Já há supermercados na Europa a vender fruta e legumes “feios”

Combate ao desperdício alimentar está a levar cadeias de retalho a mostrar nas prateleiras produtos que são, geralmente, deitados para o lixo.

Lojas começam a vender fruta não normalizada
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Lojas começam a vender fruta não normalizada Enric Vives Rubio

Os portugueses não são fãs de fruta e legumes embalados. Gostam de escolher e tocar nos produtos e se, por exemplo, a maçã tem uma pequena mancha escura, é quase certo que não entra no saco de compras. Nas alinhadas prateleiras dos supermercados, as pêras têm o mesmo tamanho e a selecção das melhores peças começa no campo. Se não apresentam o calibre certo, a fruta é rejeitada. O destino mais certo é o lixo ou a alimentação animal.

Mas o combate ao desperdício alimentar, que já mobiliza associações não-governamentais, está a chegar às empresas de distribuição, pelo menos, em alguns países europeus. A alemã Edeka começou esta semana um projecto-piloto para vender estes produtos.

“O consumidor compra com os olhos e está habituado a determinadas normas de forma ou cor”, disse à AFP Gernot Kasel, porta-voz da cadeia de distribuição, cuja campanha tem o mote “ninguém é perfeito”. Durante quatro semanas, algumas das lojas da empresa vão vender fruta e legumes “feios” a preços mais baixos do que os ditos “normais”.

Também na Suíça, a Coop lançou a “Ünique”, uma gama de legumes disformes e, por isso, geralmente rejeitado, mas 60% mais baratos. “Há uma margem para vender ainda mais estes produtos, que já têm uma base de clientes acima das nossas expectativas”, afirmou à mesma agência Nadja Ruch, representante da Coop.

Outras cadeias como a Rewe (Alemanha) ou a Sainsbury’s (Reino Unido) estão a deixar entrar estes produtos alimentares imperfeitos. “Esta não é uma decisão movida por critérios económicos. É uma medida concreta contra a cultura do desperdício”, diz fonte da Rewe.

Por cá, a Cooperativa Fruta Feia quer fazer a ponte entre o consumidor que não julga a qualidade pela aparência e o produtor que não consegue escoar produção por defeitos estéticos. A intenção é inverter as tendências de “normalização de frutas e legumes, que nada têm a ver com as questões de segurança e da qualidade alimentar”. De acordo com o Projecto de Estudo e Reflexão sobre Desperdício Alimentar, em Portugal são desperdiçados um milhão de toneladas de alimentos por ano (o equivalente a 17% da produção total).

No mundo, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) estima que o desperdício alimentar nos países industrializados ascende a 1,3 mil milhões de toneladas, o suficiente para alimentar 925 milhões de pessoas que passam fome todos os dias.