Felipe Oliveira Baptista "A roupa pertence à vida, pertence ao design"

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Felipe Oliveira Baptista na exposição no Mude

Exposição do ano do Museu do Design e da Moda faz retrospectiva do mais importante designer de moda português no panorama internacional

Um esqueleto de golfinho vem da Rua Augusta e entra no Museu do Design e da Moda (Mude), em Lisboa. Uma vez lá dentro, aguarda pacientemente no átrio pela subida até ao terceiro piso, onde vai pairar sobre vestidos, casacos e sobre uma versão Matrix do cérebro de Felipe Oliveira Baptista. Feito de ecrãs e fios, algures neste cérebro-instalação está o segredo do sucesso do açoriano que se transformou no mais bem colocado português na indústria mundial da moda e que a partir de amanhã, quando a mostra abre ao público, se expõe no Mude. Com golfinhos e tudo.

Felipe Oliveira Baptista é a primeira grande retrospectiva dedicada ao designer e a primeira vez que o Mude dedica tanto espaço a um criador de moda português - são 1500m2 de exposição, desenhados pelo produtor de desfiles Alexandre de Betak. "Esta é a exposição do ano do Mude", diz a directora do Mude, Bárbara Coutinho, que comissaria a mostra com Oliveira Baptista. No quarteirão que o museu ocupa na Baixa pombalina, está então Felipe, que sorri, gesticula e gere um telemóvel sempre a tocar. É o malabarismo das suas várias vidas: o designer, o centro das atenções na exposição que propõe um mergulho no seu processo criativo em dez anos de carreira e, claro, o director criativo da Lacoste, marca que esta noite celebra em Lisboa o seu 80.º aniversário.

Foi este cargo que o tornou mundialmente conhecido e mais reconhecido em Portugal - embora continue sem pontos de venda no seu país -, que o levou também à Semana de Moda de Nova Iorque (onde são os desfiles da Lacoste) depois de muitos anos com lugar cativo na Semana de Paris, primeiro na selectiva Alta-Costura, agora no Pronto-a-Vestir. Quando em 2011 foi escolhido para suceder a Christophe Lemaire na casa do crocodilo, dizia ao PÚBLICO que não se via como "uma bandeira da moda portuguesa".

Agora, o sentimento de ser um português no mundo refinou-se. "Claro que hoje há uma certa vertente... não de embaixador, mas é verdade que cada vez que falo sou "o português que". Não deixo que isso me ponha um peso em cima. É muito importante manter os pés na terra, ter uma certa humildade, porque tudo vai e vem, especialmente neste meio, com uma velocidade brutal", diz-nos.

Felipe Oliveira Baptista trabalhou também na Cerrutti e na Max Mara e é o tal "português que". No seu trabalho, o que é afinal tão português que o põe no mundo? "Um processo conceptual, de depuração, de simplificação formal que também se encontra na arquitectura portuguesa", diz a comissária. Ao mesmo tempo "encontramos sempre um equilíbrio, uma representação clássica" no seu trabalho. Em suma, "o que é mais português [é] a forma de olhar para o seu trabalho e de o conter dentro de limites e fronteiras", remata Bárbara Coutinho.

A chave para os vários compartimentos desta exposição é de facto a instalação Screen to the Brain, de Alexandre de Betak (que produziu centenas de desfiles-espectáculo, da Dior à Miu Miu, passando pela H&M ou pela lingerie da Victoria"s Secret), apresentada este ano no festival de moda e fotografia de Hyères, onde Felipe foi presidente do júri. Ali estão abertas as janelas para espreitarmos o cérebro de Felipe Oliveira Baptista. Lá moram, "de uma maneira completamente caótica mas orgânica", sorri, Louise Bourgeois, Banksy, Álvaro Siza, Kubrick, Helmut Newton, colecções passadas, animais ou fotografias da sua autoria.

"Tenho uma obsessão natural por memorabilia, estou sempre a tirar fotografias, a coleccionar livros de história ou fotografia." A importância do processo de pesquisa para uma colecção ou trabalho é, para o designer, "tão importante quanto o produto final". Por isso, quando Alexandre de Betak e Bárbara Coutinho viram os seus cadernos, onde escreve, desenha e compila tudo o que lhe chama a atenção, tinham de ser transpostos para um engenho que os mostrasse ao público - nasce assim Screen to the Brain e parte da concepção da exposição, porque era essencial dar "uma perspectiva do universo caleidoscópico do Felipe", explica Bárbara Coutinho.

Linha na areia

A sua última colecção, apresentada em Paris em Setembro com o apoio do Portugal Fashion, era uma reacção à velocidade actual da indústria da moda, em cujo epicentro vive com a mulher, dois filhos e dois empregos. Estar agora num espaço de contemplação como é um museu simboliza "um arco e uma pausa no [seu] trabalho", explica ao PÚBLICO. E sim, ri-se, "todos os dias" tem vontade de contrariar o voraz sistema da moda que exige cada vez mais colecções e produtos de um designer.

Reflecte sobre a sua profissão, as suas escolhas: "A roupa pertence à vida, pertence ao design." "Sempre gostei de correr riscos, de sair do meu perímetro natural." "O meu trabalho é feito de muitas dicotomias, de referências opostas do design, da arte. É uma das minhas citações favoritas de Oscar Wilde: to define is to limit."

Esta exposição é assim o seu risco na areia, dez anos para trás, muitos mais pela frente. "Está no momento de ser olhado", diz Bárbara Coutinho, de quem partiu o convite para a exposição. "E para ele também pode ser o momento para fazer uma avaliação. Para o Mude, é também o momento de aposta num talento já afirmado... e ver daqui a cinco, seis anos o Mode Museum de Antuérpia ou o Victoria & Albert a fazer uma exposição sobre o Felipe. É uma afirmação do Felipe como um dos grandes designers de moda da actualidade." A exposição é a aposta do Mude em 2013 e custou 240 mil euros, entre 150 mil euros do seu orçamento, proveniente do Turismo de Portugal, e patrocínios do BPI e do Portugal Fashion - que apoia semestralmente as apresentações da marca Felipe Oliveira Baptista em Paris.

Até 16 de Fevereiro de 2014, 12 instalações sublinham cinco grandes temas do trabalho de Felipe Oliveira Baptista, o português que pensava ser arquitecto, mas que passou para a moda depois de ver o potencial estrutural do vestuário na obra do mestre basco Cristóbal Balenciaga. Estes temas são a protecção - a omnipresença dos casacos, abrigos, mas também as defesas que são os óculos, as palas dos chapéus ou as luvas - ou os uniformes e roupas de trabalho. "A ideia de a roupa ser desejável e funcional e confortável para mim é hoje onde está o equilíbrio mais interessante", diz-nos o designer. Mas também a revisitação dos clássicos: "Os little black dresses e a roupa masculina: a minha colecção de Hyères foi assim e depois houve sempre disso [nos desfiles da marca]."

Em 2002, o festival de moda e fotografia de Hyères premiou um jovem criador português chamado Felipe Oliveira Baptista, que depois receberia uma bolsa do gigante do luxo Louis Vuitton-Möet Hennessy e se lançaria na Semana de Moda de Alta Costura, para depois passar a desfilar pronto-a-vestir. Ao longo desses anos, outros temas despontavam no seu trabalho: as geometrias variáveis - "Quando estava no primeiro ano de Design de Moda e fiz a minha primeira roupa, em 3D, foi uma revelação do que hoje é o ADN da minha marca - a questão da construção, dos volumes"- e o duelo (amigável) entre tecnologia e natureza.

Este último é o que leva o esqueleto do golfinho, uma fêmea trazida do Museu de História Natural, ao Mude, por ser uma forma de estrutura que o atrai. No campo das colaborações, também o Museu do Traje ou o Museu de Etnologia contribuíram para Felipe Oliveira Baptista, levando até à Rua Augusta, por exemplo, o capote e o capelo açorianos, negros, imponentes. Para concretizar a memória da infância do designer e envolver o visitante no tema da protecção.

O carro por tecidos

Uma retrospectiva é um remoinho de memórias, dos Açores, de Lisboa, da formação na Universidade Kingston de Londres, da decisão de vender o Honda Civic da família para comprar os tecidos para a colecção com que venceria em Hyères... E dos dez últimos anos de design de moda. "Hoje vivemos rodeados de tecnologia que nos facilita imenso a vida. Trazer isso na roupa e na forma como ela é feita é extremamente interessante, e é novo na moda - é difícil fazer coisas novas em moda porque todos os tabus sociais ocidentais já foram quebrados e desmontados", comenta. "A ideia do elemento prático e confortável que nos acompanha numa vida cada vez mais rápida é muito do l"air du temps", postula, fascinado pela quantidade de peças "que já são feitas sem uma máquina de costura".

Quando fala das ferramentas do seu trabalho, são as mãos de Felipe Oliveira Baptista que fazem a pontuação, tentando explicar aquilo que nenhuma língua consegue sobre materiais, texturas, hedonismos ou impactos sociais. Nos últimos anos, muitos museus enciclopédicos ou de arte contemporânea abriram-se às mostras de moda à medida que esta especialidade do design foi penetrando mais e mais na cultura popular - muitas tornaram-se blockbusters, como Alexander McQueen: Savage Beauty em 2011 no Metropolitan de Nova Iorque. Outras tantas limitaram-se a pôr manequins e vestidos em fila e chamaram-lhe exposição.

"Nesse exercício de pôr roupa num museu tem de se dar mais alguma coisa às pessoas. É a aproximação que temos com os materiais, com as cores, padrões, com a finesse dos acabamentos - é preciso uma mise en scène mais aberta, com proximidade. Falámos muito com o Alex [de Betak] porque uma criança devia ter tanto prazer quanto uma jornalista de moda quando visse a exposição", no meio dos prismas espelhados e das luzes.

O museu dirigido por Bárbara Coutinho já acolheu várias exposições de moda portuguesa e tem um importante espólio de vestuário dos mais relevantes nomes do design de moda mundial na colecção Francisco Capelo. Para ela, uma mostra de design de moda tem tudo a ver com camadas, nomeadamente colaborações com outros museus e o convocar de outras disciplinas. E como "falta corpo" às roupas num museu, é preciso pensar na escala da "relação com o corpo do visitante" e valorizar o inevitável "resultado plástico muito forte que remete para tudo o que a moda é de espectáculo, de ilusão", explica.