Em Coimbra, está de regresso à câmara um dos últimos dinossauros

Não gosta que lhe chamem "dinossauro" e explica que foi eleito para um novo mandato e não para mais um. Aos 57 anos, Manuel Machado toma hoje posse como presidente da Câmara de Coimbra.

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Manuel Machado é um autarca que gosta de saber tudo o que se passa na câmara, "por uma questão de responsabilidade" ADRIANO MIRANDA

O socialista Manuel Machado diz que se estiver a chover não o fará - "que não sou tolo". Mas, se o tempo o permitir, pouco antes das 11h de hoje arranca a pé da sede da campanha autárquica, no Largo da Portagem, em Coimbra, para a Câmara Municipal, na Praça 8 de Maio. Aos 57 anos, a tomar posse pela quarta vez como presidente do executivo, quer fazer "uma coisa diferente", daí o percurso a pé - um acto simbólico a assinalar a transição entre a candidatura e a eleição, mas também um sinal de ruptura, de um começo e não de um recomeço, de "um novo mandato" e não "de mais um mandato".

Sexta-feira. Excluindo a hipótese de ter colocado figurantes ao longo das ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, as pessoas não se esqueceram de Manuel Machado. Quando sai da sede de campanha para percorrer o principal corredor da Baixa de Coimbra é de imediato interpelado por um apoiante que lhe deseja "força". Há-de ser assim todo o caminho - um trava-o para um abraço, outro deseja-lhe saúde, mais à frente alguém lhe sorri e outro deseja-lhe "saúde" e "boa sorte".

Não é de estranhar que reconheçam a figura. Tornou-se vereador aos 26 anos, e presidente da câmara aos 33, cargo que ocupou durante 12 anos, entre 1989 e 2001. A sua figura viveu e modificou-se aos olhos de todos, quase diariamente nas páginas dos jornais locais, até aos 45 anos. Quando foi castigado nas urnas eclipsou-se da cena pública, à qual regressou este ano como candidato do PS. Diferente? Sorri: "O mesmo, talvez um pouco mais gordo, no início da campanha eleitoral. Mas até esse peso que tinha a mais acabei por perder - agora sou o mesmo", diz.

As tentativas de entrevista, feita com informalidade, são frustradas. Sentado numa esplanada do café Central, na fronteira entre as ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz, lembra que foi ele quem fechou aquele canal ao trânsito e "pedonalizou toda a Baixa". Mas de uma forma geral resiste a todas as memórias. "Não me lembro", "não me recordo", "nunca pensei nisso", "não faço ideia", "não vim para acertar contas com o passado".

Para aquela noite de 2001, em que a festa da vitória eleitoral se fez em casa do adversário, na sede da candidatura da coligação PSD/CDS/PPM, abre uma excepção. Identifica a descrição de uma sala silenciosa e deserta, em contraste com as que serviram de cenário a anteriores vitórias. Reconhece o sentimento de solidão e recorda que depois da intervenção em que assumiu a derrota, um dos jornalistas lhe fez a pergunta que estava na moda - "Como se sente?". "Respondi: sinto-me co-incinerado".

Está a referir-se à guerra da co-incineração de resíduos sólidos perigosos na cimenteira de Souselas, travada contra a comunidade local pelo próprio partido, que estava no Governo. De erros próprios que tenham justificado a derrota não se lembra, diz que "terá havido, mas é difícil identificar um ou outro".

Passaram doze anos e os resultados das eleições mostraram que os adversários e analistas sobrevalorizaram o desgaste político que o fragilizava em 2001. Foi eleito pela quarta vez presidente da mesma câmara, uma excepção permitida pelo interregno de 12 anos, já que a actual lei (de limitação dos mandatos) extinguiu os chamados "dinossauros autárquicos". Ainda assim, terá de governar em minoria - e talvez seja esse o seu maior desafio.

Rejeita o título de centralista, mas diz que continua a querer saber tudo o que se passa em todas as áreas, a todo o momento, em todo o lado - por "uma questão responsabilidade". Também se mantém vigilante: avisam-no de que poderá ter havido nomeações, na câmara, depois das eleições, "o que é ilegal"; sabe que foram feitas obras (numa rotunda, por exemplo), não sabe se de forma legal; leu que para domingo estava marcada a celebração de um acordo de geminação - "ilegal". Vai "ver "tudo isso" depois de tomar posse. Caber-lhe-á "invalidar ou confirmar" esses actos.

Do futuro também não fala. Remete para o programa, que é público e tenciona cumprir, mas mais não pode dizer, porque é sexta-feira, está a três dias de tomar posse, e não foi chamado para "a tradicional passagem de testemunho" pelo ainda presidente da câmara. Por isso não conhece os dossiers, não sabe quanto dinheiro há nos cofres. Hoje, sim, depois de tomar posse começará a inteirar-se de tudo isso. Para Machado, o futuro começa hoje. Doze anos depois, o autarca está de novo em casa.