Casal McCann esteve em Portugal e foi informado pela PJ de planos para reabrir processo

Advogado de Kate e Gerry admite que família se constitua assistente no inquérito.

Madeleine McCann desapareceu no Algarve a 3 de Maio de 2007
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Madeleine McCann desapareceu no Algarve a 3 de Maio de 2007 MIGUEL MADEIRA

Os pais de Madeleine McCann, Kate e Gerry, estiveram em Portugal a semana passada convocados informalmente pela Polícia Judiciária (PJ) que os informou dos planos para reabrir a investigação, um pedido que o Ministério Púbico (MP) anunciou esta quinta-feira ter aceite.

O encontro ocorreu na passada quinta-feira, dia 17, no final de uma reunião com os inspectores da Scotland Yard que também estão a investigar o desaparecimento da menina inglesa, enquanto passava férias com a família na Praia de Luz, no Algarve, em Maio de 2007.

A informação consta de um comunicado divulgado esta quinta-feira pela Polícia Metropolitana de Londres e confirmada por fonte da direcção nacional PJ, que precisou que o encontro ocorreu na sede daquela polícia, em Lisboa. O advogado do casal McCann, Rogério Alves, confirma que os clientes foram informados do pedido de reabertura do inquérito. “Isto significa que a polícia entende que há caminhos novos que podem ser explorados. E isso provocou nos pais uma expectativa legítima que não só seja descoberta a verdade como seja possível descobrir a Madeleine com vida, o que é o único objectivo deste esforço que têm vindo a empreender”, afirma o advogado.

Rogério Alves acrescenta que os pais de Madeleine estão a ponderar constituir-se assistentes no processo, “já que esta linha de investigação excluiu qualquer responsabilidade dos próprios quanto ao crime que estará na base do desaparecimento da Madeleine”.

Em comunicado, citado pelos media ingleses, o casal McCann manifestou-se esta quinta-feira “muito satisfeito” com reabertura do inquérito em Portugal.“Esperamos que isto possa finalmente conduzir a que ela seja encontrada e à descoberta de quem quer que seja o responsável por este crime”, afirmaram.

Kate e Gerry McCann voltam a apelar ao público para transmitir informações relevantes à polícia, mas pedem “respeito” pelas investigações. “Por favor sejam pacientes e respeitem o trabalho da polícia enquanto esta procura encontrar as respostas que nós tão desesperadamente precisamos", sublinham. Apelaram ainda à comunicação social para no seu trabalho “ter em consideração a segurança de Madeleine e a integridade da investigação”. 

Numa nota, a Procuradoria-Geral da República (PGR) adianta que a reabertura foi determinada “na sequência de proposta da Polícia Judiciária, e atendendo à apresentação de novos elementos indiciários que justificam o prosseguimento da investigação”.

O inquérito vai continuar a correr na Procuradoria da República de Portimão, que, segundo a nota, requereu ao juiz de instrução que o inquérito fique sujeito ao segredo de justiça.

O PÚBLICO noticiou na edição impressa desta quinta-feira que as autoridades portuguesas ponderavam a reabertura do caso. O pedido da PJ foi resultado do trabalho de mais de dois anos de reanálise do processo levado a cabo por uma equipa da PJ do Porto, criada em Março de 2011. Um grupo de quatro inspectores liderados pela coordenadora de investigação Helena Monteiro – que nunca havia contactado com o inquérito, evitando assim qualquer contaminação na apreciação – terá identificado testemunhas que nunca foram inquiridas enquanto o processo esteve a decorrer, até Julho de 2008.

Isso mesmo é confirmado num comunicado divulgado esta quinta-feira pela PJ. “Esse trabalho de reanálise, que decorreu durante os últimos dois anos e meio, permitiu conhecer novos indícios que, impondo a continuação da investigação, preenchem os requisitos (...) para a reabertura do inquérito”, lê-se na nota. A PJ adianta que, à semelhança do que sucede com todos os casos de crianças desaparecidas, apesar do arquivamento formal do inquérito, “continuou a estar atenta a toda e qualquer informação susceptível de permitir conhecer o paradeiro da menor Madeleine McCann, as circunstâncias em que ocorreu o seu desaparecimento e a identidade do(s) seu(s) autor(es)”. 

Investigação centrada na tese do rapto
O PÚBLICO sabe que os elementos da PJ do Porto já se deslocaram várias vezes ao Algarve, para recolher elementos e realizar diligências informais, que permitirão sustentar a necessidade de reabrir o caso. A reabertura do inquérito é a única forma de que a PJ dispõe para inquirir formalmente essas testemunhas.

A reanálise do processo volta a centrar a investigação na tese de rapto, a principal linha seguida pela Scotland Yard, que também abriu uma investigação ao desaparecimento de Maddie. A equipa da PJ do Porto terá ficado convicta dessa tese perante a observação cuidada de toda a informação existente no processo. 

Fonte da PJ fez questão de realçar ao PÚBLICO que o pedido de reabertura do processo resulta exclusivamente do trabalho da equipa do Porto e não de elementos recolhidos pela Scotland Yard, que também abriu uma investigação ao desaparecimento de Maddie. Esse  trabalho também não se confunde com o de outra equipa de seis inspectores da delegação da PJ de Faro que está há mais de um mês a realizar as diligências solicitadas pelas autoridades britânicas, no âmbito de um pedido de cooperação internacional. A direcção nacional da PJ recusa-se a adiantar pormenores sobre os novos indícios recolhidos e até sobre quem ficará responsável pela investigação, tentando resguardar o trabalho dos inspectores. 

A polícia inglesa confirma, na sua nota, que a linha de investigação seguida pelos portugueses é distinta da que está a ser explorada pela Scotland Yard.  “A pedido da Polícia Judiciária, Mark Rowley e Andy Redwood  participaram numa reunião com responsáveis daquela polícia a 17 de Outubro, em Lisboa, para discutir os desenvolvimentos significativos da investigação e transmitir-lhes informação detalhada sobre as novas linhas do inquérito, que, nesta altura, são distintas das que estão a ser exploradas pela polícia metropolitana”, lê-se no comunicado.  

A Scotland Yard adianta que as suas investigações decorrerão em paralelo e que “num futuro breve” os inspectores da polícia metropolitana virão regularmente a Portugal, para acompanhar os desenvolvimentos das diligência solicitadas no âmbito do pedido de cooperação internacional.

“Isto é um desenvolvimento relevante, mas ambas as investigações estão em fase relativamente inicial, havendo muito trabalho por fazer. Este progresso é encorajador mas ainda temos um caminho a percorrer e como em todas as grandes investigações nem sempre as linhas de investigação mais promissoras produzem resultados”, afirma Mark Rowley, citado na nota.

O responsável da polícia metropolitana agradece ao público europeu a resposta ao apelo feito a semana passada e diz que a relação com a PJ está cada vez mais próxima. “Acredito que estamos perante a melhor oportunidade para finalmente perceber o que aconteceu a Madeleine”, remata. 

Pais da Maddie não querem criar “expectativas”
Um representante dos pais de Maddie, Kate e Gerry McCann, já comentou a reabertura do inquérito ao desaparecimento da menina inglesa pela PGR. “Kate e Gerry não querem criar demasiadas expectativas, mas, se a polícia portuguesa quer reabrir a investigação, isso é um desenvolvimento significativo e um passo muito importante”, disse esta quinta-feira ao Daily Express.

Na quarta-feira, o comissário superior e chefe da Polícia Metropolitana de Londres, Bernard Hogan-Howe, defendeu a forma como a polícia portuguesa desenvolveu a investigação inicial ao desaparecimento. O comissário admitiu que seria “muito difícil” para os investigadores da PJ que estiveram momentos depois do alerta do desaparecimento na Praia da Luz saber que tipo de crime estava em causa.

“É muito difícil lidar com estas coisas logo de início quando não sabemos se a criança apenas se afastou [do local onde a tinham deixado]. É muito difícil perceber se foi isso ou se ocorreu mesmo um crime”, disse Hogan-Howe em declarações à radio LBC, citadas pelo jornal The Scotsman.

O comissário disse acreditar que a investigação inicial tenha sido “um verdadeiro desafio” para a PJ. “Qualquer pessoa pode voltar atrás e dizer 'por que não fizeram isto?'”, aludiu, sublinhando, contudo, que “isso é fácil de dizer”.

“Não gostamos quando dizem isso da Polícia Metropolitana de Londres, por isso não vamos dizer o mesmo dos polícias portugueses”, defendeu acreditando que “agora existe” a “melhor oportunidade” de descobrir, num trabalho conjunto entre as duas polícias, o que “realmente aconteceu” no âmbito desta “terrível tragédia”.