Um fado que soa a toda a Lisboa

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RITA CARMO

Largo da Memória é álbum de fado e guitarra portuguesa. Mas os pontos de fuga de Ricardo Ribeiro são tantos que o disco circula livremente entre o coração de Lisboa e o Magrebe.

Conta-se que no dia seguinte à revolução egípcia de 23 de Julho de 1952, com a deposição de Farouk I e do regime monárquico, o sindicato dos músicos proibiu que a música de Oum Kalthoum fosse tocada em público, castigando a cantora que chegara a actuar para o rei. Gamal Abdel Nasser, principal líder da revolução orquestrada pelo Movimento dos Oficiais Livres e futuro Presidente do Egipto, ao saber que a voz maravilhosamente sinuosa de Kalthoum fora corrida das ondas radiofónicas terá reagido: "Mas estão loucos? Querem que o Egipto se vire contra nós?". A cantora, elevada a imagem sacrossanta do anti-colonialismo, tornara-se diva de poetas, músicos e intelectuais, mas também subira até um pedestal de adoração popular em torno do qual se agitava um culto que no Ocidente só teria comparação com as maiores estrelas do rock"n"roll. E, apoiada em notáveis canções sentimentais, religiosas e nacionalistas, havia de crescer tão para lá do seu lugar que se tornaria a grande referência musical de todo o mundo árabe.

O nome de Oum Kalthoum sobe à boca de Ricardo Ribeiro amiúde quando fala da sua música. Em parte, devido a essa exacta capacidade de, através de "um canto de efeito hipnótico e melancólico" (citando o pensador Edward W. Said), carregar esperanças colectivas e apresentar-se como farol de uma emancipação quase divina. A esse movimento de deixar de se representar apenas a si mesma e ser promovida a uma espécie de projecção grupal, o fadista chama "ser a mensagem e não o mensageiro". Coisa comum a todos os seus grandes heróis - de Kalthoum a Amália Rodrigues, passando por Fernando Maurício, Alfredo Marceneiro, Alim Qasimov e Johnny Hartman - e que tem a ver, explica-nos, com a ideia de "chegar primeiro a música e só depois o cantor". Tudo isto faz particular sentido se pensarmos que Ricardo é uma orgulhosa peça na história do fado, inscrevendo-se numa tradição à qual pretende trazer novidade, mas sem lhe beliscar a essência. "O fado é o fado", diz, no tom de quem escusava de ter de anunciar o óbvio: está no topo da (sua) pirâmide.

Uma das razões pelas quais Ricardo Ribeiro acredita que só a morte poderá arrefecer-lhe o ímpeto fadista prende-se, ainda, com o espanto maravilhado que continua a assaltá-lo perante a música: "Como é que algo tão simples nos toca tão depressa? Como pode [o fado] ser poética e melodicamente tão rico e tão simples harmonicamente? Parte da sua riqueza está na voz, na maneira como se interpreta e nas possibilidades de criação dentro desta simplicidade. O fado é uma coisa espiritual. Por isso é que se pede silêncio - para ouvirmos falar da nossa história, da nossa vida, e para podermos pensar. É algo que me faz viver, que me alimenta e funciona como banco de psiquiatra." Nesses caminhos do fado e da música árabe que Ricardo concebe como paralelos, recusando qualquer promiscuidade, volta a resgatar o exemplo implícito de Kalthoum: "Reconheço uma nobreza incrível nesta canção, porque o fado, sendo uma canção fundamentalmente honesta, consegue reunir todas as classes, todas as pessoas num ponto só." E concretiza a ligação ao puxar um aforismo árabe que serve a ocasião: "A simplicidade é a sofisticação máxima."

Tudo mudou com Rabih

Falta-lhe método para se dizer um estudioso, mas Ricardo Ribeiro é há muito guiado por uma curiosidade sôfrega pela música e pela cultura árabes. Muito antes ainda de se ter cruzado com o músico libanês Rabih Abou-Khalil, com quem colabora regularmente desde a edição de Em Português (2008), já um amigo tunisino o colocara na rota de Kalthoum, Qasimov e outros nomes determinantes no seu canto. "São referências porque têm a ver com a minha sensibilidade - por encontrar neles uma força da natureza, algo que não se explica, a perfeição da maneira de cantar, conseguem chegar ao meu coração, à minha pele e aos meus sentidos", justifica. "Esse registo assemelha-se mais à minha sensibilidade de canto. Emociona-me, transcende-me, fascina-me, encanta-me. Faz-me voar para outros níveis. Não quer dizer que não sinta isso com o Maurício, a Amália, o Marceneiro ou com o folclore do Minho, o folclore beirão ou o cante do Alentejo."

"Só que", admite, "o contacto com o Rabih veio mudar tudo". Até então, estas referências eram algo latente, com pouco espaço e sem noção de como se poderiam mostrar na sua voz fadista. "A partir do momento em que começo a perceber, a fazer perguntas, a entrar naquele meio e a entender porque se faz de determinada maneira e em determinado modo, é fascinante." Estas investigações dariam corpo a uma ligação mais efectiva. Mas Ricardo Ribeiro passeia-se por este conhecimento com cautela, para que não degenere em quebra de encanto. "Às vezes perdemos o encanto quando sabemos demasiado sobre as coisas, porque tudo tem o seu lado podre. Mas eu quero viver a amar as coisas como elas são, e não como gostava que elas fossem. Como o fado - amo-o como é. Claro que, por curiosidade, gosto de saber se Oum Kalthoum nasceu no Sul ou no Norte do Egipto. Mas o que verdadeiramente me importa é a obra."

Um homem e a cidade

Largo da Memória, o novo álbum de Ricardo Ribeiro, nasceu de tardes passadas no Jardim de São Pedro de Alcântara, em Lisboa, numa observação da cidade, espreitada por entre as árvores vergastadas por um Inverno austero. Ricardo subia com o olhar a linha do rio até ao Castelo, à Mouraria, ruas, prédios e histórias ouvidas e coligidas durante anos, descortinando de que forma a memória e a vida da própria cidade poderiam ter eco num disco feito hoje, por quem que ali sempre viveu. A memória, neste disco, funde-se a partir de dois veios diferentes: um arquivo pessoal, feito de referências musicais fadistas, árabes, judaicas, e um desejo de que tudo isso fizesse ressoar a própria história da cidade. A topografia, a cartografia, ajudariam-no a encaixar os seus recursos e preferências - os temas, os poetas, os músicos - num tronco sólido chamado fado. A partir desse ponto, bastou-lhe abrir uma válvula que prendia ideias em rápida fermentação e deitá-las cá para fora.

É um disco que se joga no equilíbrio delicado de manter inalterada a fachada fadista de Ricardo Ribeiro e, discretamente, desviar-nos para os confins de uma personalidade musical mais complexa. É sabido que Fernando Maurício e Alfredo Marceneiro são as duas figuras a quem o fadista pede bênçãos antes de entrar em palco, mas aos poucos o fado, sendo suficiente, deixou de lhe bastar. Houve quase uma cisão, dois reportórios distintos - ainda que familiares - a terem de encontrar uma forma saudável de coabitação, sabendo que a relação de forças será sempre desigual. "São dois amores que tenho de cumprir em separado", confessa. Mesmo que surjam assim, lado a lado, na cabeça de Ricardo não devem confundir-se. "Se um dia disser que Tarab é um fado, por favor, internem-me na ala psiquiátrica mais próxima", diz como graça, mas é provável que se antecipasse a um internamento compulsivo. "O fado, a música do Magrebe e o flamenco têm coisas que os interligam, temos o mesmo espírito, mas não os relacionamos porque a música árabe é modal e o fado é tonal, ocidental."

A forma como se move nos dois territórios é, por isso, ligeiramente distinta. Ao fado, Ricardo Ribeiro conhece-o do avesso, avista-o a dez quilómetros se preciso for, encontra-o às cegas, identifica-lhe cada nuance sem dificuldade. Daí ter encomendado a Ricardo Rocha um arranjo setecentista (três guitarras portuguesas tocadas em simultâneo) para Romance ou ter introduzido uma subtil transformação no Corrido à antiga portuguesa, fazendo coincidir uma inabitual mudança de discurso na voz, no texto e na guitarra: "Quero criar alguma coisa mas dentro da própria tradição." Quando se junta a Rabih Abou-Khalil, a preocupação passa a ser a de ocupar uma casa em que é um intruso bem-intencionado, movendo-se cuidadosamente para não derrubar um bibelot que seja.

O fadista fala também de memória por oposição a um mundo que vive em contínua obsessão com a novidade, com aquilo que vai acontecer num prazo não superior a uma semana. Tudo se gasta e vale pelo curto espaço de tempo em que não desaparece num ciclo de noticiários televisivos ou, pior ainda, no fundo do ecrã de computador, num vómito de feeds de temas aleatórios. Ricardo é, de certa forma, uma alma antiga, que diz só poder cantar o passado e que se revolta contra a tecnologia ao serviço de tanta incremental velocidade e ao mesmo tempo tão inapta a "parar de matar em nome de deus ou de pôr fim a tanta gente a morrer de fome". Parecendo que não, tudo isto está presente num canto que soa a ancestral e pede tempo para ser ouvido. Provavelmente, este seria um homem mais feliz num outro período histórico. Mas há, por outro lado, contemporaneidade a latejar na sua música, e regozijo pelo facto de ter encontrado outros como ele, gente com quem partilha Largo da Memória, músicos a quem agradece o facto de se lhe terem atravessado à frente.

"Uns têm paixões por umas coisas e outros têm por outras. Eu tenho estas e vivo assim. E canto assim", finaliza. "Canto assim" pode dizer tudo ou nada. Só que por trás desta simplicidade de Ricardo Ribeiro há sempre algo a agigantar-se. Chamemos-lhe, por exemplo, mensagem.

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