Crítica

Podia ser um best of

Até aqui, cada álbum de Cass McCombs habitava um universo específico. A marca do seu autor estava presente (quem tem uma voz como McCombs, quem escreve as letras que escreve McCombs é sempre imediatamente identificável), mas enquanto PREfection reflectia nas guitarras influenciadas pelo indie inglês original os tempos passados em Londres, Dropping the Writsoava a mergulho numa certa ideia de rock psicadélico sabotado pela idiossincrasia de McCombs. Catacombs, por sua vez, investia nas músicas americanas de raiz e Wit"s End era maravilha fantasmagórica, assombração com o seu quê de soul (e um dos álbuns da década). Antes de todos eles, ouvíramos A, o álbum de estreia, e depois de Wit"s End chegou rapidamenteHumour Risk, álbum mais apressado, menos convicto - "apenas" um bom álbum de um músico maior.

Big Wheel And Others, tendo isto em perspectiva, é uma surpresa. Não é álbum criado num ambiente sonoro específico, é o álbum em que todos os universos que McCombs criou para a sua música se combinam. Como que umbest of em que, curiosamente, não conhecemos nenhuma das canções - mas reconhecemo-nos nelas. Mais do que isso, ouvimos um músico em estado de graça pela convicção na interpretação, pela abrangência estética, pela inspiração e pela imaginação posta nas palavras, ora sarcásticas, ora pungentes, sempre surpreendentes. E ouvimo-lo - em contraciclo com um tempo em que a capacidade de concentração é, como dizer?, reduzida - em modo torrencial. Quase 20 canções (com três excertos intercalados de Sean, filme de 1969 em que um miúdo de quatro anos, criado em comuna hippie, nos apresentava a sua visão do mundo), 65 minutos de duração.

Do blues rock lamacento de Big wheel, a meio caminho entre o Sul dos EUA e o Norte de África, povoado por um machão muito machão (que há-de concluir "a man with a man - how more manly can you get?") à canção feita cinema negro de Joe Murder (Nick Cave ia adorar esta); do folk rock agraciado com guitarra pedal steel (belíssima Angel blood) ao epitáfio que ofereceu a Karen Black, a actriz que morreu em Agosto e que cantara com McCombs emDreams-come-true-girl (Brighter é como que continuação dessa canção, em modo deliciosamente perverso: Brighter Sid Vicious/ brighter housewive, canta Black, I hope you all die, continua ela a cantar); do início com a voz do Sean-criança a explicar que "come e fuma erva" (parece que provocou grande escândalo em 1969) à Unearthed com que McCombs se despede, blues acústico enfeitiçado, empoeirado, misterioso, encontramos um compêndio de Americana criado por um músico que, álbum após álbum, alheio a qualquer tipo de legitimação mediática, se inscreve decididamente no cânone da música popular urbana da última década.

Este álbum desmesurado, gravado com uma banda que sabe perfeitamente o que oferecer às canções e quando se remeter aos bastidores (o saxofone que segue lacónico o riff de Burning of the temple; a secção rítmica que aquece a gentil Morning star), pode não ser o melhor de Cass McCombs - falta-lhe, por exemplo, o impacto que a concisão de Wit"s End provoca. Mas é o álbum de alguém no total domínio da arte que abraçou. Uma irresistível colecção de canções. Assinada Cass McCombs, músico maior.