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Megafone

A minha geração vive na angústia da incerteza do presente

Está difícil planear o dia de amanhã, e já muitos dizem que nem sequer contam com um emprego a médio prazo, quando mais com uma carreira sólida ou, na loucura, uma reforma! Então e a imortalidade?

Hoje os jovens encaram o futuro como uma coisa do passado. Muitos assumem viver segundo os princípios do “carpe diem”, mas será que isso é opção ou defesa? Afinal os jovens estão-se a marimbar para o futuro ou não? Sem ter estudado o assunto a fundo, arrisco dizer que querem aproveitar o presente — e ainda bem pois a vida pode ser muito curta — e, por outro lado, querem também garantir que aproveitam o futuro. Com relação ou não entre si, os índices de criminalidade não dispararam na proporção inversa de como caiu o nível de vida e oportunidades para os mais jovens. Talvez seja porque os jovens são, na generalidade, pró-ativos e construtivos. Ou tentam ficar por cá disputando todas as poucas oportunidades que restam, alguns até sendo empreendedores, ou, por convicção própria e quase revoltados por fazerem o que sugeriu Passos Coelho, rumam a outras paragens que lhes permitam ter as oportunidades profissionais que merecem.

A minha geração (mais ano menos ano) vive na angústia da incerteza do presente. Está difícil planear o dia de amanhã, e já muitos dizem que nem sequer contam com um emprego a médio prazo, quando mais com uma carreira sólida ou, na loucura, uma reforma! Então e a imortalidade? Será que a malta nova ainda se importa com isso? As preocupações constantes do agora parecem deixar as inquietações da eternidade para depois.

Não sou religioso. Sou mesmo muito cético perante o sobrenatural, mas não deixa de me preocupar o facto das questões sobre a imortalidade serem hoje “não assuntos”, o que é estranho pois sempre foram das principais demandas da humanidade e às quais se dedicou tanto tempo, esforços e recursos. Será então que afinal o paraíso é na terra e fica ali do outro lado da fronteira?

Assim, nos dias que correm, para os que ainda ficam por cá, entre empregos mal pagos e precários ou até sem eles, e que ainda se preocupam com a imortalidade há pelo menos um eventual modo de a conseguir através da fama: dar o nome a uma qualquer estrada de elevada sinistralidade, desde que os noticiários, cada vez mais cheios de calamidades, o refiram constantemente. Por exemplo, o senhor engenheiro Duarte Pacheco terá a imortalidade garantida enquanto no seu viaduto existirem tantos acidentes rodoviários. Haja pessoas, carros e combustível! Se o tal engenheiro fosse hoje um jovem o mais certo seria nem sequer ter essa absurda oportunidade de ficar imortal, pois provavelmente teria emigrado para trabalhar noutro país.

Porque tem de haver esperança: o modo “natural”, sem subterfúgios, de chegar à imortalidade continua a ser a opção biológica. Será seguro se for possível constituir as famílias de descendentes que nos continuem. Micael Sousa