Dois anos depois da libertação, o poder continua nas mãos de quem tem armas

Sequestro do primeiro-ministro da Líbia expôs a fragilidade das novas autoridades, provando que o país está refém das milícias e da violência. Líbios temem profecias que falam num Estado falhado.

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"Na Líbia de hoje uma kalashnikov é uma apólice de seguro", diz o analista líbio Anas el-Gomati REUTERS/Esam Al-Fetori/Files

Dois anos depois da captura de Muammar Khadafi, a situação na Líbia aparenta ser tão caótica como as grotescas imagens dos últimos momentos de vida do ditador, que ensanguentado e confuso era arrastado pelos que o acabariam por matar. Os rebeldes de então são os mesmos que agora recusam entregar as armas e mantêm refém um Governo incapaz de impor a sua lei. Sem Constituição, minado por um labirinto de rivalidades e ameaçado pela violência jihadista, o país teme transformar-se num Estado falhado.

O caos não é de agora - ainda que a guerra na Síria ou as revoltas no Egipto tenham remetido a transição líbia para os rodapés dos noticiários -, mas o sequestro do primeiro-ministro, Ali Zeidan, no passado dia 10, expôs até que ponto é disfuncional a frágil estrutura política que tenta preencher o vácuo criado pela queda de Khadafi. Hoje, dois anos depois de os rebeldes terem proclamado a libertação da Líbia, teme-se a concretização das piores profecias.

Alojado no hotel Corinthia, tido como um reduto de segurança na capital, o primeiro-ministro foi levado por uma centena de homens armados, sem que ninguém oferecesse resistência. Os milicianos, supostamente às ordens do Ministério do Interior, anunciaram ter detido Zeidan por cumplicidade na operação das forças especiais americanas que dias antes tinham capturado em Trípoli Abu Anas al-Liby, um alto dirigente da Al-Qaeda. A procuradoria assegurou que não existia qualquer mandato contra o primeiro-ministro, que acabou por ser libertado por milícias rivais, próximas do Ministério da Defesa.

Zeidan começou por desvalorizar o sucedido -"isto é parte do jogo político habitual", disse no regresso ao hotel -, mas domingo, quando se celebrava o segundo aniversário da captura de Khadafi, falou numa "tentativa de golpe contra a legitimidade" levada a cabo por milícias que "querem transformar a Líbia noutro Afeganistão ou Somália" e acusou a Irmandade Muçulmana líbia, derrotada nas legislativas de 2012, de minar a acção do seu Governo.

Mas quem conhece o país traça um retrato mais complexo da situação. As divisões não são apenas entre islamistas e seculares, entre as poderosas tribos e o poder central, ou entre forças regulares e as milícias. Atravessam o próprio executivo, dividem o país e cosem alianças de ocasião entre políticos e os antigos rebeldes, que recusam desarmar ou integrar-se no Exército e na polícia que o Governo tenta em vão criar do zero.

Algumas respondem nominalmente a Trípoli - que lhes paga os salários, sem ter garantias de lealdade -, outras dizem-se fiéis à sua tribo ou cidade, como é caso das brigadas rivais de Misrata (próxima dos islamistas) e Zintan (apoiante da Aliança de Forças Nacionais, no poder). E quase todas aproveitam o vácuo criado pela queda de Khadafi para imporem a sua lei nas ruas e apoderar-se do tráfico, de armas e droga, e das rotas da imigração clandestina. Outros assumiram o controlo de poços de petróleo ou dos terminais marítimos, bloqueando as exportações de crude.

A ameaça jihadista

"Na Líbia de hoje uma [metralhadora] kalashnikov é uma apólice de seguro. Significa que quem a tem vai ter um salário, uma palavra a dizer na forma como o país funciona", disse Anas el-Gomati, director do Instituto Sadeq, um think-tank independente líbio, recordando que as milícias passaram de escassos milhares de homens durante os oito meses da guerra contra as forças de Khadafi para 225 mil nas actuais folhas de pagamento do Governo.

A situação é ainda pior em Bengasi, berço da revolução, onde aos combates entre milícias se soma a presença cada vez mais inegável de grupos jihadistas, apontados como principais suspeitos de ataques contra representações e interesses estrangeiros - como o que em 2012 matou o embaixador norte-americano - e dos mais de 80 assassínios registados só neste ano na Cirenaica, a metade Leste do país. "O mais importante que temos a fazer é proteger-nos, mas o Estado não faz nada e isso aumenta a sensação de abandono de Bengasi", disse à enviada do El País um responsável local que pediu anonimato, repetindo as antigas queixas de discriminação que alimentam o separatismo na região.

Neste clima, o sequestro de Zeidan ou o assassinato de um comandante da polícia militar de Bengasi, na sexta-feira à porta de uma mesquita, podem ser rastilhos de uma explosão de violência que conduza o país para a guerra civil. "A situação arrisca-se a degenerar nos próximos meses", avisou um diplomata estrangeiro ouvido pela AFP. No domingo, Zeidan pediu aos países que participaram nas operações aéreas contra Khadafi que cumpram as promessas de ajudar a Líbia a construir um Exército, e a NATO respondeu que iria criar uma equipa de peritos militares para aconselhar as autoridades líbias.

Mas alterar a situação no terreno é quase impossível quando o actual equilíbrio de forças é uma consequência directa da forma como Khadafi foi derrubado, escreveu Chris Stephen, correspondente do Guardian numa análise para a revista Foreign Policy. "A revolução líbia fez-se da periferia para o centro. Foi liderada pelas milícias de Bengasi, Misrata e Zintan e terminou não quando Trípoli se revoltou, mas quando foi capturada por essas milícias, com o apoio da NATO". Milícias que agora se sentem donas da revolução e donas do futuro da Líbia.