Opinião

O Futuro é o Passado

O sucesso de Passos Coelho vai continuar a ser a infelicidade de uma bela parte da sociedade portuguesa e ainda está para durar.

Queremos “valorizar os dirigentes da Administração Pública” e por isso os concursos meritocráticos generalizaram-se, respondia o primeiro-ministro a uma participante no programa de quarta-feira à noite.

Queremos “valorizar os dirigentes da Administração Pública” e por isso os concursos meritocráticos generalizaram-se, respondia o primeiro-ministro a uma participante no programa de quarta-feira à noite. Nas vésperas de nos anunciar nova desvalorização salarial, que eliminará o que o Tribunal Constitucional tentou bloquear e ainda a agravará, a frase faz sorrir. Claro que se vivêssemos numa semi-democracia à lá Chavez, programas deste tipo serviriam às mil maravilhas a um chefe mais afoito, mas felizmente não é o caso e Carlos Daniel estava lá para o provar. Na maior parte das suas versões nacionais, estes programas de resposta directa à “sociedade civil”, sem o contraponto de um rival, favorecem a dimensão pedagógica e paternalista do líder, que responde diligentemente às questões concretas que lhe são colocadas. Se o desafio politico de Passos Coelho fosse apenas este, ele aplicaria o programa dele e da troika com uma felicidade redobrada.

Mas por estes dias, quando forem conhecidas as (afinal velhas) medidas do próximo orçamento, as questões interessantes que muitos dos participantes colocaram já se esvaíram. Felizmente para nós, o primeiro-ministro sempre manteve alguma coerência na defesa pública de um programa de desvalorização salarial e de pensões como resposta estruturante à crise actual. Voltou aliás a referi-lo neste programa, quando salientou que “o baixar de salários e subsídios” vai continuar. E neste caso vale a pena acreditar nele. O sucesso de Passos Coelho vai continuar a ser a infelicidade de uma bela parte da sociedade portuguesa e ainda está para durar. 

Politólogo, ICS-UL