Marcha sobre rodas não atrapalha CGTP, que promete encher as ruas

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Depois de atravessar a ponte, manifestantes assentam arraiais em Alcântara, por onde se acede ao porto

Em apenas cinco dias, o grupo de trabalho que organizou a marcha em Lisboa adaptou o percurso a pé pelo tabuleiro da Ponte 25 de Abril a uma concentração em Alcântara. Mas há mais acções de protesto

Será um Abril em Outubro - ou pelo menos assim o deseja a CGTP, que espera reunir hoje, no Porto, entre 20 mil a 30 mil manifestantes, mas não se compromete com a dimensão do protesto em Lisboa. Depois do braço-de-ferro com o Governo para fazer a marcha Por Abril - Contra a Exploração e o Empobrecimento sobre a Ponte 25 de Abril, entre Almada e Lisboa, que se saldou numa proibição do ministro da Administração Interna, veio logo a seguir mais um "Orçamento de razões" para manter o protesto. Os novos cortes em salários e pensões incluídos no Orçamento do Estado (OE) para 2014, apresentado na terça-feira, vieram reforçar as razões da CGTP para o protesto, ainda que em versão minimalista. A central sindical vai assentar arraiais durante a maior parte da tarde em Alcântara, por onde se acede ao porto de Lisboa, local que já estava escolhido como final da marcha.

Porém, o protesto vai dar nas vistas bem antes das 15h, a hora marcada para a concentração. Os condicionamentos do trânsito começam logo de manhã. E se a CGTP não conseguiu cortar a Ponte 25 de Abril para a atravessar a pé, prevê-se que o resultado possa ser quase o mesmo. Porque os autocarros que vêm de todo o país entram em Lisboa propositadamente pela ponte, no sentido sul-norte. A marcha a pé - a intenção inicial - transformou-se assim numa marcha sobre rodas, que deverá entupir a ponte. A CGTP realça que não é essa a sua intenção, mas também diz que não pode proibir ninguém de o fazer.

Armando Farias, coordenador do grupo de trabalho responsável pela organização das manifestações da CGTP, não se quer comprometer nem com o número exacto de autocarros nem de participantes esperados nos protestos sobre o Tejo e em Alcântara, rejeitando entrar em especulações. Admite, no entanto, um "aumento significativo de inscrições" desde a apresentação da proposta de OE. "Não vamos anunciar coisas que possam passar a ideia que estamos em dificuldades, mas também não podemos criar uma expectativa maior do que aquela que se possa vir a realizar. Temos de ser mais rigorosos. Agora... são muitas centenas de autocarros", promete.

A proibição do ministro, que chegou oficialmente por carta na segunda-feira à tarde, alterou os planos da Intersindical, que até aí garantira que manteria o protesto tal como estava desenhado desde o início. Em apenas cinco dias, o grupo de trabalho que organiza as manifestações da CGTP teve de se adaptar à nova realidade e substituir a travessia da ponte por uma concentração em Alcântara.

"Já temos experiência nestas grandes manifestações, foi pegar no que tínhamos e aplicar ao novo percurso", contou ao PÚBLICO Armando Farias. A organização, ao pormenor, que é necessária para uma mobilização a esta escala "dá muito trabalho" e só vai lá com grande coordenação. "Faz-se a mobilização para as inscrições nos autocarros através das uniões sindicais de todos os distritos, que se articulam com os concelhos e com os locais de trabalho", descreveu.

No Porto, não foram levantados entraves à marcha a pé na Ponte do Infante e a CGTP "teve todo o apoio da polícia [na organização]", assegura João Torres, da direcção da União dos Sindicatos do Porto.

Armando Farias faz questão de explicar que as acções de protesto da CGTP envolvem toda a estrutura sindical. "Estamos a falar de milhares de dirigentes e delegados sindicais. Todos eles têm uma participação activa na organização e na manifestação. Há o contacto com os trabalhadores, os plenários, a discussão do que está a acontecer na sociedade e o que precisa de ser feito, depois organiza-se a acção de protesto em si."

Segundo o coordenador, cada autocarro tem um delegado sindical responsável pelos percursos e pelo cumprimento dos horários. "Isto aqui não vai tudo espontâneo, é preciso disciplina", salienta Armando Farias.

Em relação à marcha sobre rodas na Ponte 25 de Abril, a central sindical demarcou-se quer de uma tentativa de bloqueio do tabuleiro, quer de um "buzinão". "Não há indicação da CGTP para atrasar a marcha, isso não existe. Agora não podemos impedir as pessoas e até admitimos que isso possa acontecer", assume o coordenador. "O que nós dizemos é: fazer a passagem na ponte de autocarro e dar visibilidade ao nosso protesto mesmo dentro dos autocarros. Queremos é uma grande marcha e uma grande concentração em Alcântara, com toda a força", admite.

Muita tinta correu acerca do "recuo" da CGTP em relação à marcha a pé na Ponte 25 Abril. Segundo Armando Farias, a Intersindical não recuou. "Nós sabíamos o que estava a ser preparado: era um confronto com a polícia, no sentido de o Governo procurar vitimar-se." "Um Governo que é tão violento no dia-a-dia para com as pessoas, os salários, os desempregados e as pensões, procura agora elementos para se vitimizar e nós não embarcámos nisso, porque percebemos o objectivo do Governo", acrescenta.

"O objectivo central não era passar a ponte. Passar a ponte a pé era o meio para demonstrar o protesto e o repúdio por estas políticas do Governo. Na generalidade, as pessoas compreenderam isso." O OE 2014, com "novas e ainda mais brutais medidas de desastre económico e social", classifica a CGTP, veio dar mais força ao protesto.

Também circulam nas redes sociais outras convocatórias para acções de protesto. A iniciativa do deputado do PCP Miguel Tiago, que apela à participação dos motards na travessia da ponte, e o bloqueio do porto de Lisboa, uma iniciativa "sem rosto", reivindicada por estivadores. A PSP não tem um plano específico para este protesto.