Nobel da Física de 2013 para teoria (e prática) do bosão de Higgs

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François Englert (à esquerda) com Peter Higgs no dia do anúncio da descoberta do bosão, a 4 de Julho de 2012 no CERN DENIS BALIBOUSE/REUTERS

Prémio distinguiu o belga François Englert e o britânico Peter Higgs, dois dos físicos teóricos que, há quase 50 anos, postularam a existência de uma partícula elementar que confere massa a todas as outras

François Englert (80 anos), da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, e Peter Higgs (84 anos), da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, partilham o Prémio Nobel da Física 2013 "pela descoberta teórica de um mecanismo que contribui para a compreensão da origem da massa das partículas subatómicas e cuja existência foi recentemente confirmada, com a descoberta da partícula fundamental prevista, pelas experiências ATLAS e CMS do [acelerador de partículas] LHC do CERN", anunciou ontem em Estocolmo a Real Academia das Ciências Sueca.

Em 1964, Englert e o norte-americano Robert Brout (entretanto falecido), por um lado, e Higgs, por outro, teorizaram de forma independente a existência de uma partícula subatómica - celebrizada como bosão de Higgs -, que conferia massa às outras partículas previstas pelo chamado Modelo-Padrão da física das partículas, modelo que descreve, ao nível subatómico, o mundo que nos rodeia. Passadas quase cinco décadas, o bosão de Higgs foi finalmente avistado no LHC, o grande acelerador do Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN), perto de Genebra (Suíça) - e a sua existência anunciada em Julho de 2012. A detecção do bosão de Higgs permitiu completar o elenco das partículas estipuladas pelo Modelo-Padrão.

"Segundo o Modelo-Padrão", explicava ontem a Real Academia das Ciências Sueca em comunicado, "tudo, das flores aos planetas, é composto por apenas um punhado de tijolos de construção: as partículas de matéria. Estas partículas são governadas por partículas de força que garantem que tudo no mundo funciona como deve."

Neste modelo, o bosão de Higgs ocupa uma posição central, uma vez que, sem ele, nós próprios não existiríamos. É uma partícula omnipresente cuja interacção com as outras partículas subatómicas faz com que elas adquiram a sua massa.

Mas o bosão de Higgs é muitíssimo difícil de "apanhar": só se manifesta de forma extremamente fugidia, em experiências que põem em jogo os feixes de partículas mais potentes e os detectores de partículas mais sensíveis que existem no planeta. E de facto, se apenas foram precisos alguns cérebros para imaginar o bosão, já a sua detecção exigiu anos de esforços por parte dos cerca de seis mil cientistas (incluindo uns quantos portugueses) que participam nas duas complexas experiências do CERN, ATLAS e CMS, destinadas a detectar o bosão de Higgs na "selva" de partículas criadas nas colisões de protões de altíssima energia do LHC.

Num comunicado emitido pouco depois do anúncio, o CERN, que ficou fora do Nobel, deu os parabéns aos dois laureados. "Estou satisfeitíssimo com a atribuição do Prémio Nobel deste ano à física das partículas", declarou Rolf Heuer, director-geral do CERN, citado no documento. "A descoberta do bosão de Higgs no CERN, no ano passado, que valida o mecanismo de Brout-Englert-Higgs, marca o culminar de décadas de esforço intelectual por parte de muitas pessoas no mundo."

Englert, citado pela AFP, declarou-se "feliz" por ter recebido o galardão, mas ao mesmo tempo triste por não o poder partilhar com Brout, o seu colega e amigo de toda a vida. Também felicitou o seu co-laureado, que só o conheceu no ano passado, no CERN, no dia do anúncio da descoberta do bosão. E disse com humor que, quando soube que a decisão do Comité Nobel estava a demorar mais do que o previsto, ficou convencido de que não ia receber o prémio. Higgs, por seu lado, afirmou ter ficado "sem palavras" por receber o Nobel.

O bosão de Higgs não é de todo o fim da história. O Modelo-Padrão só descreve a matéria visível que nos rodeia, mas estima-se que 95% do Universo seja matéria escura, totalmente invisível, e energia escura.

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