Aplicar castigos promove cooperação entre países face às alterações do clima

Jogando um "jogo" matemático, cientistas portugueses concluem que é preciso sancionar os países que não aderem aos acordos climáticos. Mas, para funcionarem, as sanções devem ser aplicadas por agências locais

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As alterações climáticas acarretam eventos meteorológicos extremos cada vez mais frequentesO matemático Jorge Pacheco AFP

Há anos que as Nações Unidas tentam convencer os governos do mundo a investir no combate ao aquecimento global - com os medíocres resultados que se conhecem. E se em vez desta abordagem "de cima para baixo", a lógica fosse outra? Se fossem criadas entidades mais locais, com objectivos mais realistas - e que punissem os incumpridores? Num artigo recentemente publicado na revista Nature Climate Change, três cientistas portugueses testaram esta hipótese através de um "jogo" de computador. E concluem que um esquema "de baixo para cima" seria capaz de promover mais eficazmente a cooperação espontânea e generalizada de todos.

O problema com o aquecimento global é que muitos países consideram que o risco de sobrevir uma catástrofe climática é ainda longínquo e até incerto. Por isso, mesmo perante as conclusões contundentes do último relatório divulgado em Setembro pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas - que conclui que o aquecimento global é um fenómeno real, que a culpa pelas alterações climáticas é nossa, que, lá para 2050, os efeitos das alterações climáticas poderão tornar-se definitivos - não se sentem obrigados a agir já.

Jorge Pacheco e Francisco Santos, do Instituto para a Investigação Interdisciplinar da Universidade de Lisboa, já tinham desenvolvido um modelo matemático para simular a evolução da cooperação entre países num cenário como este, em que o "bem comum" está em causa.

O "jogo" consistia em modelizar uma população e observar, ao longo do tempo, quantas das pessoas que no início não queriam cooperar mudavam de ideias e decidiam assinar um acordo para travar o aquecimento global. Os cientistas tinham concluído, em 2011, que as cimeiras do clima nunca conseguiriam fomentar a cooperação dos governos, propondo uma abordagem alternativa: que a discussão em matéria de alterações climáticas se desenrolasse ao nível regional e não mundial.

Agora, juntamente com o seu colega Vítor Vasconcelos, quiseram ver se seria possível aplicar medidas concretas para promover essa cooperação internacional e salvar o planeta de nós próprios. Para isso, introduziram no modelo matemático - para além dos "cooperadores" (os que investem no bem comum) e dos "incumpridores" (os que se recusam a fazê-lo) do modelo anterior -, uma terceira população: a dos "castigadores". Ou seja, pessoas que investem no combate ao aquecimento global e ao mesmo tempo financiam uma instituição encarregada de punir os incumpridores.

"No novo estudo", disse ao PÚBLICO Jorge Pacheco, "quisemos ver em que condições é que instituições capazes de punir os que não cumprem podem contribuir para resolver o problema do aquecimento global. E verificámos que as instituições à escala global, como a ONU, não servem para nada (ou para muito pouco)". Porém, salienta o cientista, "as instituições locais, criadas por grupos de países (ou províncias, ou estados, ou regiões) para supervisionar o acordo a que chegaram [entre eles] e punir os que não o respeitem poderão ser muito mais eficientes e promover uma cooperação à escala global."

De facto, quando simularam a evolução das três populações (cooperadores, incumpridores e castigadores), os cientistas constataram que, quando a percepção do risco é pouco aguda e a consciência do perigo difusa - como é hoje o caso em relação às questões climáticas -, as instituições locais são mais duradouras do que as globais, o que lhes permite continuar a exercer a sua autoridade.

Numa primeira fase, mesmo quando a instituição que aplica as sanções é global, escrevem, "o número de castigadores ultrapassa rapidamente o de incumpridores, conduzindo a uma situação de total cooperação. Porém, uma vez esta situação instalada, o número de cooperadores ultrapassa por sua vez o de castigadores, que passam então a suportar uma estrutura que se tornou inútil." E, na medida em que o risco de catástrofe não é visto como premente, o investimento necessário para manter a instituição supervisora global torna-se difícil de justificar e a instituição torna-se "instável".

Mas o mesmo já não acontece quando a entidade supervisora é de âmbito mais local, revela o modelo. Neste caso, lê-se ainda no artigo, a evolução da cooperação muda radicalmente e "a população estabiliza-se em configurações onde um substancial número de castigadores e de cooperadores consegue impedir uma invasão de incumpridores", preservando, de forma mais sustentável, o nível de cooperação atingido.

Num artigo na mesma revista, Alessandro Tavoni, da Escola de Economia de Londres, considera que os resultados são uma "boa notícia". O mais importante, escreve, é que estes resultados mostram que "a ameaça de sanções ao nível nacional poderá estimular investimentos destinados a evitar as alterações climáticas catastróficas." E conclui: "Para operar as transformações tecnológicas e comportamentais necessárias para evitar um aquecimento potencialmente catastrófico [do planeta], as acções unilaterais ao nível local irão desempenhar um papel crucial. Resta saber se a conjunção de todos estes esforços será suficiente para garantir que a linha de segurança climática não seja ultrapassada".