Europa, a servidão escondida

Trabalho forçado em países ricos surpreende

AEuropa é a região do mundo com menos percentagem de escravos - 1,83% do número estimado de vítimas de escravatura em todo o mundo -, e os três países com menos proporção de escravatura em relação à população nos 162 analisados pelo relatório da organização Walk Free são europeus. Mas por outro lado, é justamente neste continente que está a surpresa: o número de escravos nestes países é mais alto do que inicialmente se pensava.

A Europa é, claro, um continente de contrastes: se Islândia, Irlanda e Reino Unido são dos países com menor prevalência do fenómeno da escravatura moderna, empatados na 160.ª posição no ranking, não estão livres do problema: com menos de 100 escravos, a Islândia aparece no topo baixo da escala, seguida da Irlanda (300-340) e do Reino Unido (4200-4600) - esta escala é feita com base no número de escravos em relação à população.

No mapa da Europa, a maioria dos países é considerada como de baixo risco de escravatura até uma faixa que começa no Norte da Polónia, atravessa a República Checa, Eslováquia, Hungria, e vai até aos Balcãs. Especialmente preocupante para os investigadores são os casos da Roménia e Bulgária, onde "estimativas sugerem dezenas de milhares de vítimas". Mesmo entre a Europa e a Rússia/Eurásia, a Moldávia (o estudo já a coloca aliás na segunda região) está em sexto lugar entre os países com mais escravos em relação à população, e é, para além disso, um dos países de trânsito para tráfico de seres humanos. No entanto, o maior problema ainda é que muitos moldavos são levados para outros países (sobretudo Ucrânia, mas também Rússia, Emirados Árabes Unidos, Turquia e Kosovo) onde são depois escravizados.

Portugal surge em 147.º lugar na lista (a par de Espanha), com um número estimado de 1300 a 1400 pessoas escravizadas.

Em território europeu, a escravatura moderna significa que as vítimas são forçadas a trabalhar não só em actividades ilegais como prostituição mas também como empregados domésticos, ou em empregos mal pagos na agricultura, construção, restaurantes ou salões de beleza.

Os países com poucas vítimas poderão estar a desvalorizar o problema, disse Kevin Bales, um dos principais investigadores do estudo e professor no Instituto para Estudo da Escravatura e Emancipação na Universidade de Hull, à agência Reuters. Nestes países, as vítimas vêm sobretudo de África, Ásia e do Leste da Europa.

"Estão a afectar recursos de acordo com o pequeno número de casos que sabem que existem", comentou. "As nossas estimativas dizem-lhes que o número de pessoas em situação de escravidão - quer seja na Grã-Bretanha ou na Finlândia ou onde quer que seja - nestes países mais ricos tende a ser cerca de seis a dez vezes maior do que o que pensam que é".

A análise das estatísticas mostra ainda, aponta Kevin Bales, que o problema número um que ajuda ao surgimento da escravatura não é a pobreza. É a corrupção. Maria João Guimarães