Viúvas, pensionistas, sobreviventes. "Também me vão cortar a mim?"

As pensões de sobrevivência foram notícia. E instalou-se o "pânico". Há quem chore. E quem mostre a bata que usa para ganhar uns euros a lavar escadas porque a reforma não chega.

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Esta semana, a inquietação instalou-se entre muitas viúvas. Seis falaram ao PÚBLICO: Judite Rodrigues, 81 anos, Hortênsia Brito, 69, Teresa Portugal, 74, Elisa Chaves, 91, Alice Silva, 66, e Alice Lourenço, 85 anos (nas fotos, seguindo os ponteiros do relógio) Rui Gaudêncio

Elisa Chaves, 91 anos, nunca fez descontos para a Segurança Social. Foi costureira, mas depois de se casar o marido achou que ela devia ficar em casa a tratar dele, do pai dele, da mãe dele, "que era entrevada", e depois dos filhos. E assim foi, vida fora. Quando ficou viúva, passou a ter como único rendimento uma pensão de sobrevivência: pouco mais de 600 euros. Há uns anos foi operada à coluna - "puseram-me uns parafusos e umas placas". E hoje passa meses sem sair de casa. As dores vão-se tornando mais incapacitantes com a idade, resistem aos analgésicos vários que toma todos os dias.

Não consegue descer os três andares de escadas do prédio onde vive, perto da zona nobre do Chiado, em Lisboa. E mesmo que conseguisse, não teria força para caminhar na calçada do bairro histórico. É na sua casa que nos recebe. No rosto tem uns óculos colados com cola. Não tem dinheiro para comprar uns novos.

Os ossos estalam de cada vez que se levanta da cadeira, mas Elisa sorri. Sorri quando diz que tem sorte em ter os filhos, que a vão ajudando e pagam a uma empregada que "faz umas horas" e lhe mantém a casa limpa.

A renda da casa duplicou este ano, com a nova lei das rendas. Pagava 60 euros, passou para 120. Mas este ano trouxe mais novidades: pela primeira vez chegou-lhe uma conta das finanças para pagar IRS - "mais de 200 euros", relativos a 2012. Quando lhe disseram, achou que havia engano - "Pois se eu não tenho nada, só tenho os meus filhos." Paga a renda, a luz, a água, o telefone, o gás. Nunca beneficiou de tarifas sociais. Paga os remédios. E os alimentos. E sobra nada.

Apesar de fechada em casa, está muito atenta: tem a janela, onde passa tempo entretida com o frenesim de carros para cima e para baixo; vê os noticiários; lê livros; confirma cada conta de supermercado que os filhos lhe trazem - apesar de ver cada vez pior. Tem de ser operada às cataratas um destes dias. Ainda não arranjou coragem para ir ao hospital falar disso. Médico de família não tem.

"Sou muito poupada. Mas parem de tirar mais aos pobres. Tenham vergonha!" Anda inquieta, por estes dias. No domingo ouviu dizer que por causa da austeridade, vêem aí cortes também nas pensões de sobrevivência - as pensões de viuvez como lhe chamam muitas viúvas.

"Metam-se com os grandes"
A semana também foi agitada no Cantinho do Idoso, na Pontinha - um centro de dia sem fins lucrativos. Não se fala de outra coisa. Na quinta de manhã correu que havia uma jornalista que queria falar com viúvas. E as viúvas começaram a chegar com as malinhas pelo braço e um olhar interrogativo. "Mas acha que também me vão cortar a mim?"

Algumas desmancharam-se a chorar a meio da conversa. E houve quem abrisse a malinha às escondidas e mostrasse a bata que dali a pouco ia vestir, para "ganhar uns euros a lavar umas escadas" e assim completar uma pensão que não chega. "Mas isso não se pode dizer."

Hortênsia Brito é a mais nova das que aceita falar: 69 anos. Reformou-se cedo, "por causa de uma embolia". Teve direito a "200 e tal euros por mês" de pensão. Depois enviuvou e passou a receber mais 330 da do marido. Hoje, o seu rendimento é de 609 euros por mês. Paga 160 de renda de casa, mais outro tanto de prestação de uma carrinha - aos 39 anos, o filho ficou desempregado e ela tem de ajudá-lo. Quase salta da cadeira quando começa a falar de eventuais cortes na pensão de sobrevivência. "Por que não se metem com os grandes?"

As pensões de sobrevivência são uma prestação em dinheiro paga aos familiares (viúvo, viúva, filhos ou, em alguns casos, pais) após a morte dos subscritores da Caixa Geral de Aposentações ou do regime geral da Segurança Social. Correspondem, em geral, a 60% da pensão que o trabalhador receberia se estivesse vivo e reformado.

Esta semana foi notícia que o Governo pretende cortar nestas pensões - pelo menos em algumas - e poupar 100 milhões de euros. "Se o limite para a redução se situar, como alguma comunicação social afirma, nos 628 euros, estamos a falar de pessoas para quem menos 100 ou 200 euros é muito significativo", alertou a CGTP, em comunicado.

"Até me sobe a tensão"
O ministro da Segurança Social disse que haverá um patamar mínimo de rendimentos que ficará salvaguardado. E que só serão afectadas pessoas que acumulem pensões. Passos Coelho disse que nada estava fechado. Rosário Gama, da Associação de Aposentados, Pensionistas e Reformados, lamenta a situação: "As pessoas estão em pânico. Já não sei o que lhes dizer."

Alice Lourenço, 85 anos, puxa uma cadeira e senta-se perto de Hortênsia. Com uma sacola aninhada na saia azul explica que não precisa de muito para viver - entre a sua reforma e a de sobrevivência recebe perto de 450 euros. Come sopa, carne e peixe uma vez por outra, compra a fruta mais barata, "a mais pequena", e está feito, diz. Um corte na pensão é que não aguentaria.

Cerca de 100 euros por mês vão directos para medicamentos. Explica: o marido morreu há 15 anos, e depois perdeu o filho, de 36, e um neto... "Deixei de comer, fiquei com uma depressão. A depressão é uma coisa que não passa. Hoje tomei cinco comprimidos. Deixei de ter cabeça para muitas coisas. Dantes olhava para as pessoas aqui no centro de dia a jogar às cartas e dizia: "Estas pessoas aqui a jogar às cartas o tempo todo não dão rendimento à nação." Agora sou eu que jogo às cartas."

Se tivesse uma reforma um pouco maior, o que fazia? A resposta mais ouvida pelo PÚBLICO por estes dias entre as idosas foi: "Comia melhor".

Por exemplo, Judite Rodrigues, 81 anos, gostava de poder comprar mais iogurtes. Gosta muito "daqueles que vêm em garrafinhas", diz, no apartamento onde vive, num bairro social da freguesia do Beato, em Lisboa. Move-se com um andarilho, mas move-se pouco - porque tem pouca força nos braços para o agarrar. Tem tão pouca força que não consegue pegar numa cafeteira com água e aquecer um chá.

Recebe 430 euros entre a pensão de sobrevivência e a sua reforma. E a ajuda da organização Médicos do Mundo que, todos os dias, gratuitamente, lhe garante que alguém lhe toca à porta para a ajudar na higiene pessoal. A mesma organização fornece alguns dos muitos medicamentos que todos os meses tem de aviar.

Sentada na mesa da cozinha, onde há dezenas de caixas de medicamentos, a viúva conta que já lhe tem passado pela cabeça tomá-los a todos de uma vez. "Mas depois, em vez de morrer, ainda fico pior do que o que estou..." Sorri. Encolhe os ombros. Desdramatiza. No minuto seguinte já está a falar das flores de plástico que tem espalhadas pela casa. Deixou de poder ter das verdadeiras porque não tem força para o regador.

E os cortes nas pensões? Diz que só de imaginar lhe sobe a tensão.

Cerca de 82% dos quase 715 mil pensionistas-sobreviventes são do sexo feminino o que, em boa parte, se explica com o facto de, em média, os homens morrerem mais cedo do que as mulheres.

Todas as viúvas e viúvos têm direito. E, em 2012, o valor médio da pensão era 216 euros. Mas as mudanças em estudo poderão passar pelo fim do automatismo da atribuição, em função da situação económica dos beneficiários.

Respeito pelos mortos
"Quando alguém morre o povo diz: "Que descanse em paz"", lembra Teresa Portugal, de 74 anos: "Eu não sou crente, mas quando digo que o Governo querer cortar pensões de sobrevivência é profundamente perturbador é a isto que me refiro: os mortos também têm direitos. Houve alguém que trabalhou e descontou e teve a expectativa de que os seus beneficiariam [se morresse]. Pôr isso em causa é como esventrar um cemitério."

Teresa Portugal vive em Coimbra. Foi professora, vereadora da câmara, deputada. Viajou.

Quando se reformou, a pensão dela mais a de sobrevivência do marido, que morreu há 19 anos, permitiam-lhe manter o nível a que estava habituada. E quando "há uns dois anos" os cortes nas pensões se começaram a fazer sentir, fez ajustamentos - comprar menos livros, menos discos, ir menos ao cinema, nem pensar em viagens. À medida que as taxas e sobretaxas se agravaram, pensou em cortar também nas horas da empregada doméstica.

Neste Inverno, teve uma crise que a deixou perto de nove meses "quase incapaz" na casa onde vive sozinha. E percebeu que tinha de manter a empregada.

"É evidente que sei que há quem esteja muito pior do que eu", diz a professora que entre as duas reformas recebe cerca de 2300 euros. "Mas tinha a expectativa de viver o final da minha vida de uma forma tranquila. Tenho direito a um pouco do nível de vida que tinha. Ainda não estamos em guerra... ou estamos. Uma guerra psicológica."

Diz que o que este Governo faz "é uma subversão do acto de governar" - "lança a angústia generalizada."

Avós ajudam netos
Regresso à Pontinha. Albertina Pires, a voluntária que está à frente do Cantinho do Idoso, tem 71 anos. Ex-funcionária pública (37 anos de carreira), recebe à volta de 900 euros, a que se somam mais 270 de pensão de sobrevivência do marido que era torneiro mecânico.

Garante que não lhe sobra dinheiro. A pensão de sobrevivência tem tido um destino certo nos últimos anos: pagar a licenciatura do filho de 45, que quis voltar a estudar, enquanto trabalha; agora está a servir para lhe pagar o mestrado.

Albertina ainda paga a natação e a música ao neto de 12 anos, ajuda com os livros escolares e suporta uma parte das despesas do supermercado - nem o filho, nem a nora ganham bem. "Os senhores governantes não vêem isto: muitos avós se sacrificam para ajudar os filhos e os netos."

Alice Silva, de 66 anos, ex-empregada doméstica, uma das últimas utentes do Cantinho a chegar à conversa com o PÚBLICO, está demasiado frágil para resistir sem chorar. Gerir a recente passagem à reforma, a viuvez, o agravamento do seu estado de saúde deixou-a frágil. A sua história?

Viveu 15 anos com um homem, mas ele não queria casar-se. Até que ele adoeceu e quatro meses antes de morrer casaram-se por fim. Quando ele partiu, Alice foi reclamar a pensão de viuvez. Disseram-lhe que não tinha passado tempo suficiente desde o casamento para receber. Ficou com os 400 e poucos euros de pensão e de Complemento Solidário, mas aconselharam-na a ir para tribunal. Foi e ganhou. Mas a conquistada pensão de sobrevivência ainda não veio. "Acha que devo ir lá para os fazer lembrarem-se de mim?"