Jovens do Porto vestem a pele de vítimas de tráfico de seres humanos

Iniciativa do Projecto (Des)Enlaçar, da Fios e Desafios – Associação de Apoio Integrado à Família que Trabalha

Presença das raparigas nas montras surpreendeu transeuntes
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Presença das raparigas nas montras surpreendeu transeuntes Fernando Veludo/NFactos
Alguns do participantes nem sabiam que existe tráfico de seres humanos em Portugal
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Alguns do participantes nem sabiam que existe tráfico de seres humanos em Portugal Fernando Veludo/NFactos

Sara tem um olhar triste, cabisbaixo. Está sentada em posição de lótus, sobre folhas secas, numa montra de uma loja da Rua de Santa Catarina, na baixa do Porto. Entre ela e outra rapariga, com as mãos algemadas sobre as pernas, há um cartaz com os dizeres: “Quem cala, consente”.

A ideia de assim assinalar o Dia Europeu de Combate ao Tráfico de Seres Humanos surgiu numa das discussões do Projecto (Des)Enlaçar, da Fios e Desafios – Associação de Apoio Integrado à Família que Trabalha, que está a levar as temáticas de igualdade de género e violência contra as mulheres ao Bairro do Lagarteiro e a lares de infância e juventude da cidade.

A rapariga, de 19 anos, nem sabia que havia tráfico de seres humanos em Portugal. Pensava que essa era uma realidade distante, confinada a países subdesenvolvidos. Os outros jovens pensavam o mesmo, diz a técnica Sofia Freitas. Por isso mesmo decidiram trabalhar este tema, fazendo cartazes e uma espécie de performance ali, ao chegar à praça Marquês de Pombal, zona na qual se posicionam algumas trabalhadoras do sexo e de onde todos os dias tantas partem para trabalhar em bares de alterne e em casas de prostituição espalhadas pela área metropolitana.

No Hemisfério Sul, no Extremo Oriente e no Leste Europeu, a conjuntura relacionada com as políticas resultantes da crise financeira e dos programas de ajustamento estrutural levou ao aumento do tráfico de mulheres associado ao trabalho sexual forçado, escreveu Tânia Sousa na tese de doutoramento que este ano defendeu na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Há o risco de acontecer o mesmo aqui, analisa Sofia Freitas.

As três raparigas que ali estavam, de ar tristíssimo, a chamar a atenção de quem passava, não estão isentas de risco. Até por terem vivido processos atribulados, que nalguns casos acabaram com elas a sair de casa e a serem acolhidas numa instituição. Algumas nem completaram a escolaridade obrigatória.

Sara esteve num lar, está agora num apartamento de transição. Não tem retaguarda familiar, não terminou o secundário, só pode contar com protecção do Estado até aos 21. Está à procura de emprego. Tudo o que lhe apareceu, até agora, foi um lugar de comercial, para vender perfumes na rua, à comissão. E ela sonha com um trabalho que lhe dê independência, dignidade. 

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