Pelas vozes deste cante não passa o tempo

O cante alentejano está mais vivo do que se possa pensar. Esta música fortemente enraizada na terra não se cala enquanto espera saber se, em Dezembro de 2014, obterá o reconhecimento da UNESCO

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Joaquim Cardoso, presidente do Grupo Coral de Monsaraz, que ensaia na Casa do Cante. Nuno Ferreira Santos

Canto de trabalho, associado às práticas agrícolas e às desaparecidas tabernas, o cante alentejano está mais vivo do que se possa pensar, soando nas vozes de centena e meia de grupos corais e estando a ser ensinado nas escolas. Sendo certo que não há expressão mais genuína e impressionante da cultura do Alentejo, esta música fortemente enraizada na terra não se cala enquanto espera saber se, em Dezembro de 2014, obterá o reconhecimento da UNESCO

Quando o ponto acaba de dar o mote, com os versos iniciais da moda, há um instante em que é impossível não se ser sacudido por um frio na espinha. Um instante difícil de precisar: é tanto o momento de tomada de fôlego colectiva, em que de olhar perdido nas paredes ou em horizontes vagos os peitos se enchem de ar, como aquele imediatamente a seguir em que 20, 25 vozes se juntam num jorro grave de tremendo impacto físico. No cante alentejano, quando as vozes se sobrepõem e adensam nesse sopro quente que parece deixar um sabor a terra na boca, é como se aquela gente procurasse encenar os tempos de um canto de trabalho, em que a música ondulava nos campos enquanto homens e mulheres embalavam os movimentos da ceifa ou da monda, ceifavam, mondavam, se empoleiravam nas árvores na apanha da azeitona ou da bolota, desenhavam os passos atrás dos animais com um arado. E, nas pausas dessa fisicalidade intensa, era também o cante que distraía o corpo das dores da labuta e acompanhava a bucha. O cante, evocação da natureza, dos amores, da morte, da natureza e sobretudo do amor por uma terra a que a vista não alcança fim, consolava, ajudava a jornada a morrer mais depressa.

Depois, nos regressos a casa do trabalho no campo, as mulheres ficavam muitas vezes arredadas das cantorias. Enquanto elas se encarregavam de coser e remendar as roupas surradas pela dureza de sol a sol, os homens tratavam das plantações de tomates, pepinos ou feijões na horta e, à tarde, iam beber o copinho à taberna. E à mesma velocidade desapressada que um copo puxava o outro, também uma voz levava as outras atrás, desfiando as modas em sessões espontâneas que facilmente se arrastavam durante horas. Esta prática de há 50/60 anos foi a escola natural para a maioria dos cantadores que hoje se agrupam na centena e meia de grupos em actividade, órfãos quase absolutos do seu espaço privilegiado: as tabernas estão em extinção, substituídas por anódinos cafés e snack-bares - em busca de "modernidade", mas também fazendo por esquecer uma pobreza austera -, as mondas fazem-se por meios aéreos. E o Alentejo tem-se esvaziado.

"A desertificação também contou muito para que o cante deixasse de ser aquilo que era", lamenta Serafim Silva, mestre (ensaiador) do Grupo Coral da Freguesia de Monsaraz. "Já não se juntam 50 ou 60 homens e mulheres a ceifar ou mondar durante mais de um mês. Agora vai uma máquina e numa semana faz o trabalho todo, vai uma avioneta e passa por cima com a monda química. Tudo mudou." Mas o cante propriamente dito não atravessou transformações profundas. Apenas passou a organizar-se não em torno de uma ideia de socialização, mas de um conceito de espectáculo e de orgulhosa montra das raízes alentejanas. Canta-se de dentro para fora.

Ainda assim, é esse ambiente de taberna que se recria automaticamente logo que a maior formalidade dos ensaios termina. No Telheiro, antes da acentuada subida para a aldeia de Monsaraz, a recém-criada Casa do Cante local abriga os ensaios do grupo numa antiga escola primária do Estado Novo, debaixo não da impiedosa torreira do sol, mas sob o silvo de um ar condicionado. A escola guarda lugar ainda para uma sala onde se espreita a história do colectivo e uma outra destinada ao convívio, para onde todo o grupo converge no final do ensaio. Em três tempos, saltam de trás do balcão um pão fatiado à força de um canivete desembainhado, pratos com chouriço e queijo, vinho tinto quase ininterruptamente cuspido da torneira de uma embalagem de cartão. E as modas continuam a ser lançadas, até que todos recolhem várias horas após o fim do ensaio. "É uma entretenga que nós temos", confessa o septuagenário Ti Zé (José Duarte Cardoso). "Com esta idade, se vamos à taberna, bebemos um copinho, mas agora só já se canta nas festas - nos dias de carnavais, há mais aquela desculpa de se cantar. Aqui nas aldeias não temos praticamente mais nada, não temos divertimentos, só a televisão."

Também no Espaço Celeiros, em Évora, o Grupo de Cantares de Évora passa por uma hora semanal de modas cantadas à volta de uma mesa da sala de restauração - que lhes permite arrecadar dinheiro suficiente para organizar uma viagem anual. Aqui, por entre a muralha de vozes masculinas, infiltram-se os mais agudos registos femininos, em menor número, numa harmonia gerida com cuidado. A formação de um grupo misto há 34 anos na capital do Alto Alentejo partiria, na verdade, da memória da infância em Beja de Joaquim Soares, um dos fundadores e mestre do colectivo. "Aquele som de homens e mulheres a atravessar a cidade a caminho do trabalho no campo" perseguiu-o desde essa altura e seria atrás dessa memória que procuraria moldar o Grupo de Cantares.

Aquilo que, de início, se poderia confundir com uma brincadeira, rapidamente se fez sério, e a partir de certo ponto "o trabalho feito já é bastante valioso e não se pode jogar a albarda ao chão, tem de se aguentar enquanto houver força e garganta". Crente nas virtudes do trabalho rigoroso e persistente, Soares defende a prática religiosa do cante às terças-feiras, faça chuva ou faça sol. "Podemos ter uma discussão pelo meio", concede, "mas o cante está ali todas as semanas. E é no duro. Para os grupos ganharem dimensão, só têm de trabalhar".

Desde 2006, Joaquim Soares começou a acumular dois ensaios: o nocturno, de uma entrega quase profissional com o Grupo de Cantares, com as modas a soarem com o peso belo de décadas; imediatamente antes disso, numa Oficina de Cante de porta aberta, as 88 modas do reportório dos Cantares estão ao dispor de duas a três dezenas de fiéis curiosos (dispostos num círculo de cadeiras), que vão de senhoras reformadas a professores universitários e estudantes chegados a Évora ao abrigo do programa Erasmus - para os quais o cante, diz-nos Soares, serve também para aprender a língua e domar a dicção. Na oficina, durante uma hora, pedem-se as modas pelo número e a abordagem é sempre reconfortantemente igual: o mestre dá o primeiro verso, o grupo junta-se-lhe de papéis com as letras na mão e ele trá-los de volta ao rigor da frase melódica no final de cada estrofe. Simples, bonito, generoso.

A escola natural

Curiosamente, apesar de o cante alentejano ser uma expressão de mais arreigada implantação no Baixo Alentejo, o antropólogo Paulo Lima, director da Casa do Cante de Serpa e primeiro responsável pela candidatura desta forma musical a Património Cultural Imaterial da Humanidade atribuído pela UNESCO, conta-nos que "a referência mais antiga data de cerca de 1880 e encontra-se nas posturas da Câmara Municipal de Portel" (no Alto Alentejo). Curiosidade número dois: trata-se de "uma proibição de cantar nas tabernas em coro". Lima refere ainda outros registos pioneiros, como a fundação, em 1907, de um orfeão em Serpa e, igualmente na mesma cidade, a existência dos mais antigos registos sonoros, "em disco e em bobine", datados da década de 1930.

Aquilo que os registos não permitem ainda concluir é a origem remota do cante. As teorias dividem-se entre a sua génese na música gregoriana e nos cantos polifónicos sacros medievais, e aquelas que defendem como ponto de partida a música árabe. Ou, possivelmente, um encontro destes mundos, moldado pelo povo. Este é um dos pontos em que a catalogação e disponibilização do muito material publicado disperso que a Casa do Cante de Serpa está a coligir poderá ajudar a apontar caminhos.

Também Lima não chega aqui por acaso. Criado em Portel, cresceu a assistir ao cante brotar nas tabernas, nas ruas e nas festas. "Tenho uma ligação com o cante alentejano que mistura a biografia e a reflexão", conta o homem que partilha com a professora Salwa Castelo-Branco o grande impulso da candidatura junto da UNESCO. "Ambos se cruzam no fascínio e no respeito pelos homens e pelas mulheres que fazem do cante uma forma de viver."

A 24 quilómetros da sede concelhia em Serpa, a sala de troféus e documentação do Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento (hoje Vila Nova) pendura discretamente na parede, ao lado de taças e cartazes de actuações em salas de todo o mundo, a fotografia de um grupo da terra com a inscrição "1937". É em registos como este, de um grupo de homens de olhar severo, rostos sulcados pelo trabalho árduo debaixo no campo, que o rancho se baseia para reclamar a sua exclusividade masculina e em que se inspira para o traje levado para cima de palco - fato e chapéu pretos, camisa branca, corrente do relógio de bolso visível.

Esta formação, conta-nos António Silva, iniciou-se em 1986, com uma história tirada a papel químico de qualquer outra deste Alentejo: numa taberna local, um conjunto de homens, depois de aquecer a garganta com um par de tragos de álcool, resolveu tornar sério o entretém das cantorias.

Contrariamente à ideia que grassa de um rápido envelhecimento dos grupos, perigando a existência do cante tal como o conhecemos, no Rancho de Cantadores distinguem-se várias caras sub-30. António Silva aponta o dedo para um rapaz que se destaca no meio do grupo pelo seu porte físico, mas também pela sua calibrada voz de alto (solista). Nascido em 1983, Pedro Mestre está quase a tornar-se uma lenda por estas paragens e dir-se-ia quase ubíquo entre os cantadores do Baixo Alentejo. "Ele está a fazer o que as famílias faziam antigamente, que era fomentar o cante em casa", defende Silva. "O trabalho do Pedro nas escolas substitui essa escola natural, porque nós em miúdos crescíamos a cantar. Lembro-me de andar em miúdo a cantar na rua, na taberna, de porta em porta - por exemplo, no Natal."

As caras novas

Pedro Mestre começara, precisamente, a cantar na companhia dos mais velhos e, aos dez anos, forçado a sair da Aldeia da Sete para estudar em Castro Verde, juntou-se ao seu primeiro de muitos grupos corais, atraído desmesuradamente por uma música que jamais conseguiria excluir da sua vida. Os raros casos na altura de jovens a juntar-se aos grupos fariam com que, ainda adolescente, fosse convidado "como forma de incentivo" a assumir o lugar de mestre dos Ganhões de Castro Verde. Também por isso, cedo se convenceu de que tinha por missão puxar outros como ele para o cante. E a melhor forma de fazê-lo era olhar para baixo, para os mais pequenos, e perceber que era entre as crianças que deveria concentrar uma parte essencial dos seus esforços. "Não podemos estar à espera de que sejam os jovens a vir ter connosco, temos de ser nós a ir ter com eles", concluíra já quando, em 2006, apresentou a várias escolas do concelho de Almodôvar - depois alastrando a Castro Verde e Vidigueira - o projecto lectivo Cante nas Escolas para as actividades extracurriculares do 1.º ciclo. "Entretanto, tive milhares de alunos nestes anos e tenho a certeza de que para 80% deles o cante não lhes é indiferente. No entanto, o objectivo não é formar cantadores, mas sim público para o cante e sensibilizar estas crianças para a nossa música."

Com a missão de cativar a miudagem e oferecer-lhes um sentido de pertença que confira alguma pequena escala a um mundo cada vez mais apreendido de forma global, Pedro Mestre costuma levar para as escolas as modas mais simples, que os avós passavam aos netos, que a sua própria avó cantava aos filhos para que não se afastassem do tear em que trabalhava, assim os mantendo debaixo de olho. E fá-lo sempre na companhia da viola campaniça, instrumento umbilicalmente ligado ao cante e quase perdido para as enciclopédias quando, aos 12 anos, Mestre se decidiu a ir aprender com os veteranos Manuel Bento e Francisco António, que já haviam arrumado as suas violas e desistido de encontrar quem lhes herdasse a arte.

Mesmo não sendo esse o objectivo primeiro das aulas, Pedro Mestre diz que se foi tornando mais comum cruzar-se com antigos alunos a integrar os grupos corais, "sinal de que algumas sementes germinaram" e facto ajudado pela sua iniciativa de fundar e dinamizar várias formações no concelho de Castro Verde desde 2001. O músico usa igualmente uma outra estratégia para que as crianças percebam o seu lugar e do cante na cadeia de transmissão de conhecimento e de costumes na esfera familiar: pede-lhes, como trabalho de casa, que recolham letras de modas junto de pais e avós, elaborando cada um dos alunos o seu próprio cancioneiro. "Hoje", diz com evidente orgulho, "vamos a um café e já se vê, por vezes, quatro ou cinco rapazes de 20 anos a cantar uma moda ou duas ao lado dos mais velhos. Isto é bonito e resulta de um trabalho feito ao longo de muitos anos". Mas o seu entusiasmo redobra quando fala de um grupo misto com 22 jovens cantadores que formou em Castro Verde. Aí detecta-se uma ponte para o futuro.

Apesar de sinais animadores de adesão de alguma juventude ao cante alentejano, mantém-se uma natural preocupação com a descendência. "A malta nova", dizem frequentemente, "não quer saber da responsabilidade. Cantam se estiverem a beber uns copos, mas não aparecem aos ensaios todas as semanas". Por outro lado, muitos afastam-se na idade em que casam e têm filhos, voltando, por vezes, quando a dinâmica familiar volta a estabilizar.

Para os mais novos ainda, com a idade com que Pedro Mestre começou a cantar em vários grupos, a estranheza das temáticas não é muito diferente da estranheza sentida por um adolescente lisboeta ou portuense: "Eu sou devedor à Terra / A Terra me "stá devendo / A Terra paga-m"em vida / Eu pago à Terra em morrendo" (Alentejo Alentejo).

"Esta gente nova, que não viveu um tempo árduo, em que os homens usavam as charruas para lavrar com uma parelha de bois, não se identifica com as letras", diz-lhe a experiência. "Mas uma moda de baile, uma moda de namoro, com uma melodia e uma letra mais facilmente entendíveis, já lhes prende a atenção. No passado, fazia-se namoros nos bailes, nos trabalhos, quando os moços cantavam com as moças." Antes, quando o cante se dava no campo, havia modas cujas letras eram trocadas em cortejos e namoros, numa curiosa sobreposição entre público e privado. A separação entre homens e mulheres, parcialmente imposta pela encenação etnográfica ditada pela folclorização do Estado Novo, acabaria com estas situações. A chegada dos bailaricos ao som de acordeão e das discotecas fez o resto - o namoro mudou de vida.

Cantar até à morte

"Escolhemos as modas, traulitamo-las, ensaiamo-las e depois vê-se quais estão boas para o palco", descreve Oliveiros Pires Aleixo, um dos três ensaiadores do Grupo Coral e Etnográfico Os Camponeses de Pias. Poucas histórias de transmissão familiar serão tão pungentes quanto a sua. Oliveiros, apesar dos seus 45 anos, é um dos mais antigos no grupo, fruto de se ter juntado com apenas nove anos, seguindo de perto os passos do pai. "O meu pai já foi cantador aqui no grupo e morreu praticamente a cantar comigo. Tinha 55 anos. Estivemos a ensaiar até às 23h30 e pouco depois da meia-noite tinha-se ido embora." Como que adivinhando, passara já os ensinamentos suficientes para que o filho o substituísse no papel de alto.

Os Camponeses de Pias são uma das maiores referências do cante alentejano e uma das mais impressionantes formações a produzir uma massa sonora que parece capaz de estremecer o chão. Formados em 1968, sucedendo ao anterior Grupo da Casa do Povo, Os Camponeses seriam impulsionados pelas figuras locais do Barão Cachola e do padre Gaudêncio, e o grupo sobreviveria às divergências políticas que o assaltariam como um turbilhão no pós-25 de Abril. Precisaria, nessa altura crítica, de apoiar-se por momentos em "amigos, conhecidos, colegas" de Cachola na aldeia vizinha de Brinches para superar "o safanão" da cisão. "O grupo do Barão Cachola" deixaria de ser conhecido por esta designação informal quando o próprio decidiu emigrar, delegando no recém-falecido Manuel Coelho a tarefa de o impulsionar durante três décadas - "dedicou a vida dele ao grupo", lembra o actual presidente António Lebre. "Pôs o grupo do rés-do-chão para o primeiro andar, como costumo dizer."

"Continuamos a cantar as modas que temos no LP de há quase 50 anos", diz Lebre. "Mas a partir de [19]80, quando o Manel pega no grupo, começa a haver uma dinâmica completamente diferente e a cantar-se de uma forma mais aberta, mais arejada, embora mantendo sempre o nosso cante." Tal abertura conduziria a um enorme enriquecimento do percurso d"Os Camponeses, não só através de um crescente número de actuações em Portugal e no estrangeiro, mas também da disponibilidade para colaborações com projectos como Vozes do Sul (de Janita Salomé), Rio Grande, Ala dos Namorados ou Lua Extravagante, tendo ainda participado num concerto de Caetano Veloso e Maria Bethânia no Pavilhão Atlântico, em 2000. É esse percurso que Os Camponeses se aprestam a celebrar de uma forma que intitulam de "inovadora", através de um conjunto de trabalhos sob o título O Cante à Moda das Pias, dirigido pelo investigador Feliciano de Mira, antigo cantador do grupo: um livro que aborda a evolução do cante na freguesia de Pias desde 1968 (com abordagens musicológica, literária, fotográfica, enquadramento histórico-social, etc.), um site exaustivo e um documentário.

Sons novos, letras novas

Um dos colaboradores arregimentados por Mira é o compositor e pianista Amílcar Vasques Dias, cujo currículo na música erudita se tem tornado progressivamente mais tangente ao cante alentejano, desde que, a partir de uma ideia do antropólogo José Rodrigues dos Santos (não confundir com o jornalista/escritor), se juntou aos cantadores Joaquim Soares e Pedro Calado, dos Cantares de Évora, no projecto Entre Cante e Piano. "De que é que estes sujeitos precisam?", perguntou-se Vasques Dias após o primeiro encontro a três. "Precisam deste berço de sons, da minha tranquilidade. Eu vou atrás deles e eles atrás de mim."

Esta estirada perseguição mútua torna-se evidente no ensaio a que a Revista 2 assiste. O pianista lança aos dois cantadores introduções de tensão dramática, dançando depois em volta das vozes quando elas se levantam numa versão bela, minimal e livre do cante alentejano. A erudição de Vasques Dias espanta-se com a solidez com que o canto não perde o rumo diante dos seus acordes dissonantes, como se os alicerces da tradição estivessem tão fundos que a sua essência se revela inabalável perante qualquer provocação mais jazzística. Emociona-se com a intimidade dos versos de Ó Águia Que Vais Tão Alta: "Leva-me ao céu / onde tenho a mãe que me faz falta." Entusiasma-se quando põe Ao Romper da Bela Aurora debaixo da lupa e descobre uma progressão melódica que reconhece em Stravinsky, ao mesmo tempo que identifica características comuns com a música do Norte de África. E admira-se com aquilo que é possível fazer sem o contacto visual com uma pauta, tudo assente numa inteligência musical espontânea. Semanas antes, aliás, Serafim Silva brincava em Monsaraz perante a ideia de uma pauta: "Se mostrasse a estes homens um papel com uns pauzinhos, uns risquinhos e uma bola na ponta, iam pensar que era uma cabra a comer-lhes um bocado do faval."

Inspirado por arranjos para piano de canções populares tradicionais da autoria do escritor espanhol García Lorca, Amílcar Vasques Dias aproxima-se de "um dramatismo discreto deste Alentejo" tanto no reportório tradicional interpretado com um acrescento de liberdade, como em originais que podem acentuar pontes (no piano) com o flamenco ou evocar (nas vozes) um classicismo rasante ao compositor americano de bandas sonoras Henry Mancini. Sempre dentro da temática alargada do cante. E, nesta configuração, a música alentejana sobe a palcos onde os grupos corais habitualmente não têm lugar.

A integração de novidade, de resto, é uma tendência generalizada. Um pouco por cada grupo, vão brotando novas composições que, de forma controlada e sóbria, se juntam ao cancioneiro tradicional. O Rancho de Aldeia Nova de São Bento, que colabora frequentemente com o fadista bejense António Zambujo, entusiasma-se no ensaio com a interpretação de uma moda nova, oferecida pelo letrista João Monge, que contactou o grupo perguntando se podia cometer o "pecado" de compor letra e música original para ele. Mas se O Meu Chapéu soa já acabada, limada até se inserir na perfeição entre as mais antigas, logo Pedro Mestre aproveita o final do ensaio para pôr o grupo a ouvir uma nova criação sua - "uma moda de autor" - que propõe aos cantadores.

As novas modas não deixam igualmente de traduzir transformações na paisagem social ou efectiva. Em Monsaraz, por exemplo, canta-se o desemprego, mas também a imensidão do campo cujo horizonte foi parcialmente roubado pelas águas do Alqueva: "Tanta terra / pouca terra / tanta água / tanto mar." Neste processo de integração de novas modas, que o grupo desenvolve em colaboração com dois poetas do concelho, frisa o mestre Serafim Silva, o perigo é de se fazerem colagens de letras. "Qualquer indivíduo pode ter duas ou três quadras e dizer que é uma moda. Depois cola a moda a uma melodia já existente, mas isso é uma distorção do cancioneiro alentejano. Não é um bem com que se aumenta o cante, é uma coisa que diminui. Se há uma letra nova, deve haver uma melodia nova."

Ao contrário do fado - já reconhecido como Património da Humanidade pela UNESCO em Novembro de 2011 -, no cante, as canções tradicionais não fornecem uma base na qual se podem encaixar novos poemas. A riqueza, na verdade, encontra-se mais nas pequenas variações em torno do mesmo tema. Qualquer intérprete saberá explicar que uma moda não é cantada da mesma maneira por diferentes grupos - até por formações pertencentes à mesma localidade. Por ser um canto de trabalho, as melodias e as letras viajavam com homens e mulheres nas suas deslocações em busca de afazeres. A transmissão oral levaria então a que os versos se alterassem pelo caminho, mantendo o sentido mas trocando o encadeamento das palavras - "não quero que vás à monda" poderia transformar-se em "tu não vais à monda".

Por amor à terra

No sentido estrito, o cante alentejano designa o canto polifónico, a vozes. Daí que para os puristas a viola campaniça não caiba pacificamente neste mundo. Mas as histórias estão interligadas e o percurso pessoal de enamoramento e resgate do instrumento por Pedro Mestre faz disso prova. Tendo descoberto a viola nas emissões da Rádio Castrense que eram ouvidas religiosamente em família e colhido ensinamentos dos mestres sobreviventes - "eles próprios já tinham vergonha de tocar, tinham as violas nas arcas, arrecadadas", lembra -, pesquisou todos os seus domínios, levantando os relatos da viola sempre presente nos encontros de cantadores ao despique que por sempre paravam na Aldeia da Sete a caminho da Feira de Castro, mas igualmente tirando um curso de marcenaria aos 15 anos para poder começar a construir as suas violas.

Por sua conta, estudou técnicas de construção e pouco depois estava a formar novos construtores de um instrumento que hoje tem várias dezenas de tocadores, tendo estabelecido colaborações com músicos de outros quadrantes - o quarteto Quatro ao Sul, por exemplo, acaba de vencer o Prémio José Afonso. "A campaniça é um instrumento que canta a melodia tal e qual nós cantamos no Baixo Alentejo, é muito do cante. É uma voz que se junta às outras", descreve. Hoje, diz terem-lhe passado pela mão todas as campaniças antigas e mantém um arquivo com o cadastro de cada uma.

Esta mesma tenacidade e obstinação leva-a e partilha-a com as centenas de cantadores do cante alentejano. Estes cantadores sem direitos alguns, sem benefícios directos da sua arte, apenas os deveres para com a terra, com os antepassados e a cultura com que nasceram e morrerão. Entre os deveres e condições essenciais para garantir profissionalismo nestas estruturas amadoras, diz António Lebre, encontra-se a competência para "saber estar em grupo". "Quando se está nas festas, toda a gente sabe cantar à alentejana. Mas depois é preciso saber respeitar os outros. Não é fácil trabalhar em grupo e acarreta responsabilidade - estar nos ensaios e nas saídas que assumimos. Às vezes fica muita coisa para trás - casamentos, baptizados, funerais, mulheres, filhos... Mas ninguém vai contente para uma saída de cante com 14 ou 15 elementos." Não é pormenor: o troar das vozes exige um conjunto alargado, para que muitas soem não a muitas, mas a uma só.

A par da preocupação actual de alargar o ensino do cante a mais escolas alentejanas, Joaquim Soares, por exemplo, defende a reciclagem de mestres do cante, sugerindo que o sangue novo que faz falta não se limita às formações, mas também às suas lideranças. Por outro lado, um dos principais empenhos, nomeadamente da Casa do Cante de Serpa e da candidatura à UNESCO - que já foi aceite, mas que até Dezembro de 2014 terá ainda de ultrapassar várias etapas -, é um plano de salvaguarda que estimule a renovação dos grupos mas também o seu aturado registo fonográfico. A Casa encontra-se ainda a organizar "uma plataforma para o tratamento e disponibilização de toda a documentação, bibliografia e discografia" existente, diz-nos Paulo Lima, e a candidatura encomendou ao cineasta Sérgio Tréfaut um documentário sobre o cante.

Da validação da UNESCO propriamente dita não se esperam revoluções nem salvamentos milagrosos. "Acima de tudo", acredita Joaquim Cardoso, presidente do Grupo Coral de Monsaraz, "o que isto fará é adoçar o ego aos cantadores. Para sentirem e poderem afirmar publicamente que a arte que têm é reconhecida". Mas também "mostrar que o património cultural imaterial pode contribuir para a sustentabilidade e coesão de um território", acrescenta Paulo Lima.

Este amor, pela terra e pela sua representação, é especialmente rigoroso com a forma como se apresenta em palco. Em Pias e em Vila Nova de São Bento, vem à baila o rigor em ter os telemóveis desligados, os relógios guardados e os óculos discretamente escondidos longe da atenção do público. Porque aquilo que de mais tocante existe nesta forma musical é a falta de artifício e a humildade, despojada, perante a terra castanha, vermelha, gretada, seca e os campos amarelados a toda a volta. O tempo, preso nas vozes, não passa.