Um deles pode ser o Nobel da Paz 2013

Malala, a jovem paquistanesa que desafiou os taliban, é apontada como principal favorita. Mas na lista dos possíveis laureados deste ano também estão Mary Robinson, Hu Ji, um médico do Congo e activistas da Rússia.

Malala Yousafzaï tornou-se num símbolo do direito universal à educação
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Malala Yousafzaï tornou-se num símbolo do direito universal à educação Reuters/Hoda Emam
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Denis Mukwege dedicou-se a tratar mulheres vítimas de violação no Congo AFP
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Mary Robinson: a primeira mulher Presidente da Irlanda tem-se destacado na protecção aos mais desfavorecidos Nuno Ferreira Santos
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Juan Manuel Santos pôs as FARC e o Exército a dialogar para pôr fim a décadas de guerra de guerrilha na Colômbia AFP/Raul Arboleda
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Helmut Kohl, outro dos laureáveis, liderou a reunificação da Alemanha AFP/Johannes Eisele
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A activista russa Lyudmila Alexeyeva é uma referência na defesa das liberdades nos últimos 50 anos AFP/Misha Japaridze
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O dissidente chinês Hu Jia esteve preso três anos acusado de subversão AFP/Frederic J. Brow

Malala Yousafzaï desafiou a lei islâmica (sharia) e os taliban no Paquistão, sobreviveu a uma tentativa de assassínio no Vale de Swat, onde morava, e tornou-se num símbolo do direito universal à educação, contra o extremismo e a favor da paz.

A jovem de 16 anos, que na quinta-feira venceu o Prémio Sakharov para a liberdade de pensamento atribuído pelo Parlamento Europeu, surge como a principal favorita entre os prováveis laureados de uma lista de 259 nomeados deste ano para o Nobel da Paz, que é entregue nesta sexta-feira.

“Seria dar um sinal muito claro aos terroristas taliban de que o mundo está a ver e apoia aqueles que lutam pela igualdade do género e os direitos humanos universais, que incluem o direito à educação das raparigas”, defendeu a plataforma de petições Change.org.

O Comité do Nobel em Oslo não revela a identidade dos nomeados, escreve o Washington Post. Mas alguns nomes são conhecidos, através das candidaturas. E alguns emergem como claros favoritos.

Cruzando projecções de jornais como o Washington Post, ou previsões, como as de especialistas do Peace Research Institute de Oslo (PRIO), a lista inclui, entre outros e além de Malala, a ex-Presidente da Irlanda Mary Robinson, o antigo chanceler alemão Helmut Kohl, o actual Presidente da Colômbia, o dissidente chinês Hu Jia, três activistas russas, Lyudmila Alexeyeva, Svetlana Gannushkina e Lilia Shibanova, e o médico do Congo-Kinshasa Denis Mukwege, que se dedicou a tratar mulheres vítimas de violação e em risco de vida por complicações ginecológicas resultantes dos abusos.

No ano passado, também ele foi alvo de uma tentativa de assassínio, semanas depois de denunciar a violação em massa como arma na longa guerra no Leste do Congo, num discurso na Assembleia-Geral da ONU em Nova Iorque.

“O efeito mais importante [de lhe atribuir o Nobel] seria, além de um reconhecimento do seu trabalho, virar a atenção da comunidade internacional para o conflito no Congo”, disse o historiador norueguês e autor de três livros sobre o Nobel da Paz Asle Sveen ao site da Bloomberg.

A Fundação Carter, do antigo Presidente dos Estados Unidos, nomeou-o “cidadão do mundo”. Denis Mukwege também recebeu o Prémio Olof Palme e o Prémio de Direitos Humanos das Nações Unidas, entre outras distinções que deram visibilidade à sua missão de tratar e “dar voz” às vítimas que “muitas vezes sofrem em silêncio”, lê-se no site do Hospital Panzi, que fundou em 1998 em Bukavu para tratar as mulheres violadas.

Pela justiça e o ambiente
A voz das mulheres da região dos Grandes Lagos, que inclui o Congo-Kinshasa, “deve ser ouvida” na procura de uma paz duradoura, escreveu num artigo recente no Guardian Mary Robinson, outro nome em que imprensa e especialistas apostam.

A primeira mulher Presidente da Irlanda, entre 1990 e 1997, e Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, entre 1997 e 2002, foi escolhida este ano para enviada especial da ONU para a volátil região dos Grandes Lagos. No seu país, legalizou o divórcio. No mundo, é conhecida por defender os direitos das mulheres, valorizar o respeito dos direitos humanos e proteger os desfavorecidos.

Criou a Fundação Mary Robinson – Clima e Robinson para defender as vítimas esquecidas das alterações climáticas e foi escolhida para o restrito e prestigiado clube dos Anciãos, de líderes mundiais em acções a favor da paz e dos direitos humanos, criado em 1997 pelo ex-Presidente da África do Sul Nelson Mandela.

“Nada é mais urgente que a paz”
Pela iniciativa de lançar negociações de paz entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o Exército para pôr fim a várias décadas de uma guerra de guerrilha, o Presidente da Colômbia Juan Manuel Santos é outro possível laureado, na lista que o Washington Post arriscou esta quinta-feira.

“Por que estou a dialogar com terroristas na Colômbia” foi o título que o Presidente colombiano deu a um artigo que publicou no mês passado no Wall Street Journal. “A guerra é mais fácil. A guerra é de longe mais espectacular que a paz. Sei isso porque fui ministro da Defesa da Colômbia”, escreveu. “A paz, por outro lado, requere paciência e determinação face àquilo que parecem ser inultrapassáveis dificuldades. E a paz tem muitos inimigos. Mas nada é mais urgente do que alcançá-la.” E para isso, Juan Manuel Santos arriscou estender a mão ao inimigo.

Em nome da paz, o ex-chanceler alemão (1982-1998) Helmut Kohl liderou a reunificação da Alemanha, defendeu a integração europeia e ajudou a criar a moeda única europeia. No ano passado, louvou a decisão do Comité de Oslo de atribuir o Nobel da Paz à União Europeia como “inteligente e visionária”, e uma forma, que apreciou, de encorajar os europeus “a avançar rumo a uma Europa unida”.

Esta sexta-feira, e segundo as previsões, podia ser ele o laureado, embora a atribuição do prémio no ano passado reduza essa probabilidade. Hoje com 83, o “titã da diplomacia da Guerra Fria”, como lhe chama o Washington Post, é mesmo assim apontado entre os dez favoritos.

Russos e chineses não silenciados
Por desafiarem o Governo russo em nome da defesa dos direitos humanos, as activistas russas Svetlana Gannushkina, Lilia Shibanova e Lyudmila Alexeyeva compõem a lista dos favoritos. Gannushkina fundou o Memorial para as vítimas do estalinismo; Shibanova criou uma organização para promover a democracia e defender eleições livres e transparentes na Rússia; Alexeyeva é uma referência na defesa das liberdades nos últimos 50 anos e uma autoridade moral no país por não silenciar a sua voz contra os abusos, apesar das restrições.

“O homem que não será silenciado” é também como o repórter da Sky News se refere ao dissidente chinês Hu Jia, que esteve preso três anos acusado de subversão. Numa entrevista à Sky News em lugar não revelado, no mês passado, o conhecido activista reincidiu na condenação que fez contra o regime chinês liderado pelo Presidente Xi Jinping.

“O desafio para o Governo é saber como contornar as exigências para uma abertura democrática. Travando o processo para não deixar que se transforme numa nova Primavera Árabe? Usam a força da polícia”, disse. “Não somos apenas um ‘país policial’, somos um ‘império policial’. A repressão em massa chegou a todos os cantos da nossa sociedade.”

A nomeação de Hu Jia não surpreenderia, mas a atribuição do Nobel da Paz de 2010 a outro dissidente chinês, Liu Xiaobo, “pela sua longa e pacífica luta pelos direitos fundamentais na China”, torna esse cenário menos provável.