O futuro das relações com Angola é uma incógnita

O pedido de desculpas de Rui Machete, que o próprio tentou justificar com a necessidade de "apaziguamento" entre Portugal e Angola, surge numa conjuntura em que as relações económicas nunca estiveram tão estreitas, nomeadamente por via da ascensão deste país africano. Quanto ao futuro, este está repleto de indefinições.

Neste momento, verifica-se um momento de viragem histórica nas relações comerciais, com a balança a pender para o lado angolano. No primeiro semestre, o saldo entre a compra e venda de bens foi negativo para Portugal em 180 milhões de euros, devido ao aumento das compras de petróleo. Isto num ambiente de forte concorrência com outros países. Se é verdade que Portugal se mantém como o principal abastecedor, as empresas nacionais já tiveram uma quota de mercado maior. Em 2012 Portugal detinha uma quota de mercado de 16,4%, quando em 2007 este indicador estava nos 19,3%.

Além disso, existe um enorme desafio a médio prazo, ligado às mudanças estruturais da economia angolana. O país quer depender menos das importações e dinamizar a produção local, o que irá reflectir-se nas vendas para Angola (esperando-se desde já um aumento das taxas alfandegárias). A questão é que se verificam vários obstáculos ao investimento, e não é por acaso que está a ser efectuado um relatório sobre os bloqueios que existem. A análise incide sobre os dois países, mas é evidente que há mais complicações por parte de Portugal.

A adaptação das empresas nacionais a esta nova realidade, nomeadamente através do relacionamento com empresários locais, será fundamental para manter as ligações com Angola. Se falhar a transição da exportação para a produção local, Portugal perderá, além de rendimentos, influência económica num dos seus principais mercados fora da Europa, independentemente da língua em comum.