Jazz de todas as latitudes em três dias de festival na Casa da Música

Foto
Rob Mazurek toca amanhã ao lado do guitarrista dos Tortoise Daniel Vass

Gregory Porter, hoje, é o nome maior de um cartaz que pretende mostrar a diversidade do jazz nas duas salas da Casa da Música

Dez concertos em três dias, repartidos por cinco sessões em duas salas pode parecer uma ementa suficiente para representar o jazz actual. O Outono em Jazz que hoje se inicia na Casa da Música vai no entanto muito além da quantidade de eventos que propõe. A sua natureza é de tal modo ecléctica que de hoje à noite até domingo à hora de jantar haverá soul, blues do Delta do Mississipi, hip-hop, aproximações ao cool do tempo de Miles Davis, um cardápio para um piano que revisita Charlie Parker, DJ, big bands e concertos a solo absoluto, nórdicos e norte-americanos, experimentalistas e canónicos, músicos pós-qualquer coisa ou retro. No Outono em Jazz "não há por opção uma linha estética", assume o director artístico, António Jorge Pacheco.

O programa deste evento integrado no Ciclo Jazz Sonae começa com Gregory Porter. Quico, cantor dos Jazz Refugees e professor de canto jazz no Conservatório do Porto, coloca Gregory entre as vozes mais decisivas da actualidade. "Há na sua música a tradição do jazz e do blues, uma ligação às raízes que é feita com energia e com a recusa de um jazz demasiado geométrico", diz. Com apenas três discos, Porter recebe elogios de diferentes quadrantes. Este mês foi capa da influente revista Downbeat, que o apelidou de "poeta da soul".

Ainda nessa noite vale a pena passar pela Sala 2 da Casa da Música para ver e ouvir Samuel James e Soweto Kinch. O primeiro a solo com banjo, steel guitar e harmónica, numa viagem pelos tons e sons do blues do Delta. Imperdível. Logo depois o jazz urbano, solto e irreverente do britânico Soweto Kinch, ora saxofonista, ora cantor de hip-hop, num concerto que se adivinha intenso e agitado.

Amanhã, a European Jazz Orquestra, conduzida pela sueca Ann-Sofi Soderqvist anuncia a solenidade e o colorido de um repertório melódico e algo convencional. Um bom ponto de partida para o que se segue, novamente na Sala 2. Para começar, o guitarrista dos Tortoise junta-se ao trompetista Rob Mazurek para uma sessão na qual o experimentalismo se pode cruzar com a modernidade dos anos 1960 - Mazurek tocou com Pharoah Sanders ou Roscoe Mitchell. Depois segue-se o português Rodrigo Amado num trio com DJ, um baterista e a promessa da atonalidade e de um "groove mutante". Haverá ainda lugar para o intimismo com os noruegueses Elephant 9, que à sua maneira nos trarão as paisagens sonoras do jazz escandinavo outrora abertas por Terje Rypdal ou Jan Garbarek.

Domingo ao fim da tarde, de novo na Sala 2, Gregory Houben, um trompetista belga que navega entre Miles e a bossa nova, o português Nelson Cascais e o britânico Django Bates encerram o Outono em Jazz. Cascais, contrabaixista, apresenta-se a liderar um decateto que promete. Bates, pianista, propõe-se revisitar a obra de Charlie Parker com o seu trio. Uma forma de regressar ao mainstream neste festival que António Jorge Pacheco, sem nada prometer, pretende reeditar no Outono de 2014.