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A apologia dos comentários insultuosos na internet

Em muitos dos comentários na internet, a ofensa nem se dirige aos protagonistas da notícia ou intervenientes do vídeo, mas sim a outros comentadores

A Google vai instalar um sistema no YouTube que levará a uma espécie de “censura” nos comentários. Essa medida tem gerado indignação entre alguns internautas e até já levou Stephen Colbert a lançar uma petição para a impedir.

É impossível vaguear na internet sem nos cruzarmos a cada clique com os afamados comentários online. Seja um vídeo ou uma notícia, em praticamente todas as plataformas é possível conhecer a opinião de quem viu ou leu. Em alguns casos, esses comentários podem ser informativos, construtivos, podem até incentivar o debate,mas esses eu não os leio.

Felizmente, a grande maioria dos comentários centram-se num único vector: o insulto. Quer seja um discurso político relevante ou um vídeo de “cães divertidos” há sempre alguém pronto a insultar. Em muitos destes comentários a ofensa nem se dirige aos protagonistas da notícia ou intervenientes do vídeo, mas sim a outros comentadores.

Os comentários ofensivos online têm cada vez mais uma função social de elevadíssimo valor. Primeiramente, são uma forma de confinar a agressividade a um único espaço. Podemos catarticamente descarregar as nossas raivas e frustrações em sujeitos desconhecidos na internet, sem todos os inconvenientes de descarregar em desconhecidos na rua.

Assim, no trânsito quando alguém atravessa o carro à frente do meu sem fazer "pisca", posso abdicar de lhe associar a carta de condução a uma marca de farinha, pensando: “Hoje vou ofender tanto aquela miudinha que defende o Justin Bieber no Youtube e vou ouvir a música enquanto o faço, não por gosta,r mas para tornar a coisa mais pessoal”.

Dimensão prática

Outro atractivo relevante dos insultos online é a sua dimensão prática. Nos confrontos que temos na rua, o tempo disponibilizado para a ofensa é limitado quer por questões de logística, quer por questões de aparência. Se alguém me der um encontrão, não será funcional dizer-lhe: “Vê por onde andas tigela cheia de pus, mal formada, burra incapaz de fazer um puzzle de quatro peças sem ajuda”. Na internet, contudo, insultar alguém recorrendo a uma múltipla adjectivação não só é possível como até é recomendável. Um insulto reforçado é mais difícil de rebater.

Por fim, um insulto escrito online tem outra enorme vantagem: a permanência. Se eu insultar um árbitro num estádio, ele apenas terá de viver com as minhas palavras durante alguns segundos. Se eu escrever no Facebook, esse árbitro estará para sempre condenado à possibilidade de se confrontar com as minhas constatações sobre a actividade profissional da sua mãe.

A permanência é um tónico de suma importância num insulto. Se Almada Negreiros apenas tivesse comentado com amigos, no café, a sua opinião sobre o Júlio Dantas, hoje ninguém a saberia. Como a escreveu, todos podemos afirmar com propriedade que o “Dantas cheira mal da boca” mesmo que nunca tenhamos visto a Ceia para Cardeais, nem sequer respirado o mesmo ar que o Dantas.

Se alguém ofendesse o Voltaire no ask.fm, ele iria defender (até à morte) o direito dessa pessoa a fazê-lo. Isto porque a liberdade de expressão nunca equivale à liberdade de dizer tudo, mas por vezes essa fronteira é demasiado ténue.

É por tudo isto que os insultos na internet são dotados de uma nobreza que não assiste a mais nenhum tipo de ofensa. É por tudo isto que ninguém se incomoda, realmente, com estes insultos. E é por tudo isto que não há nada tão merecedor de insultos na internet como um texto que apologiza insultos na internet.