Retalhos da vida de um queixinhas

Como qualquer pessoa que tem um irmão mais velho, sou um queixinhas. A frase mais vezes gritada durante a infância foi: "Vou dizer à mãe! Ó mããããããeeeee!", seguida da descrição da sevícia que me estivesse a ser imposta pelo primogénito. Por causa disso, habituei-me a um ritual de denúncia que é difícil manter agora que o meu irmão já não se senta em cima de mim, nem põe o pé descalço à frente da minha cara, ao mesmo tempo que afirma: "O ar é de todos!"

Fui obrigado a procurar uma terapia de substituição. Um sucedâneo para a queixinha. Encontrei-a no Livro de Reclamações, que é agora a minha metadona da delação. Quando sinto um desejo urgente de me lamuriar, peço o Livro de Reclamações. E, tal como a menção da minha mãe fazia o meu irmão parar, a solicitação do Livro faz com que eu passe a ser mais bem tratado. Se bem que com profundo desprezo.

A sugestão é suficiente. O Livro de Reclamações é como uma arma nuclear e basta o reconhecimento da sua existência para acalmar. O funcionário sabe que uma queixa no Livro de Reclamações é uma maçada, e eu sei que escrevê-la é uma maçada. Encontra-se o equilíbrio neste jogo da sardinha. Ninguém arrisca, para não perder. A não ser que seja um trabalhador do sector público. Um trabalhador do sector público é a Coreia do Norte. Não tem nada a perder.

Há dias, numa estação da CP, o meu cartão não abria o torniquete. O que era estranho, já que tinha acabado de o carregar. Voltei à bilheteira, mas a senhora que me atendera já lá não estava. Dirigi-me ao seu colega, que me disse que o cartão tinha um canto amachucado e não estava em condições. Expliquei-lhe que até podia estar, mas a colega dele não se opusera e tinha-o carregado, há menos de cinco minutos. "Não sei o que é que andou a fazer com ele entretanto...", foi a resposta. Insinuava que eu tivesse mastigado o cartão para disfarçar a larica. Gerou-se um momento de tensão e o funcionário, sentindo-se duplamente protegido (pelo Tribunal Constitucional e por um segurança entretanto chegado), começou a gritar. Comigo e com a colega (que tinha o guichet fechado, mas afinal estava ali) porque agora tinha de aturar "este gajo". Que era eu. E devolveu-me o dinheiro. O que não me resolveu o problema, uma vez que eu queria a viagem. Mas resolvia o problema dele. Foi então que avisei, todo armado em bom: "Veja lá, se não peço o Livro de Reclamações." Ao que ele respondeu imediatamente: "Quer? Vou já buscá-lo!" Faz sentido: se eu pedisse mesmo o Livro, ele ia poder fechar o guichet, parar de trabalhar e perder longos minutos a tratar da ocorrência. Diria o supervisor dele:

- Gomes, esta é vigésima sétima reclamação este ano.

- E então?

- Só? Consegues melhor, pá!

Na CP, o Livro de Reclamações é um quadro de honra. Cada reclamação é um testemunho de uma situação em que o funcionário defendeu os seus direitos do ataque de um capitalista (na medida em que um bilhete de comboio é capital). No sector público, o funcionário tem sempre razão. Em vez de "clientes", há "utentes". A diferença é que aos clientes presta-se um serviço e aos utentes faz-se um favor: deixa-se usar o material. A CP foi criada para dar emprego aos trabalhadores ferroviários. Como isso implica a existência de comboios, admite-se que passageiros viajem neles. Se isso não causar transtornos, claro.