Brasil, um país de muitas vozes na Feira do Livro de Frankfurt?

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O Brasil já tinha sido o país convidado na feira alemã em 1994 BORIS ROESSLER/AFP

A Feira de Frankfurt abre hoje e tem este ano o Brasil como país convidado. Ainda antes de se abrirem as portas, a polémica já estava instalada, com Paulo Coelho no centro das críticas à delegação brasileira

É a segunda vez que o Brasil é o país convidado da Feira do Livro de Frankfurt. Foi-o em 1994, e a organização não quer repetir os erros que cometeu há 19 anos. Nessa altura, houve muita caipirinha, mulatas e samba, mas pouca repercussão literária. Não houve, por exemplo, continuidade na tradução de obras brasileiras internacionalmente. E se os autores não são traduzidos, não são lidos.

Por isso, o Brasil chega hoje a Frankfurt, à mais importante feira mundial do sector editorial, com 260 obras brasileiras publicadas no mercado alemão durante o último ano. Tudo por causa de um novo programa de apoio à tradução e à reedição de obras, no valor de cinco milhões de euros, criado pelo Ministério da Cultura brasileiro e que vai durar até 2020.

Mas a feira - que vai decorrer até domingo - ainda não tinha aberto as portas e a polémica já tinha começado. Paulo Coelho, o escritor brasileiro mais traduzido e mais conhecido fora do seu país (tem 8,5 milhões de seguidores no Twitter e 12 milhões de amigos no Facebook), numa entrevista que deu no domingo ao Die Welt am Sonntag, explica as razões que o levaram a cancelar a sua ida a Frankfurt depois de ter sido escolhido para integrar a comitiva oficial de escritores do país convidado.

"O Ministério da Cultura do Brasil convidou 70 pessoas para irem a Frankfurt... Eu duvido que sejam todos escritores profissionais. Dos 70 escritores convidados, conheço apenas 20, dos outros 50 nunca ouvi falar", disse o escritor ao jornalista Martin Scholz. "Presumo que sejam amigos de amigos de amigos. Nepotismo. O que me incomoda mais é que existe uma nova e excitante cena literária brasileira. Mas a maioria desses jovens autores não está nessa lista", acrescentou Paulo Coelho na entrevista que disponibilizou em várias línguas no seu blogue.

O escritor referia-se a autores como Eduardo Spohr, Carolina Muñoz, Thalita Rebolledo, André Vianco, Felipe Neto e Raphael Draccon, da literatura infantil à literatura fantástica, que vendem muito e não foram convidados, apesar de Paulo Coelho ter tentado que isso acontecesse.

"Eu não vou para Frankfurt, mesmo com a alta estima que tenho por essa feira, porque simplesmente não aprovo o modo que está sendo representada a literatura brasileira. Não quero posar de Robin Hood brasileiro. Nem de Zorro ou Mascarilha. Mas não pareceria certo ser parte da delegação oficial brasileira, do qual não conheço a maioria dos escritores e que exclui tantos outros", acrescentou.

Em Frankfurt, Paulo Coelho é um veterano. Em 1994, não fez parte da comitiva oficial (não foi convidado), mas apareceu e acabou por ser a "estrela" do país. Em 2008, já Jürgen Boos era presidente da Feira do Livro de Frankfurt, foi um dos convidados especiais do evento, onde fez um discurso sobre a sua experiência de autor pioneiro que, na altura, além de ter um site, um blogue e estar presente em todas as redes sociais, ainda criou o sitePirate Coelho, onde permitia que os leitores acedessem a links através dos quais se podia descarregar os seus livros, pirateados, em versão digital.

Nesse ano, para comemorar os 100 milhões de livros vendidos, o autor de O Alquimista deu uma badalada festa - patrocinada pela sua editora alemã e pela Mercedes Benz - e recebeu à entrada todos os convidados, um a um. E até cantou e dançou, lembrando os tempos da sua parceria com o cantor Raul Seixas.

Então, quem é que está, por estes dias, em Frankfurt? Na lista de escritores convidados, estão jovens e consagrados. Entre eles: Adriana Lisboa, Andrea del Fuego (Prémio José Saramago), Bernardo Carvalho, Carlos Heitor Cony, Carola Saavedra, Cristovão Tezza, Daniel Galera, João Ubaldo Ribeiro (Prémio Camões), Lourenço Mutarelli, Marçal Aquino, Michel Laub, Nélida Piñón, Nuno Ramos, Patricia Melo, Paulo Lins.

Na cerimónia de abertura oficial, que decorreu ontem ao final da tarde no auditório da feira, estiveram presentes o vice-presidente do Brasil, Michel Temer, e a ministra da Cultura, Marta Suplicy, e houve discursos da presidente da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado, e do escritor Luiz Ruffato.

A selecção dos 70 autores foi feita por um júri constituído pelo crítico literário Manuel da Costa Pinto (que já foi curador da FLIP, Festa Literária Internacional de Paraty), Antonio Martinelli (SESC-SP) e Antonieta Cunha (directora de Livro, Leitura e Literatura da Fundação Biblioteca Nacional). Os critérios utilizados foram "diversidade e pluralidade", "equilíbrio entre escritores consagrados e da nova geração", "variedade de géneros" e "qualidade estética". Também privilegiaram autores publicados, ou em vias de publicação, na Alemanha e premiados. "Temos representantes da cultura indígena, afro, europeia, bem como temáticas de imigração e migração, além de representantes da literatura marginal e de diferentes estratos sociais e estéticas que marcam a obra plural desses autores", disse na conferência de imprensa de apresentação da lista em Março, Galeno Amorim, o então presidente do comité organizador e da Fundação Biblioteca Nacional.

Mas há semanas, uma reportagem do Süddeutsche Zeitung fez notar que na comitiva oficial só se encontra um escritor negro, Paulo Lins, o conhecido autor do best-seller Cidade de Deus, e só um descendente de índios, Daniel Munduruku. Concluindo a reportagem que, na Feira de Frankfurt, vai faltar uma parte da "grandiosa criatividade brasileira" e fazendo uma analogia: será como se alguém andasse a passear pela floresta amazónica ou por Salvador da Baía "com o som ambiente desligado".

O que levou a ministra da Cultura a ter de dar explicações, mais uma vez, sobre os critérios de selecção, reafirmando que não foram étnicos, mas estéticos. Paulo Lins, com o seu humor habitual, na sua página do Facebook pôs um link para a notícia e o comentário: "Aposto que se der algum problema o culpado vai ser eu."

É claro que na lista faltam alguns nomes óbvios - uns porque recusaram ir, outros porque não chegaram a ser escolhidos. É notada a ausência de Chico Buarque (a acabar o seu próximo romance), Milton Hatoum (que esteve em Frankfurt no ano passado a representar os escritores brasileiros), dos Prémios Camões Ferreira Gullar e Rubem Fonseca, de João Paulo Cuenca (que, no entanto, irá estar na feira a convite da sua editora alemã) ou de Tatiana Salem Levy.

O sloganBrazil a land full of voices foi escolhido para mostrar em Frankfurt que o Brasil é "um país cheio de vozes" e de "permanente recriação cultural". Nos próximos dias, vamos perceber se é ou não é.