Alex Domanski/Reuters
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Ler ficção literária para perceber as emoções de quem nos rodeia

Dois investigadores chegaram à conclusão de que ler obras de ficção estimula uma melhor detecção e compreensão das emoções das pessoas que nos rodeiam

O estudante de doutoramento David Kidd e o seu orientador, o professor de psicologia Emanuele Castano na New School for Social Research (NSRR), em Nova Iorque; quiseram avaliar o efeito da leitura de ficção literária sobre os participantes na sua investigação em volta da "Teoria da Mente".

Para isso, escolheram três tipos de literatura — ficção literária, ficção popular e não ficção — e submeteram-na à leitura dos voluntários, sendo que cada um deles leu apenas um dos três genéros. Por fim, testaram as suas capacidades de "leitura da mente", através de testes pré-estabelecidos.

A conclusão do estudo, denominado "Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind" ["Ler Ficção Literária aumenta a Teoria da Mente"] e publicado este mês na revista "Science", foi inequívoca: ler obras de ficção melhora a capacidade intelectual de discernir os pensamentos e emoções de quem nos rodeiam.

Ainda assim, não é "qualquer ficção que é eficaz". "A qualidade literária da ficção", nomeadamente aquelas "com personagens complexas, cujas vidas interiores raramente são fáceis de perceber", "é o factor determinante", pode ler-se. Já as razões, explicam os investigadores, passam pela "forma como envolve o leitor. Ao contrário da ficção popular, a ficção literária requer alguma ligação intelectual e estimula o pensamento criativo dos leitores".

O processo

Assim, e tendo em conta que a qualidade literária é importante, os Kidd e Castano contraram especialistas de avaliação e estabeleceram regras na hora de escolher os textos que passariam aos voluntários. As obras de ficção literária foram representadas por trechos dos livros dos finalistas do prémio norte-americano National Book Award 2012. As de ficção populares foram retirados de "bestsellers" da Amazon e as obras de não-ficção foram selecionados a partir da "Smithsonian Magazine".

Depois da leitura, os testes. No primeiro, os participantes tinham de olhar para uma fotografia de um actor, a preto e branco, e indicar a emoção que transparecia nos olhos do retratado. O segundo, o "Yoni test" incluiu experiências afectivas e cognitivas. "Utilizámos vários tipos de testes de modo a que os resultados não sejam específicos de um tipo de teste, aumentando ainda as evidências que convergem com a nossa hipótese", explicaram os investigadores, em comunicado.

Emanuele Castano e David Comer Kidd acreditam agora que os resultados desta investigação podem ser úteis na reabilitação de presos ou na estimulação da comunicação em autistas, por exemplo.