Nova vida da Flor do Gás resgata memórias da travessia do Douro

Empresa Menino do Douro quer fazer de lancha histórica do Douro, única travessia fluvial entre Porto e Gaia, o ex-líbris de outros tempos. Em 2014, o Cais do Ouro deve ser um ponto comercial

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A Flor do Gás já não leva tantos clientes como antigamente, mas os novos donos esperam viabilizar o negócioAinda este ano, a empresa deve ter outra lancha operacional

O dia mostra-se timidamente, ainda não bateram as seis da manhã, e Manuel Ferreira já espera no cais. É cliente da primeira viagem que todos os dias deixa Gaia e Porto a cinco minutos de distância, a única travessia fluvial entre as duas cidades, feita há quase 70 anos.

Orgulhosamente renovada, a lancha Flor do Gás passeia-se no Douro, de 15 em 15 minutos, das 6h às 22h, não importa quantos clientes tenha. É essa a política anunciada pela nova proprietária da histórica embarcação, Maria Isabel Cardoso, que há alguns meses explora a travessia.

Quando decidiu virar-se para este pedaço do Douro, não fazia ainda ideia da história em que estava a entrar: "Queríamos investir no Douro e cruzámo-nos com esta possibilidade. Usávamos o barco de vez em quando. Mas no início nem sabíamos que tinha tanta história", admite o marido da proprietária, José Cardoso.

Ao leme da embarcação, Jeremias Catarino, homem de poucas palavras, recorda aventuras de outros tempos: de quando atravessava o rio com "70 ou 80" pessoas num barco com capacidade para 27. Sem coletes e sem bóias. À pinha. "Lembro-me de uma vez que a polícia veio ter comigo e disse-me: "Você sabe em que é que está metido? Se há qualquer coisa, você é o primeiro a ir preso"", conta, agora sorridente. "Naquela altura safei-me, eles fechavam os olhos."

Aos 73 anos, Jeremias regressou ao barco que conduziu noutros tempos "porque o dinheiro [da reforma] não chegava para as contas" Mas não é por isso que se queixa: "A gente desde que tenha saúde...".

- Boa tarde.

- Boa tarde não, menina, bom dia. Hoje atrasou-se...

A conversa entre Jeremias e Carina Gomes, a cliente de 23 anos que acaba de entrar no barco na Afurada, é elucidativa. O mestre conhece quase todos os passageiros habituais: "Sei a que horas vêm mais ou menos, já estou à espera". Carina não se atrasou, mas hoje entra mais tarde ao serviço, no lado do Porto. Faz a travessia quase todos os dias há três anos, os avós também a fizeram noutros tempos. "Sinto-me privilegiada", sorri. A ideia de começar e findar o dia num barco tem um lado romântico que não ignora, mas tem também um lado prático que é de salientar. "É muito perto de minha casa, é mais rápido do que ir à volta pela ponte [da Arrábida] e é barato."

O protagonismo da viagem das 11h vai para Laura Silva, que entra na Flor do Gás pela segunda vez na vida. A primeira foi há 19 anos: "Estava grávida e pensava que ia morrer. Isto abanava, abanava, pensava que ia virar." O medo da água mantém-se, mas a irmã, emigrada na Alemanha e de visita ao Porto, justifica os cinco minutos de coragem. "Vou levá-la a andar nos transportes típicos do Porto", conta, sempre atenta à ondulação.

Mais emprego à vista

Se tudo correr como a proprietária Maria Isabel Cardoso prevê, até ao fim do ano a empresa Menino do Douro vai estar a empregar 16 pessoas em vez das cinco com que conta actualmente.

A lancha Flor do Douro, que faz parte da concessão adquirida, deve também estar no rio até ao fim do ano, quando a sua recuperação estiver concluída. Nessa altura, a Flor do Gás deve manter-se como ligação entre os cais da Afurada e do Ouro e a Flor do Douro poderá garantir outras ligações no rio.

A Menino do Douro quer fazer desta travessia fluvial uma renovada aposta para os portuenses e atrair cada vez mais turistas. E para isso não basta manter os preços actuais (um euro para cada lado; quem quiser levar bicicleta paga mais um euro).

"Queremos desenvolver o Cais do Ouro juntamente com as entidades competentes que o regem, a APDL [Administração dos Portos do Douro e Leixões]", desvendou José Cardoso, que admite ser muito difícil manter um negócio com tão pouca procura.

A limpeza do espaço, onde "havia ratazanas e muito lixo", já foi iniciada, mas há ainda muito por fazer. Por exemplo, é preciso que se "remova de uma vez o bar" flutuante Zoo, situado a poucos metros do Cais do Ouro, que se afundou em Março deste ano.

Depois das limpezas feitas, José Cardoso garante que a ideia é levar o projecto mais além e transformar o Ouro num "cais comercial". "Queremos que seja apetecível para o turismo e para as pessoas que passam aqui." Com uma infra-estrutura coberta, ficará acautelada a possibilidade de a Flor do Gás ser um transporte viável para mais pessoas, com ligação directa aos autocarros.

Apesar das burocracias constantes em que têm esbarrado, os proprietários acreditam que estes projectos poderão estar concluídos no Verão de 2014 e pensam até na abertura de um café-esplanada no cais do Ouro, apesar de não ser essa a prioridade.

Ainda não é meio-dia quando Manuel Ferreira, colete azul com o símbolo do Porto ao peito, se prepara para a viagem de regresso à Afurada, depois de mais uma manhã a "ajeitar redes em Matosinhos" e "sem tirar nada do mar". Por que se mantém fiel à Flor do Gás? "Primeiro, isto compensa; à volta, demoro muito", conta o pescador, de 64 anos de idade, 50 de mar. Depois? "Dantes via-se muita gente aqui, agora a vida está difícil. Mas é preciso defender o que é nosso; eu continuo e não admito que ninguém diga mal do que é da minha cidade."