A sublime arte de Mário de Carvalho no Escritaria

É o escritor homenageado do festival literário Escritaria que até domingo acontece em Penafiel com conferências, teatro de rua e arte pública.

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A escrita de Mário de Carvalho como festa de palavras novas - assim descreveu Lídia Jorge Enric Vives-Rubio

“A realidade é muito abusadora”: é a frase do escritor Mário de Carvalho que passa a fazer parte da cidade de Penafiel, onde até domingo decorre o festival literário Escritaria que homenageia o autor de Era Bom que Trocássemos Umas Ideias Sobre o Assunto (de. Caminho).

Tal como acontece todos os anos desde 2008, altura em que foi lançado este festival - que já teve edições dedicadas a António Lobo Antunes, José Saramago, Urbano Tavares Rodrigues, Agustina Bessa-Luís e Mia Couto - , é escolhida uma frase do autor homenageado para ficar para sempre inscrita nas ruas de Penafiel em forma de arte pública.

“A realidade é muito abusadora” está desde sexta-feira na Praça que nesta sexta edição do festival dedicado a escritores lusófonos se passa a chamar Escritaria. E a realidade é muito abusadora porquê? “Porque teima em não nos fazer as vontades. E porque foge muitas vezes às nossas expectativas e à nossa vontade de domínio sobre ela”, explicou o escritor em Penafiel onde lembrou, mais uma vez, a importância do “sentido lúdico da literatura” .

E se há festival literário onde esse sentido lúdico está presente é no Escritaria de Penafiel pois toda a cidade se envolve na homenagem. Há alusões à obra de Mário de Carvalho nas montras das lojas, painéis com fotografias e excertos das suas obras espalhados pela cidade e até domingo teatro de rua, animação e conferências como aquela que acontece este sábado, às 15h30, intitulada Mário de Carvalho, vida e obra e em que vários convidados falarão sobre o escritor e os seus livros. Entre eles a tradutora francesa e especialista queirosiana Marie-Hélène Piwnik, o humorista Ricardo Araújo Pereira, o encenador Carlos Avillez, os escritores Rui Cardoso Martins, Gonçalo M. Tavares e Pedro Vieira (também humorista das Produções Fictícias), o arquitecto José Fanha e a académica Teresa Almeida.

Mas o Escritaria começou na sexta-feira à noite com a apresentação do novo livro de contos de Mário de Carvalho,  A Liberdade de Pátio (Porto Editora) que, como explicou na sessão de apresentação desta obra o editor Manuel Alberto Valente, foi feito para ser lançado durante o festival. Se não tivesse havido o convite para o Escritaria, talvez não houvesse o livro que reúne sete contos  que na opinião da académica Paula Morão, que em Penafiel apresentou a obra, são magníficos.

O progresso da mente

“O Mário tem uma sabedoria que nos leva ao lermos as suas obras a termos nós também um progresso mental”, explicou Paula Morão no auditório do Museu Municipal que quase encheu. “Nós aprendemos coisas muito profundas, e se nos rimos imenso com estes textos no fundo esse riso tem uma capa de melancolia, de reflexão que fica a trabalhar na cabeça do leitor.” Por isso, para Morão, ao lermos Mário de Carvalho acontece aquilo a que a académica chamou de “progresso da mente”.

As obras deste escritor português, de 69 anos e que começou a publicar em 1981 quando lançou “Contos da Sétima Esfera”, acrescentou a professora catedrática, situam-se entre os escritores portugueses e mundiais que “praticam de forma sublime a arte da narração”, “que nos comovem”, que “têm uma sabedoria que nos ensina imensa coisa”. Por isso o associou a um outro autor, Shakespeare, cuja frase “Todo o mundo é um palco e os homens e as mulheres são apenas actores” (em “As You Like It”), poderia servir de epígrafe a toda a obra de Mário de Carvalho.

A escritora Lídia Jorge, que se iniciou como romancista um ano antes de Mário de Carvalho e por isso tem sempre “um sentimento muito forte, uma espécie de fraternidade de geração” quando pensa no colega que  na sua obra tem um ângulo de realismo fantástico, na linha de Calvino ou de Bolaño que nos fala da realidade contemporânea através de elementos que são irreais, do domínio do fantástico. “Ele é um escritor talentoso e inteligente”, acrescentou a autora de O Dia dos Prodígios.  “Há um grotesco sublime na escrita do Mário de Carvalho que toca as pessoas”.

“É o escritor [da nossa geração ] que do ponto de vista semântico maior riqueza apresenta. É o escritor que fará os jovens de 14, 15 anos irem mais vezes ao dicionário”, acrescentou a escritora que lembrou ainda que Mário de Carvalho é muitas vezes comparado a Camilo Castelo Branco não porque seja um camiliano mas por causa da estrutura, da riqueza e da precisão verbal. “Como ele mistura os tempos todos, como as personagens saem de uma espécie de cocktail de eras, como ele vai buscar a linguagem própria dos almocreves à dos espadachins, etc, mistura toda essa linguagem e faz uma espécie de festa de palavras novas, que nunca são supérfluas, para criar histórias que como disse a doutora Paula Morão são de facto magníficas”, concluiu Lídia Jorge.

Ainda este sábado, às 21h30, na sessão intitulada Perspectiva cinéfila de Mário de Carvalho o escritor falará sobre o filme Gangsters Falhados (I Soliti Ignoti), de Mário Monicelli, que será exibido a seguir.  E no domingo, às 15h30 será lançado António Lobo Antunes, vida e obra, a propósito do escritor convidado do Escritaria 2012 - sessão onde participará Mónica Baldaque. E ainda um DVD que documenta todas as edições do Escritaria 2008/2013.

O PÚBLICO está em Penafiel a convite do Escritaria