia de rock psicadélico sabotado pela idiossincrasia de McCombs. Catacombs, por sua vez, investia nas músicas americanas de raiz e Wit"s End era maravilha fantasmagórica, assombração com o seu quê de soul (e um dos álbuns da década). Antes de todos eles, ouvíramos A, o álbum de estreia, e depois de Wit"s End chegou rapidamente Humour Risk, álbum mais apressado, menos convicto - "apenas" um bom álbum de um músico maior.

Big Wheel And Others, tendo isto em perspectiva, é uma surpresa. Não é álbum criado num ambiente sonoro específico, é o álbum em que todos os universos que McCombs criou para a sua música se combinam. Como que um best of em que, curiosamente, não conhecemos nenhuma das canções - mas reconhecemo-nos nelas. Mais do que isso, ouvimos um músico em estado de graça pela convicção na interpretação, pela abrangência estética, pela inspiração e pela imaginação posta nas palavras, ora sarcásticas, ora pungentes, sempre surpreendentes. E ouvimo-lo - em contraciclo com um tempo em que a capacidade de concentração é, como dizer?, reduzida - em modo torrencial. Quase 20 canções (com três excertos intercalados de Sean, filme de 1969 em que um miúdo de quatro anos, criado em comuna hippie, nos apresentava a sua visão do mundo), 65 minutos de duração.

Do blues rock lamacento de Big wheel, a meio caminho entre o Sul dos EUA e o Norte de África, povoado por um machão muito machão (que há-de concluir "a man with a man - how more manly can you get?") à canção feita cinema negro de Joe Murder (Nick Cave ia adorar esta); do folk rock agraciado com guitarra pedal steel (belíssima Angel blood) ao epitáfio que ofereceu a Karen Black, a actriz que morreu em Agosto e que cantara com McCombs em Dreams-come-true-girl (Brighter é como que continuação dessa canção, em modo deliciosamente perverso: Brighter Sid Vicious/ brighter housewive, canta Black, I hope you all die, continua ela a cantar); do início com a voz do Sean-criança a explicar que "come e fuma erva" (parece que provocou grande escândalo em 1969) à Unearthed com que McCombs se despede, blues acústico enfeitiçado, empoeirado, misterioso, encontramos um compêndio de Americana criado por um músico que, álbum após álbum, alheio a qualquer tipo de legitimação mediática, se inscreve decididamente no cânone da música popular urbana da última década.

Este álbum desmesurado, gravado com uma banda que sabe perfeitamente o que oferecer às canções e quando se remeter aos bastidores (o saxofone que segue lacónico o riff de Burning of the temple; a secção rítmica que aquece a gentil Morning star), pode não ser o melhor de Cass McCombs - falta-lhe, por exemplo, o impacto que a concisão de Wit"s End provoca. Mas é o álbum de alguém no total domínio da arte que abraçou. Uma irresistível colecção de canções. Assinada Cass McCombs, músico maior. Mário Lopes

Tom Waits no século XXI

King Krule

6 Feet Beneath The Moon

True Panther Sounds; distri. Popstock

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Não é imediatamente perceptível, mas é a voz, a tremenda voz de King Krule, que aguenta 6 Feet Beneath The Moon. É ela o centro em torno do qual orbitam beats de hip-hop arrastados, linhas de guitarra cambaleantes, teclas atmosféricas ao jeito da música de dança de sofá da década de 1990 ou metais que não chegam a ser funky. Está longe de ser uma voz perfeita: as sílabas enrolam-se umas nas outras como se o rapaz tivesse ingerido demasiado vinho e às vezes as palavras são mais cuspidas do que cantadas, mas há algo de visceral, indomável, no canto de Krule - uma espécie de raiva encoberta pela dicção apática, como se a fúria se disfarçasse de numbness para melhor nos atingir. A fórmula de 6 Feet Beneath The Moon é incerta: a voz ao centro percorrendo melodias que não são curvas bem desenhadas, antes caminhos retorcidos por montanhas nubladas; depois ou a guitarra ou as teclas ocupam o espaço vazio numa atmosfera sempre narcótica e carregada. E isto pode ter resultados muito diferentes: Has this hit (que a meio é tomada por uma progressão perfeita) ou Baby blue são quase torch songs, próprias de um crooner do século XXI; a estupenda Borderline, Foreign 2 ou The krockadile acabam num funk branco meio manco (e, livre de electrónica, Easy easy soa quase a Billy Bragg.) Mais do que canções sobre amores ou desafecto, são canções sobre a impotência, as minúsculas fragilidades que tolhem os humanos; o aspecto inacabado, titubeante, de cada canção só aumenta o charme de um disco que soa ao que Tom Waits faria, se fosse um puto de 19 anos no século XXI. Discaço. João Bonifácio

Renascimento

Milton Nascimento

Uma Travessia

Universal

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Dez anos passados sobre o seu último álbum digno de nota alta, Pietá (2002), Milton Nascimento celebra os seus 50 anos de carreira com um trabalho de renascimento, no estrito sentido da palavra. Primeiro porque não se trata de uma colectânea (e há tantas, baseadas na sua vasta obra) mas sim de uma regravação; segundo, porque nesse trabalho, imaginado para palco e não para estúdio, ele se empenhou de corpo e alma e isso transparece no espectáculo (gravado no Rio em 2012 e editado em CD duplo e DVD, 123 minutos sem quaisquer extras) a que sugestivamente foi dado o nome de Uma Travessia. Uma, não "a", já que tantas travessias houve, e em diferentes caminhos, ao longo do seu percurso. Esta é uma aposta clara no espírito fundador do Clube da Esquina: das 23 canções escolhidas, sete vêm desse álbum mítico (o primeiro, de 1972) e não por acaso são aqui chamados ao palco, para tocar ou cantar com ele, dois dos seus cúmplices mais antigos, marcantes nesse disco, Wagner Tiso e Lô Borges. Temas como Lília, Cais, Anima, Nada será como antes, Nos bailes da vida, Canção da América ou Coração de estudante brilham como se fossem tocados pela primeira vez. Devido à voz de Milton, vibrante como há muito não soava, e ao trabalho do excelente quinteto em palco: Kiko Continentino, Widor Santiago, Wilson Lopes, Gastão Villeroy e Lincoln Cheib. Se há razões para a magia, ele explica-as cantando. Primeiro em Cais, a abrir: "Para quem quer se soltar/ invento o cais (...)/ Para quem quer me seguir/ eu quero mais/ tenho o caminho do que sempre quis". Depois em Travessia, a fechar: "Solto a voz nas estradas/ já não quero parar". E aqui é o Milton de sempre, transcendentemente iluminado. Nuno Pacheco

Gomas eléctricas

Sleigh Bells

Bitter Rivals

Mom + Pop

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Apareceram e eram irresistíveis. Treats (2010), o álbum de estreia do duo norte-americano formado pela vocalista Alexis Krauss e o guitarrista Derek Miller, é uma colecção de potenciais singles, quase todos eles rebuçados pop que pilham as guitarras ásperas do metal, os ritmos quadrados do hip-hop original e, cereja no topo deste gigante bolo, a voz de Alexis, sexy, sexy, sexy.

Os norte-americanos Sleigh Bells eram, e são, uma fantasia, uma soma de excessos (de violência rock, patente na muralha de amplificadores que exibem ao vivo, de sexualidade), posta ao serviço de canções pop. Reign of Terror (2012), o segundo disco, não mudava a receita, mas revelava alguma saturação e punha a questão: até que ponto uma fórmula tão precisa pode ser reinventada?

Bitter Rivals tenta. E consegue, parcialmente. A fórmula está cá, mas há óbvias tentativas de a renovar, acrescentando pormenores melódicos ao que antes era um (delicioso) bloco em espasmos. Tiger kit tem teclados na primeira fila, Young legends é uma cantiga R&B, To hell with you desliga as guitarras e é - heresia! - uma balada, se bem que para seta pop radiofónica existam melhores opções no catálogo do duo (está longe de Rill rill, a doce excepção à toada metal-pop de Treats, ou mesmo de End of the line, de Reign of Terror).

No capítulo da brutalidade açucarada há várias canções que podiam estar nos discos anteriores, como Sugarcane e Bitter rivals, mas também vontade de mudar, mesmo dentro do apertado conceito que a banda definiu para si mesma. O refrão de Sing like a wire, com sintetizadores demolidores, é bombástico como o trap pode ser. You don"t get me twice (a melhor canção do disco) tem Alexis a brincar ao R&B e a cantar como se daqui pudesse sair o novo hino das cheerleaders de Brooklyn.

Há coisas que mudam para que tudo fique na mesma: os Sleigh Bells enquanto máquina que junta a doçaria pop ao motim eléctrico. Como Alexis canta no verso final do álbum: "sending gummy bears to the electric chair". Pedro Rios

Clássica

Janácek revelado

Um disco fundamental para conhecer a obra encantatória de Janácek. Rui Pereira

Leos Janácek: Brumes d'enfance

Accentus

Alain Planès, piano

Pieter-Jelle de Boer, direcção

Naive 5330

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O que mais impressiona nas gravações do coro Accentus é a sonoridade de marca, muito especialmente tendo em conta que esta é uma formação com um repertório muito diversificado. Normalmente, os coros que têm um som identificável cantam música de um período muito restrito, ou numa só língua. O Accentus tem uma marca de água de altíssima qualidade e quebra esta regra. Desta feita editam um disco inteiramente dedicado ao compositor checo Leos Janácek (1854-1928) mas com uma panóplia alargada de géneros: música para coro misto a cappella, para coro masculino, para soprano com acompanhamento de flauta e coro feminino, para tenor com acompanhamento de coro misto e piano e, ainda, para piano solo. O CD termina com um alargado conjunto de peças infantis para coro e uma pequena formação instrumental que inclui ocarina.

Toda esta grande diversidade dá um impressionante testemunho do legado de Janácek, o qual permanece pouco conhecido, especialmente no domínio das cantatas para voz solista e coro com acompanhamento instrumental. Sob a direcção do maestro holandês Pieter-Jelle de Boer, o coro alcança uma condução das harmonias exemplar e o papel dos instrumentos um equilíbrio fantástico e que muito diz sobre a qualidade técnica da gravação. O pianista Alain Planès revela-se um acompanhador sensível e interpreta uma das poucas obras para piano solo do compositor, se bem que tremendamente conhecida, o pequeno ciclo Nas brumas. E a inclusão desta peça com uma duração de cerca de 15 minutos, a meio do disco, demonstra a intenção de proporcionar uma experiência de audição diversificada que resultaria ainda melhor no formato de concerto ao vivo. Essa variedade é alcançada sobretudo pela originalidade das 28 rimas infantis com introdução instrumental que encerram o disco, uma revelação encantatória.

Ai, ai, ai, é este o estado do Scala?!

Requiem

Antas Harteros, Elina Garanca, Jonas Kaufmann, René Pape

Daniel Barenboim, direcção

Decca; distri. Universal

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Daniel Barenboim é uma personalidade notável, e também um intérprete que sempre foi controverso, primeiro como pianista - impossível de ignorar, em qualquer caso - e depois, por diferentes razões, como maestro. Entre a Sinfónica de Chicago, a Staatsoper de Berlim e mais recentemente o Scala, tem acumulado importantes cargos, sem que se possa deixar de pôr a questão sobre se tem sido a escolha mais adequada. A discussão tem sido aliás muito intensa a propósito do Scala, pois Barenboim não é de modo nenhum um maestro de melodrama italiano e de Verdi em particular.

O elenco da presente gravação é um luxo absoluto, sendo difícil de imaginar uma mais capaz escolha, à dupla Harteros-Kaufmann, um verdadeiro par como há muito não havia (e tenha-se toda a atenção à soprano, ainda muito pouco conhecida em Portugal), acrescendo Garanca e Pape. Mas também por isso, o único aspecto em que afinal se justificavam expectativas, este registo desilude tremendamente: Pape vocifra, grita Kaufmann no Ingemisco sem qualquer brilho, Garanca é desigual, o que afecta em particular o dueto com a soprano no Recordare, e mesmo a última, sendo sem dúvida a melhor presença, só tem efectivo espaço no Libera me final.

Barenboim já tinha gravado a obra em Chicago, e nada mais há a acrescentar se não que a confusão desta leitura massiva é muita. A comparação com os seus antecessores directos no Scala, Abbado (na primeira das suas várias gravações da obra) e Muti, é inelutável e cruel. E mesmo numa perspectiva também ela eminentemente espectacular da obra, não há comparação possível com o recente (2009) registo de Pappano com o Coro e Orquestra de Santa Cecilia de Roma, de resto já com Harteros e Pape (muitíssimo melhor que agora), mais Ganassi e Villazon. Mas que triste desperdício! Augusto M. Seabra

Jazz

Oh, Susana

Dois novíssimos registos que confirmam a ascensão da versátil trompetista Susana Santos Silva. Nuno Catarino

Susana Santos Silva & Torbjörn Zetterberg

Almost Tomorrow

Clean Feed

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LAMA + Chris Speed

Lamaçal

Clean Feed

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Liderando o seu próprio quinteto, Susana Santos Silva já nos tinha mostrado em Devil"s Dress um óptimo cartão de apresentação, dentro de um jazz straight. Em paralelo com um notável percurso de orquestras - principalmente na Orquestra Jazz de Matosinhos, mas também integrando a European Movement Jazz Orchestra -, a trompetista soube no tempo certo ir mais além e procurar o seu próprio caminho.

Com o trio LAMA, Susana Santos Silva revelou disponibilidade para uma música mais aberta, característica que foi amplificada nos duos SSS-Q (dupla com o baterista Jorge Queijo) e com o contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg, em que a improvisação ganhou um destaque cada vez maior. LAMA junta o trompete de Santos Silva com o português Gonçalo Almeida (contrabaixo, electrónica) e o canadiano Greg Smith (bateria), tendo-se revelado uma boa surpresa quando editou o seu disco de estreia, Oneiros. Neste novo Lamaçal, gravado ao vivo no Portalegre Jazzfest, conta com um convidado especial, o palhetista americano Chris Speed.

Se no primeiro disco o trio demonstrou um excelente entrosamento, neste novo registo essa característica é ainda mais evidenciada. Mesmo a presença de Speed (saxofone tenor e clarinete), músico de imensos recursos, é integrada com naturalidade. Os quatro músicos conseguem desenvolver uma articulação fluída, trabalhando as composições com destreza, equilíbrio e imaginação. É uma música pautada pela originalidade e em que, apesar do espaço para largas intervenções individuais, nunca deixa de sobressair a clareza.

É no duo com Torbjörn Zetterberg que a trompetista se acerca de terrenos mais inóspitos. Almost Tomorrow mostra-nos uma música em que a improvisação é mais assumida. O trompete de Susana (luminoso a solar em orquestra) revela mais rugosidade, indo ao encontro do som sujo do contrabaixo de Zetterberg. O disco vive do diálogo entre os instrumentos. Ao longo deste processo de pesquisa acontecem momentos de verdadeira partilha, mas também o desencontro, o afastamento e o confronto. Apesar da permanente toada experimental, há espaço para a melodia - ouçam-se Notskalsmusik #6 ou o tema que dá título ao disco, que chega a fazer lembrar Lonely woman, de Ornette,.

Contrastando com a claridade de Lamaçal, Almost Tomorrow desvenda uma faceta mais negra de Susana Santos Silva - comuns são a alta intensidade e a energia criativa. Ficámos com uma confirmação: a trompetista que nos mostrou Devil"s Dress já não tem medo de passear pelas ruas mais escuras. Ainda bem.

Clássico instantâneo

Ivo Perelman Quartet

Serendipity

Leo Records

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Residente há muitos anos em Nova Iorque, Ivo Perelman é um dos principais nomes da free music brasileira. Inspirado tanto por Albert Ayler como por Archie Shepp ou Gato Barbieri, tem tocado e gravado com inúmeros grandes nomes do género como Paul Bley, Andrew Cyrille, Joe Morris, Matthew Shipp, Rashied Ali, Gerald Cleaver, William Parker, Borah Bergman ou Dominic Duval, entre muitos outros. Na sua já longa discografia, com cerca de meia centena de títulos, destaca-se a fase que começa no virar do século, particularmente produtiva e a revelar uma profunda depuração da sua linguagem orgânica e livre. Só em 2011, ano em que foi gravado este Serendipity, finalmente editado, Perelman fez quatro gravações - além desta, Family Ties e Living Jelly, ambas com Morris e Cleaver, e The Foreign Legion, também em trio, desta vez com Shipp e Cleaver.

Em Novembro desse ano, quando esperava em estúdio por estes dois músicos, ao ver que um deles estava seriamente atrasado e não o conseguia contactar, Perelman ligou ao contrabaixista William Parker para que o substituísse. A ironia do destino fez com que todos acabassem por chegar, transformando a sessão de trio num quarteto. Se é verdade que o saxofonista tem alguns títulos na sua discografia que poderão ser já considerados clássicos do free jazz, nomeadamente Sad Life, Seeds, Vision & Counterpoint ou Sound Hierarchy, neste disco somos surpreendidos por um som maduro, equilibrado em toda a sua grandeza pelo poder avassalador de Matthew Shipp no piano, William Parker no contrabaixo e Gerald Cleaver na bateria. Ao longo dos 45 minutos que dura o tema único do álbum, somos impactados por uma torrente incandescente de notas e ideias, num todo que forma um arco de lógica inabalável. Cleaver e Parker seguram o ritmo, acentuando e colorindo com precisão e liberdade onde muito bem entendem, e as notas de Shipp dançam em torno do discurso torrencial do saxofonista. Os altíssimos de Perelman surgem particularmente calibrados, menos estridentes do que no passado, assim como o seu trabalho rítmico. Sessão particularmente enérgica e vibrante, Serendipity revela-se um clássico instantâneo do free jazz actual. Rodrigo Amado