Omaya morreu aos 12 anos, com os primeiros rockets

Durante muito tempo, Afrin foi porto de abrigo para gente a fugir das bombas e dos combates no Norte da Síria. Só de Alepo vieram dezenas ou centenas de milhares. Aos poucos, a guerra alcançou as portas de Afrin, agora atingiu-a no centro

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Refugiados curdos em fuga de Alepo fizeram duplicar a população de Afrin, no Norte da Síria

Passava pouco do meio-dia quando o primeiro rocket caiu no centro de Afrin. Ao todo, três rockets atingiram a zona histórica da cidade com poucos minutos de intervalo. Foram os primeiros que Afrin viu cair, feriram três pessoas, mataram duas.

"Quando chegou, percebemos que não ia sobreviver", diz Rajid, o médico, um dos que operou Omaya Mustada.

A sala parece gigante, apesar de nem ser grande. Entram quatro médicos, uma enfermeira que vem atrás fica à porta a espreitar. Lá dentro já estava uma enfermeira, junto a Omaya. Toda a gente, incluindo Omaya, ocupa um dos cantos de uma sala quadrada que deveria ter armários e bandejas com instrumentos reluzentes e luzes a descer do tecto. Devia ter muitas coisas, mas quase só tem sangue e compressas no chão, pedaços de tecido rasgado, embalagens vazias, um caixote de lixo a transbordar. No centro do caos, a maca onde Omaya está deitada. Debaixo dela, um plástico roxo, sob a cabeça uma bata azul dobrada a fazer de almofada; por cima, a cobrir-lhe a barriga e o início das pernas, um pano verde.

Omaya está de barriga para cima, mas tem a carinha de lado, virada não para a assistência mas para os fios e tubos que a ligam ao monitor onde se lê que ainda está viva. O cabelo muito liso ensanguentado, parte do pescoço preso por fita adesiva preta, parte do tronco também, as pernas magrinhas ligadas, gaze branca presa com o mesmo adesivo. Omaya é pequenina mas é como se a nudez da sala a fizesse ainda mais delicada.

Tem muitos ferimentos internos, poucos órgãos escaparam. A menina franzina de 12 anos que limpava casas com a mãe está prestes a desistir. "Isto não é um hospital realmente equipado", diz Hamid, um cardiologista, a apontar para o monitor. "Pronto, morreu." A enfermeira desliga o monitor e desentuba a menina, a enfermeira que ficara à porta sai disparada a chorar.

Omaya Mustada morreu às 16h52 de dia 8 de Outubro.

Os médicos voltam à sua sala, ali ao lado, e sentam-se, alguns acendem cigarros e olham para o chão entre encolheres de ombros. A mãe de Omaya está internada, com "ferimentos superficiais", tem 30 anos. O rocket que matou Omaya apanhou-as a sair de uma das casas onde faziam limpezas, junto ao souq (mercado) da Cidade Velha de Afrin. Chega um homem alto, de barba, calças de fazenda e casaco de malha azul-escuro. "É o tio", diz Rajid, um neurologista.

Mohamed Abu Nour Khaled olha para Omaya, leva as mãos à cabeça, dá dois passos atrás e fica ali, no corredor, a olhar para os médicos sem os ver. "Não pudemos fazer nada", dizem-lhe. A sala dos médicos tem duas portas, uma dá para o corredor do bloco operatório, outra para o pátio por onde se entra no hospital. Começam a ouvir-se gritos vindos da rua. "É o pai." É um choro soluçado interrompido por gemidos quase gritos, uma súplica contínua que se espalha pelos corredores e pelas ruas de Afrin, onde há sete meses nasceu o "melhor hospital" da cidade, de onde já há muito que o regime de Bashar al-Assad se tinha evaporado.

Eu tenho uma pergunta
"Porquê? Porquê?", são as primeiras palavras que Mohamed Abu Nour Khaled consegue dizer. "Quem? Quem?", diz a seguir. "Podem explicar-me por que é que a mataram? Elas estavam na rua, ali não havia homens, nem governo, nem exércitos." "Que humanidade é esta?", insiste o irmão da mãe de Omaya, os olhos molhados mas as lágrimas a teimarem em não saltar.

"Eu tenho uma pergunta para o Daash. Eu estudei a sharia [lei] islâmica e quero que me digam de que forma é que o Islão manda matar meninas pequenas, em que frase do Corão é que isso está. Quem mata a alma de uma criança mata a alma de um povo. Eles estão a matar-nos a alma."

Mohamed Abu Nour Khaled ainda consegue dizer que a irmã e a sobrinha nem curdas são - Afrin é uma região predominantemente curda, o Daash, nome com que os sírios se referem ao Estado Islâmico do Iraque e de al-Sham, a face mais temível do que será a Al-Qaeda no país, tem chacinado todos os curdos que pode. "Eu sou árabe, a minha mulher é curda. Quem são estas pessoas para virem aqui dizer-me como viver e matar as nossas crianças?"

"Fugimos da guerra em Alepo. Elas limpavam casas em Alepo e continuaram a limpar casas aqui. Que a minha voz chegue a quem tem poder, ela já não pode falar."

Afrin é a capital de um dos distritos de Alepo, a província do Norte da Síria cuja capital, com o mesmo nome, é a cidade com mais habitantes do país, a sua capital comercial e industrial. Já não é, era, antes da revolução de Março de 2011, da repressão ordenada por Assad, das bombas a cair nas casas, da revolta armada, dos jihadistas estrangeiros.

Afrin está quase cercada: seja qual for a direcção que se aponte, o mais certo é estar-se a apontar para um campo de batalha ou então para checkpoints do Daash, barreiras por onde qualquer um pode tentar passar mas ninguém sabe o que lhe pode acontecer quando se arrisca a fazê-lo. Até agora, a cidade tinha sido poupada. Chegou o dia dos primeiros rockets. Para além de Omaya houve um homem que morreu de imediato, apanhado na explosão, para além da mãe de Omaya há dois feridos ligeiros.

O regime evaporou-se
O regime desapareceu de Afrin há quase dois anos. Tinha mais que fazer, foi combater os rebeldes para Alepo, foi tratar de aguentar outras frentes. É como se Assad tivesse encolhido os ombros, mais ou menos como os médicos que passaram mais de três horas a operar Omaya sabendo que ela estava viva mas já estava morta. Assad encolheu os ombros e pensou: "Eles são curdos, eles que se entendam."

Exército e polícia deixaram de se ver, quem era da oposição ficou, quem apoiava o regime foi-se embora ou ficou calado. O regime evaporou-se e o seu lugar foi ocupado pelos curdos: há mais ou menos um ano que o poder é o PYD (Partido da União Democrática) e o seu exército, YPG (Unidades de Defesa do Povo), apoiado pelo PKK turco e por curdos do Iraque. O vácuo foi preenchido, mais coisa menos coisa. Nunca mais houve electricidade mas voltou a haver polícia nas ruas, tribunais abertos e recolha de lixo.

A população de Afrin, cidade e distrito, duplicou com quem aqui chegou em fuga de Alepo - a maioria são curdos, viviam nos dois bairros com mais curdos da cidade, Sheikh Maqsood e Hamidiya. Também vieram árabes, claro. A fuga não distingue etnias ou confissões religiosas.

Não veio só gente de Alepo nem pára de vir gente - nos últimos meses, à medida que jihadistas estrangeiros têm entrado em aldeias e vilas determinados a espalhar o terror, quem pode tem fugido e Afrin é o principal destino. Agora também caem rockets em Afrin e já há quem queira fugir daqui. A região está cercada, só resta a Turquia, a norte, e não há fronteiras oficiais abertas nem caminhos para os postos fronteiriços que não impliquem atravessar combates. Há pouco por onde ou para onde fugir. Mas há sempre maneira, pelo menos, de tentar. Já há gente a fugir de Afrin, embora muito mais gente esteja a pensar quando e como se vai pôr em fuga.

Se não fosse o PYD este hospital não existia e provavelmente Omaya nem tinha chegado a ser operada. Trabalham aqui 73 médicos, de todas as especialidades, mais 40 a 50 enfermeiros. Poucos são de Afrin, a esmagadora maioria fugiu de Alepo. Alguns trabalhavam em clínicas privadas que foram pilhadas, um ou outro pode estar a usar equipamento que comprou para si próprio, ninguém sabe bem. Agora, o patrão destes médicos é o PYD, e a vida continua.

Há sete meses este hospital não existia, no edifício funcionava uma clínica privada, meio abandonada, que o PYD comprou. O dinheiro que há naquele que se tornou no principal e mais bem equipado hospital de Afrin (há mais dois centros médicos) chega para pagar salários e para ter a porta aberta. Cobra-se a quem tem dinheiro e aqui vem ter filhos ou tratar de maleitas que não são da guerra. Ninguém fica à porta, mesmo que não haja máquinas ou medicamentos para tratar de tudo e de todos.

Cada sírio, um país
Azad é o director de serviço no hospital. Há um conselho de médicos, explica, ele é um deles. Azad tem 40 anos, é casado e pai de um menino que anda no infantário, estudou oito anos na Argélia mas o francês está esquecido. Veio há três meses de Alepo, mas a família tem origens em Afrin. "Falta tudo", diz Azad. Só não faltam médicos. "Temos as especialidades todas, temos os melhores médicos. De resto, falta tudo."

"Medicamentos, equipamento, todo o tipo de equipamento." Azad aponta o dedo a muitos culpados, mas por estes dias os dois que encabeçam a sua lista são o Daash e o Exército Livre da Síria, o principal e maior grupo da oposição armada, criado em 2011 por civis e desertores em fuga das fileiras de Assad, a maioria árabes sunitas, como a maioria dos sírios.

"O Daash quer dizimar-nos, o Exército Livre rouba a ajuda que aqui podia chegar. Como é uma região curda não se importam de nos deixar morrer." É uma opinião, partilhada por uns, rejeitada por outros. Por estes dias, "cada sírio é um país" ou "cada checkpoint é um país", as duas expressões ouvem-se com frequência em Afrin e à conversa com sírios de onde quer que venham.

Hoje, caíram os primeiros rockets em Afrin, mas isso não foi tudo o que aconteceu na cidade. Para Saif Adin, por exemplo, este foi o dia em que conseguiu alcançar o hospital de Afrin.

Saif chegou e está vivo
Saif Adin tem 18 anos e andou 45 quilómetros para aqui chegar, com marcas de queimadura de cigarros no corpo e a perna esquerda feita num oito: queimou-a num motor quando o transportavam com outros homens - "acho que éramos 14" -, deitados uns por cima dos outros, numa carrinha de caixa aberta. Nasceu em Alepo. A família já tinha fugido para Afrin mas ele continuava a ir e vir, o trabalho estava em Alepo e sem dinheiro não se morre mas também não se vive. "Trabalho numa fábrica, atrás de uma máquina de costura."

Saif Adin saiu há 55 dias de Alepo mas só agora chegou a Afrin. Foi raptado uns 15 quilómetros depois de deixar a cidade, numa barreira militar onde estavam "20 ou 30 homens armados". Espancaram-no e levaram-no vendado para uma casa onde o obrigaram a trabalhar. "Enchíamos sacos de areia e carregávamos os sacos. Às vezes batiam-nos com cabos", diz. "Éramos todos curdos, a maioria jovens, mas havia um homem de 50 anos e miúdos, crianças de 13 ou 14."

"Foi o Daash. Estive 55 dias até conseguir fugir." Saif conta que teve sempre medo de ser morto. "Quando me torturaram, com os cigarros, chamaram-me infiel e disseram-me que haviam de me matar." Saif diz que ele e mais cinco decidiram fugir. Quase todos os homens armados estavam a dormir, cada um dos decididos pediu aos que estavam de guarda para ir à casa de banho e cada um saiu, à vez, por uma janela estreita. "Fugimos juntos, mas na estrada foi cada um por si. Não sei o que aconteceu aos outros."

Saif tem pai, mãe, dois irmãos e três irmãs, todos mais velhos do que ele, todos a viver em Afrin. Ainda ninguém chegou ao hospital, Saif acaba de entrar, mas ele já lhes telefonou. Há 55 dias que não sabiam dele, no dia dos primeiros rockets souberam que está vivo e livre. Saif nunca mais vai aparecer na fábrica em Alepo.

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