O dia mais feliz na vida de Malala continua a ser o regresso à escola

Jovem paquistanesa que foi baleada por extremistas religiosos no seu país foi ontem escolhida pelo Parlamento Europeu para receber o Prémio Sakharov pela sua luta pelo direito à educação

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A jovem Malala não se cansa de repetir: "Todas as crianças devem poder ir à escola" QUIQUE GARCIA/AFP

As feições infantis e cândidas não conseguem esconder a expressão firme e decidida, incomum numa jovem de 16 anos. Mais incomum ainda se esta jovem estiver a discursar na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, sob o olhar atento do mundo. O cenário faria tremer as pernas dos mais audazes, mas poucos são os que naquela idade já viveram tanto. Malala Yousafzai sobreviveu a uma tentativa de assassínio, recebeu prémios em todo o mundo e é admirada por líderes mundiais. Ontem soube que o Parlamento Europeu decidiu atribuir-lhe o Prémio Sakharov para a liberdade do pensamento. Hoje irá saber se o Nobel da Paz também lhe é entregue. Mas o dia mais feliz da vida de Malala continuará a ser o do regresso à escola, depois de quase ter perdido a vida. Afinal, sempre foi esse o seu único desejo.

O caminho de Malala começou a ser trilhado entre as montanhas rochosas do Vale de Swat, Paquistão, perto da fronteira com o Afeganistão. Numa concessão do Governo de Islamabad aos taliban, em 2009, passa a ser permitida a imposição da sharia (lei islâmica) na região. A jovem vive na aldeia de Mingora e tem uma única ambição, da qual não prescinde: ir à escola. A interpretação que os taliban liderados pelo mawlana Fazlullah fazem da sharia leva-os a impedir as raparigas de frequentar o ensino.

Para além de não se deixar intimidar pelos ataques dos fundamentalistas, a adolescente denuncia o ambiente de terror que se vive na sua pequena aldeia, através de um blogue no site da BBC Urdu, sob o pseudónimo de Gul Makai. "Ela era apenas uma menina que queria ir à escola", recorda à revista New Yorker Mirza Waheed, antigo editor da BBC Urdu. Foi ele que seguiu uma sugestão de um dos seus repórteres no Vale de Swat para dar oportunidade a uma professora de uma das escolas primárias para contar o que se passava na região dominada pelos taliban. Ziauddin Yousafzai, director de uma das escolas, não conseguiu convencer nenhuma das suas professoras, receosas de retaliações, mas Malala, sua filha, ofereceu-se para escrever um diário. Tinha então onze anos.

"O Diário de Uma Estudante Paquistanesa" depressa começou a ganhar notoriedade. Nele, a sua autora contou como era ameaçada no caminho para a escola ou de como sonhava com ataques de taliban durante a noite.

Vítima do seu próprio sucesso, a jovem chama a atenção dos taliban. Na sua página de Facebook, não esconde ao que vem: "Uma em cada dez crianças que não vão à escola primária vive no Paquistão", podia ler-se na foto de perfil. De uma forma surpreendentemente premonitória, Malala, questionada sobre o receio de represálias, responde: "Penso nisso muitas vezes e imagino a cena perfeitamente. Mesmo que eles venham para me matar, eu irei dizer-lhes que o que eles estão a tentar fazer é errado, que a educação é um direito básico nosso."

O pesadelo tornou-se realidade a 9 de Outubro de 2012. Dois taliban armados entram na carrinha escolar. Perguntam por Malala Yousafzai. A jovem levanta-se e diz simplesmente: "Eu sou Malala Yousafzai" (I Am Malala Yousafzai é o título da sua autobiografia, publicada na semana passada). É atingida na cabeça de imediato. Entre a vida e a morte, é levada para um hospital em Birmingham, Reino Unido. Ao fim de seis dias, Malala acorda, tal como o mundo.

Em Islamabad, o Governo condena veementemente o ataque. As organizações de defesa dos direitos humanos vociferam contra o extremismo islâmico. Multidões juntam-se em oração por Malala. Os taliban não estão preocupados. "Apesar de ela ser nova e uma menina e de os taliban não acreditarem em ataques a mulheres, qualquer um que faça campanha contra o islão e a sharia deve ser morto", explicava de forma impiedosa o porta-voz do grupo, na altura.

Malala e a família mudam-se para Inglaterra e, cinco longos meses depois, a rapariga volta à escola, desta vez no colégio feminino Edgbaston High School. "Penso que é o momento mais importante, este meu regresso à escola. É o que eu sonhei, que todas as crianças devem poder ir à escola, que é o seu direito básico", afirmou, citada pela BBC.

Mesmo tendo voltado aos bancos da escola, Malala não abandonou a sua luta. Nem podia ser de outra forma. Era agora um ícone do direito das mulheres à educação e do combate ao extremismo religioso. Sucederam-se prémios e honras. Prémio Memorial Madre Teresa, Prémio Simone de Beauvoir, Embaixadora da Consciência da Amnistia Internacional, International Children"s Peace Prize, Prémio da Fundação Clinton, Prémio Anna Politkovskaya, nomeada para Personalidade do Ano da Time, e a lista poderia continuar. Malala, essa, só irá pousar os livros e as canetas, "as nossas melhores armas", quando cada criança tiver um banco de escola à sua espera.