Falta de investimento está a degradar a rede ferroviária portuguesa

Linhas férreas acusam a falta de dinheiro em manutenção e investimento. Linhas de Sintra, Cascais, Douro, Beira Alta, ramal de Alfarelos e alguns troços da Linha do Norte são das mais necessitadas

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Estado das linhas provoca um desgaste anormal no material circulante da CP ADRIANO MIRANDA

Com os comboios acontece o mesmo que com os automóveis. Se as estradas não são boas, queixam-se a suspensão, os pneus e as rodas das viaturas. No caso do material circulante ferroviário, são essencialmente os rodados que sofrem os efeitos de carris em mau estado, o que aumenta os custos de reparação e de imobilização de comboios e automotoras.

Há outras consequências mais visíveis, claro: os comboios atrasam-se porque a Refer impõe afrouxamentos em determinados troços em mau estado, e os passageiros queixam-se do desconforto quando as carruagens saltitam e abanam ao passarem nas linhas que estão a necessitar de urgente manutenção. Recentemente, um atónito passageiro viu o seu portátil saltar da mesinha para o chão da carruagem devido às sacudidelas da composição. E não é raro garrafas, latas, malas ou livros irem também parar ao chão. Que o digam os passageiros dos Alfas Pendulares e dos Intercidades quando atravessam o troço Ovar-Gaia, na Linha do Norte.

Para a CP, os primeiros sinais de alarme surgiram na Linha de Sintra quando se constatou um desgaste anormal dos rodados dos comboios. Rodas que deveriam ser reperfiladas aos 800 mil quilómetros começaram a ter de ir ao torno de rodados aos 100 mil, tal era o mau estado em que se encontravam.

Técnicos da CP dizem que na linha de Sintra é visível a olho nu o "desgaste ondulatório" nos carris - ou seja, a superfície de rolamento do carril, que deveria ser lisa, acusa pequenas ondas.

Contudo, nada disto compromete, para já, a segurança. Mas os custos de manutenção dos comboios suburbanos que ali circulam é que dispararam.

Do mesmo se queixam os espanhóis que fazem a manutenção das automotoras que circulam na Linha do Douro. Estes veículos foram alugados pela Renfe à CP, mas fazem a "revisão" em Espanha. Nos últimos tempos, também este material tem acusado problemas graves de desgaste das rodas, em níveis considerados "extremamente anormais", segundo um alto responsável da CP.

A Linha do Douro é uma das que ficou à margem de qualquer programa de modernização nas últimas décadas e recorrentemente fala-se no seu encerramento entre Régua e Pocinho. Nos últimos meses, a Refer suspendeu a compra de todos os materiais de via para a manutenção desta linha, incluindo travessas de madeira. Entre Pinhão e Pocinho, a via férrea assenta só em material deste tipo.

O ramal de Alfarelos é um dos troços em pior estado da rede portuguesa. Nele circulam os suburbanos entre Coimbra e Figueira da Foz, que sofrem por vezes atrasos de meia hora em viagens que deveriam ser de 50 minutos. Uma situação que levou já à criação de uma comissão de utentes para exigir a modernização daquele troço.

Os problemas na infra-estrutura ferroviária abrangem não só as linhas que nunca foram modernizadas e que têm sistemas de exploração idênticos aos do princípio do séc. XIX, como também aquelas que estão dotadas de padrões de qualidade acima da média europeia, mas à qual a Refer não tem conseguido acudir para as manter 100% operacionais.

É o caso da Beira Alta (ver PÚBLICO de 1/10/2013), onde há secções de via a necessitar de substituição de carril e travessas. Mas os problemas maiores são nos sistemas de drenagem laterais que exigem manutenção qualificada para evitar aluimentos.

Também aqui a segurança não está posta em causa, pois a gestora da infra-estrutura estabelece limitações de velocidade aos comboios nos troços que estão a precisar de intervenção. No caso da Beira Alta, são tantos que passou a ser habitual os comboios chegarem atrasados à Guarda.

As queixas da CP relativas à infra-estrutura não têm correspondência, porém, numa acentuada redução dos custos de manutenção por parte da Refer. O PÚBLICO pediu a esta última a evolução destes custos entre 2008 e 2013, sendo estes relativamente estáveis, rondando os 57 milhões de euros anuais.

A Refer, pelos vistos, faz o seu trabalho. O problema, de acordo com uma fonte oficial desta empresa, é a falta de investimento de modernização da rede, pois há linhas em que manter os mesmos níveis de manutenção já não é suficiente para assegurar o padrão de qualidade do serviço. A solução passa por intervenções mais profundas que contemplem obras de modernização, coisa que, de momento, é impossível na Refer devido às limitações ao investimento.

A ausência de diálogo entre as duas empresas também não ajuda. Historicamente os presidentes destas duas empresas não se dão muito bem. Tem havido excepções, mas não é o caso dos actuais administradores da Refer, Rui Loureiro, e da CP, Manuel Queiró.