José Manuel Ribeiro/Reuters
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Igreja Universal do Consumismo e do Trabalho Desenfreado

Esta nova religião tem novos locais de culto: os centros comerciais não são mais que igrejas do consumo, onde não só aos domingos os peregrinos rumam para cumprir o ritual da compra ou da adulação dos produtos sacralizados

Este é o tempo de novos deuses. Já não tanto dos deuses das estátuas nas igrejas, das pinturas ou das escrituras, mas dos deuses de certos conceitos e dos produtos materiais. É certo que ainda resistem os deuses clássicos (católico, muçulmano, judeu, hindu ou outros que tais) ao mesmo tempo que surgem reinvenções desses em formas mais modernas e chamativas (como no caso das igrejas evangélicas, muito populares nas américas, tanto do norte como do sul). Mas aqueles deuses que hoje acabam por ter mais poder pragmático no ditar da ordem do mundo são os deuses do consumismo e do trabalho desenfreado! Acrescentando a acumulação de dinheiro e a competição, temos a tetralogia religiosa da contemporaneidade: produzir, competir, acumular e consumir. Eis o caminho para o céu…

No trabalho temos que ser excelentes, dedicados e disponíveis. No consumo, temos que seguir as tendências, trocar de produtos todas as estações e deitar fora tudo o que em pouco tempo se torna obsoleto. Temos que ser os primeiros na escola, no trabalho, na riqueza. Temos que competir com os vizinhos, com os colegas e com o mundo inteiro.

Esta nova religião tem novos locais de culto: os centros comerciais não são mais que igrejas do consumo, onde não só aos domingos os peregrinos rumam para cumprir o ritual da compra ou da adulação dos produtos sacralizados (note-se a encenação, quase mística, que é dada aos objectos expostos nas vitrines). Não se pode fazer mais nada num centro comercial senão comprar, gastar dinheiro ou cobiçar o material… E os vaticanos desta igreja já não estão em Roma mas em Londres, Tóquio ou Nova Iorque, em torres, que mais do que as antigas catedrais estão, literalmente, perto do céu (tanto que até o arranham…).

Mas que não restem ilusões: nem todos beneficiam pela mesma medida com esta nova religião. Como sempre aconteceu, há uns que saem mais beneficiados. Talvez seja difícil estabelecer comparações com o passado, mas esta ordem mundial globalizada, desregulada, especulativa e instável tem produzido um mundo cada vez mais desigual, um mundo onde a pobreza absoluta continua a grassar ao mesmo tempo que o esgotamento dos recursos (tanto naturais como humanos) constitui uma ameaça.

Entendamo-nos, o mal não está nos bens materiais, no consumo ou no trabalho. O mal está no dogma, na obsessão e no desvirtuar de tudo o resto em função de algo (o consumo e o trabalho) que deve ser, sempre, apenas um meio para um fim maior e não um fim em si mesmo. Não nos equivoquemos. Todos precisamos de “deuses” no sentido daquilo que identificamos como o bem supremo, o ideal. Mas é fundamental que, então, pensemos sobre isso e escolhamos os deuses com os quais mais nos identificamos (e não aqueles que nos são impostos pela sociedade). Para mim, esse deus deve ser a felicidade. Não ditada por códigos ou por terceiros, mas por aquilo que cada um identifica como a sua verdadeira felicidade (seja ela mais material ou mais espiritual e contemplativa). Cada um terá, depois, que efectuar ajustes na sua busca em função daquilo que serão os equilíbrios sociais necessários para uma vivência colectiva saudável (isto é, a felicidade do outro também conta). Mas devemos ter o máximo de liberdade possível para escolhermos o nosso caminho. O lema é este: a verdadeira dedicação e disponibilidade que devemos ter e a verdadeira excelência que devemos procurar são aquelas que dizem respeito ao nosso compromisso com a felicidade!