O futuro é violento e já começou

O discurso tradicional dos movimentos e partidos ecologistas foi útil e eficaz num primeiro momento, mas revela-se hoje incapaz de fazer passar as pessoas à acção, diz Harald Welzer, autor de Guerras Climáticas

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Harald Welzer lembra que os efeitos do aquecimento global serão tanto mais devastadores quanto eles atingem em primeiro lugar os países mais pobres. cortesia Langreder/S.Fischer

O discurso tradicional dos movimentos e partidos ecologistas foi útil e eficaz num primeiro momento, mas revela-se hoje incapaz de fazer passar as pessoas à acção. É a mudança imediata de práticas e hábitos que visa uma fundação chamada Futurzwei, criada em Berlim por um sociólogo, especia-lista na questão da violência social e autor de um livro-choque, publicado em 2008, intitulado Guerras Climáticas. Com esse livro, Harald Welzer desenhou os contornos das guerras do século XXI, não como um profeta do Apocalipse, mas como alguém que leu com atenção, e com conhecimento das dinâmicas sociais da violência, o que o nosso presente já deixa perceber

Harald Welzer (n. 1958) é um sociólogo e psicossociólogo alemão, actualmente professor na Universidade de Flensburg. A sua obra tem incidido nas questões da violência social e da memória. É neste âmbito que se situam dois livros seus sobre o nacional-socialismo, um dos quais é um trabalho originalíssimo sobre arquivos que nunca tinham sido trabalhados e que consistem em conversas dos soldados alemães, presos pelos aliados, que desconhecem que as suas conversas estão a ser gravadas. Mas o seu trabalho de professor e investigador também se desenvolve noutro plano: o dos estudos sobre as consequências sociais das mudanças climáticas e as formas de violência que elas provocam. Enquanto autor de Guerras Climáticas (título original: Klimakriege, 2008), Welzer ganhou uma elevada reputação internacional. Esse livro de tonalidade apocalíptica anuncia as formas e as causas da violência que irão crescer ao longo deste século: a violência ligada às mudanças climáticas, a emergência em grande escala de um novo sujeito a que Welzer chama o "refugiado do clima" (o indivíduo que, submetido a catástrofes climáticas, vai tentar sobreviver noutro lugar; este tipo de refugiados ainda não foi devidamente categorizado), a luta pelo acesso aos recursos naturais cada vez mais escassos.

Harald Welzer esteve em Lisboa, recentemente, a convite do Goethe-Institut, para participar num colóquio - organizado também pelo Instituto Francês, que tinha como tema "Amizade e Política na Europa". Um atraso de algumas horas do avião fez com que tivesse chegado a Lisboa já depois de terminado o colóquio. Mas, no dia seguinte, fez uma palestra no Teatro Maria Matos (integrado assim na lógica de um programa que esta instituição, dirigida por Mark Deputter, desenvolveu este ano), onde apresentou um projecto de intervenção ecológica, em termos pedagógicos e sociais, de que é co-fundador, e que nasceu em Berlim. Chama-se Futurzwei, ou seja, Futuro II, nome de uma segunda forma gramatical do futuro, correspondente ao que nós chamamos "futuro anterior". Este texto resume o que foi dito nessa palestra e acrescenta-lhe partes de uma conversa-entrevista com Harald Welzer, para além de utilizar Guerras Climáticas como fonte.

Porquê esse nome, Futurzwei? Porque, diz Welzer, "a Fundação trabalha no sentido de construir um outro futuro, porque não há futuro possível para a cultura actual do consumo e da produção de lixo". Esse trabalho consiste em mobilizar e atrair pessoas, colectividades, empresas, instituições, em suma, aquilo a que se chama a sociedade civil, já que, garante o sociólogo, "nenhum governo quer verdadeiramente mudar o que quer que seja", e a protecção do clima "não releva exclusivamente das políticas do ambiente".

Tudo deve começar pela interrogação sobre os nossos modos de vida, já que o problema ecológico reside aí, no tipo de economia que cria os modos e estilos de vida que se tornaram universais. A sua formação de psicólogo social fê-lo compreender que "a tomada de consciência e o saber não chegam para alterar as nossas práticas, os hábitos quotidianos. O que mais contribui para a mudança de uma prática é a própria prática. Se anunciamos um acontecimento catastrófico que se produzirá em 2050, devido à subida das águas do mar, as pessoas acham a mensagem assustadora, sabem muito bem que participam dos hábitos e do modo de vida que conduz à catástrofe, mas continuam a fazer o que sempre fizeram".

Segundo Welzer, a informação faz sentido, mas tem de ser colocada num contexto de acção. Ora, são essas acções exemplares, que valem como "narrativas" ecológicas (e Welzer realça o poder das narrativas, diz que elas são o instrumento fundamental de Futurzwei), que a sua fundação cria, divulga e promove, estabelecendo assim não uma comunidade ou uma rede, mas um movimento de irradiação, por influência e contágio.

Todos de acordo, ninguém muda nada

São muitas as narrativas divulgadas no site de Futurzwei e em jornais e publicações que não são propriamente activistas. Harald Welzer fala, com regozijo, da aceitação que essas narrativas têm tido até num jornal conservador como é o Frankfurter Allgemeine Zeitung, o mais importante diário alemão. E conta a história de dois jovens berlinenses designers de moda que desenham vestuário, de modo a reciclar roupa velha. Ou uma escola de Friburgo que gera pelos seus próprios meios a energia que consome de modo a reduzir quase a zero as emissões de carbono, o que começou a ter este efeito contagioso: os alunos perguntam aos pais coisas deste tipo: "Porque é que temos este frigorífico tão grande?", "Por que me vão levar à escola num carro enorme?"

O discurso ecologista de Harald Welzer é muito diferente do discurso dos movimentos ecologistas tradicionais e do partido dos Verdes alemão: "Eles foram importantes até certa altura, mas agora o seu discurso e as suas práticas revelam-se ineficazes", precisamente por não serem ancorados em conhecimentos de psicologia social. Esses movimentos e partidos basearam-se sempre na lógica da denúncia dos "maus" (as empresas muito poluidoras, as marcas inimigas do ambiente, os empresários insensíveis, as práticas erradas que deviam ser sancionadas moralmente), sem perceberem que isso acaba por criar uma espécie de anestesia. Toda a gente está de acordo, reconhece que é verdade, mas ninguém muda. Foi para instituir uma nova prática e um novo discurso que Futurzwei foi criado. Trata-se de contar exemplos positivos, de transmitir narrativas que fazem apelo a uma mudança imediata de comportamento e exigem acção, não apenas tomada de consciência, em que a acção é sempre adiada. É assim que, em balanço, Harald Welzer resume o que se tem passado neste domínio: "Os progressos realizados nos últimos anos no que diz respeito à tomada de consciência são consideráveis. Infelizmente, ao nível da acção, os resultados são muito menos brilhantes. Podemos observar que, apesar desta consciência cada vez maior, não parou de aumentar o consumo e a delapidação dos recursos, nem diminuiu a taxa de emissão de gases."

As contradições e os paradoxos tornaram-se gritantes, como se pode ver neste exemplo descrito por Welzer: apesar de o mundo não ter crescido, há cada vez mais delegações e ONG para tudo e por todo o lado, o que implica mais tráfego aéreo, mais necessidade de hotéis, de transportes, de restauração, etc. Conclusão: toda essa gente produz efeitos completamente contrários às suas intenções, por mais louváveis que elas sejam. Um ponto de vista positivo considera isso como a consequência necessária de qualquer acção. Mas Welzer inclina-se mais para a versão negativa: nenhum governo tem a menor intenção de modificar os hábitos instalados coercivamente por um modelo económico porque tal modificação não só seria impopular como suporia a renúncia ao ganho imediato, garantido na condição de que nada mude. Outro paradoxo que Welzer gosta de lembrar: desde meados do século XIX que os engenheiros e os tecnocratas se recusam a compreender que os efeitos secundários dos seus empreendimentos são muito mais importantes do que aquilo que efectivamente produziram. O automóvel é um exemplo eloquente.

Segundo Harald Welzer, toda a discussão sobre as alterações climáticas e os seus efeitos catastróficos tem de partir da afirmação peremptória de que não temos necessidade de tanta energia, de tantos bens de consumo, de tanta mobilidade, de tanta novidade. Esta perspectiva é completamente diferente daquela que, perante a iminência de uma catástrofe climática, considera que a primeira preocupação é fazer tudo o que é necessário para continuarmos a viver da mesma maneira. Daí esta pergunta que Welzer gosta de fazer: "Como é que uma sociedade moderna pode preservar o legado de uma civilização e continuar a pôr à disposição dos seus cidadãos, no futuro, aquilo a que temos direito, do ponto de vista da democracia, da liberdade e da justiça?" Mas Welzer chama também a atenção para uma certa manipulação a que o conceito de "catástrofe" foi submetido. Escreve ele no seu livro sobre as guerras climáticas: "A natureza não é um sujeito, não é susceptível de viver catástrofes, ela pode, quando muito, causar acontecimentos catastróficos para os humanos, com consequências sociais."

Os refugiados do clima

Nesse livro, fazendo uma abordagem histórica e, ao mesmo tempo, psicossociológica, Welzer aponta para um futuro em que a violência (que sempre fez parte do processo social) será largamente motivada pelas alterações climáticas, pela degradação do ambiente, por uma diminuição dos recursos. E essa nova ordem climática terá consequências sociais, económicas e políticas. Os conflitos dominantes no século XXI serão portanto, escreve o autor de Guerras Climáticas, "conflitos mundiais de classes, conflitos mundiais de convicções e conflitos mundiais em torno dos recursos naturais e dos efeitos sociais e políticos das mudanças climáticas. E como não existem, por agora, nem actores transnacionais particularmente eficazes nem um monopólio interestatal da violência, não há a mínima possibilidade de regular esses conflitos simultaneamente antigos e novos". Importa dizer que Welzer não estabelece uma relação simples e directa entre as mudanças climáticas e a violência. Nem sempre o clima é uma causa imediata, ele é muitas vezes a "ocasião", isto é, o quadro geral que potencia o desencadear da violência que, depois, pode ter outras causas imediatas. Por isso é que, muito embora a guerra climática já esteja em curso, nem sempre damos por ela. As causas mais imediatas da violência sobrepõem-se a essa causa primeira. Essa violência extrema ligada à evolução do clima que contribuirá para desestabilizar a sociedade nasce precisamente no interior dos dispositivos existentes e não no exterior, como seria o caso de um "choque de civilizações" anunciado pelo autor norte-americano de ciência política, Samuel Huntington.

Um dos conceitos de Welzer é o de "refugiado do clima". E fornece o seguinte número: desde 1995 até 2008, os refugiados ecológicos foram estimados em 25 milhões, contra 22 milhões de refugiados políticos. Mas um estudo recente das Nações Unidas, citado no livro, aponta para 200 milhões de refugiados do clima nas próximas três décadas. Num futuro próximo, garante Welzer, será impossível fazer a distinção entre os refugiados de guerra e aqueles que fogem por causa da degradação do ambiente. E cada vez mais pessoas disporão de cada vez menos meios para assegurar a sua sobrevivência.

A primeira guerra climática, segundo Welzer, foi a guerra do Darfur. Uma guerra entre os camponeses sedentários "africanos" e os nómadas pastores "árabes". Os conflitos entre eles aumentaram por causa de mudanças climáticas que aceleraram a erosão dos solos. Uma grande seca tornou toda a região Norte imprópria para a criação de gado, quem se dedicava à pastorícia foi empurrado para o Sul. Eis como um conflito geralmente interpretado como étnico - e que de facto se desenvolveu em função de uma lógica étnica - teve as suas origens em causas ambientais. E uma das causas do genocídio do Ruanda, lembra também Welzer, foi a sobrepopulação. O que faz evocar imediatamente o fantasma nazi do Lebensraum, do espaço vital, a reivindicação de um espaço para os alemães, o que justificava o extermínio de quem o ocupava e não era alemão.

Guerras Climáticas fornece também uma longa análise do modo como os países ocidentais delegaram a violência - prescindindo do monopólio - em empresas privadas - e muitas vezes obscuras - de segurança que também já protegem as fronteiras, de modo a que estas sejam cada vez mais empurradas para o exterior, para países económica e politicamente dependentes. O autor diz que em 2006 os poderes públicos dos Estados Unidos gastaram 545 dólares por cada lar para proteger os cidadãos, tendo efectuado 100 mil contratos com empresas privadas, que operam, nos bastidores, à margem da democracia e do controlo pelo poder político. Na Europa, a agência que gere a cooperação operacional nas fronteiras da União Europeia, a Frontex, está cada vez mais confrontada com a impossibilidade de estancar as migrações que se devem à miséria, aos regimes ditatoriais e, mais recentemente, aos efeitos desastrosos das mudanças climáticas. As políticas actuais tanto da União Europeia como dos Estados Unidos consistem em empurrar para cada vez mais longe as fronteiras a transpor pelos candidatos à imigração, nomeadamente através de campos de detenção fora dos territórios nacionais ou no extremo limite deles. Assim, diz Welzer, "a moral é salva nos nossos países ricos, poupados à visão do desembarque, nas nossas costas, de multidões de homens, mulheres e crianças em busca de uma vida melhor". As palavras de Welzer ecoam com alguma força no desastre mais recente, na ilha de Lampedusa, cujos habitantes começam a manifestar-se, submetidos que têm sido a um espectáculo de morte que a União Europeia relega para os seus confins. E Lampedusa é um confim. As guerras do século XXI, vaticina Welzer, são pós-modernas e pós-heróicas, no sentido em que "têm o aspecto de ser conduzidas a contragosto".

O impacto social das catástrofes e as consequências tanto das mudanças climáticas como da corrida frenética pela conquista dos recursos naturais cada vez mais escassos são imprevisíveis, em grande medida, mas há uma regra que já todos percebemos e é lembrada por Welzer: os efeitos do aquecimento global serão tanto mais devastadores quanto eles atingem em primeiro lugar os países mais pobres e os menos capazes de os enfrentar. Daí a multiplicação dos refugiados do clima de países pobres, mas também o endurecimento dos países mais ricos, onde a pressão migratória é percebida como uma ameaça. Ou então, quando as catástrofes naturais atingem os países ricos, elas só têm impactos sociais verdadeiramente fortes em zonas e cidades pobres, como foi o caso em Nova Orleães, em 2005. Welzer lembra, aliás, que tal catástrofe já tinha sido prevista e descrita na revista Scientific American, em Outubro de 2001.

No que diz respeito à corrida para a exploração dos recursos ainda existentes, Welzer fala do que se está já a preparar na Antárctida, quando os gelos começam a derreter e o subsolo, com as suas imensas jazidas de matérias-primas, fica acessível. O direito à sua exploração já é desde há algum tempo motivo de conflitos diplomáticos e contestações. A Inglaterra reivindica um milhão de quilómetros quadrados da Antárctida, o que obviamente desagrada à Argentina e ao Chile.

O que, em suma, Harald Welzer mostra é que as nossas sociedades não estão preparadas para enfrentar os desafios e as formas de violência originados pelas guerras climáticas e pelos conflitos em torno da captação dos recursos. Essas guerras já começaram em larga escala, mas vão continuar a aumentar. As questões ambientais e dos recursos naturais tornar-se-ão a principal razão por que se mata e se morre no século XXI. Os homens normais que, durante o nazismo, se tornaram de um dia para o outro assassinos em massa (este é o tema de um dos livros de Harald Welzer) vão continuar a existir e fenómenos desse tipo irão surgir. Esta é a previsão deste psicossociólogo, baseada não em profecias apocalípticas, mas deduzida das amostras de futuro que se vão disseminando por todo o lado. Esse é o Futuro I, cujas regras de formação são gramaticalmente simples. O Futuro II, o Futurzwei, esse, é muito mais complicado de usar e tem, como sabemos, um sentido hipotético.