Programação com três cabeças, cada uma a pensar por si

Foto
Miguel Wandschneider, Gil Mendo e Francisco Frazão asseguram, respectivamente, as artes visuais, a dança e o teatro NELSON GARRIDO

Gil Mendo, Francisco Frazão e Miguel Wandschneider chegaram em 2004: o copo, dizem, está "meio cheio e é pena"

Quando Miguel Lobo Antunes anunciou os seus três assessores para a programação - Gil Mendo (dança), Francisco Frazão (teatro) e Miguel Wandschneider (artes visuais) -, os jornais usaram a palavra "consensual" para descrever apenas um deles. Nove anos depois, continua a ser a palavra certa para Gil Mendo (Oeiras, 1946), figura tutelar que tinha estado em momentos fundadores da dança contemporânea portuguesa (a Escola Superior de Dança em 1983, o Fórum Dança em 1990, a Europalia em 1991, o Instituto Português das Artes do Espectáculo em 1996) e que na Culturgest fez um caminho ecuménico, tão disponível para as produções cada vez mais Broadway de uns Montalvo-Hervieu como para as experiências de risco de uma jovem coreógrafa como Tânia Carvalho - ao contrário de Frazão e Wandschneider, que definiram agendas mais ideológicas, logo mais inconfundíveis, para as suas áreas.

"Não trabalho com temas nem com outras lógicas além do interesse pelo trabalho dos artistas - sejam artistas com uma carreira longa, e a mim interessam-me os artistas com carreiras longas, ou artistas emergentes. Mas não se trata de estar à procura de ser muito plural, porque nem sequer penso nisso - embora já me tenham criticado por ser manso. Talvez haja alguma mansidão na minha programação", diz. Mais do que atirar a sua assinatura para cima de tudo o que escolhe, acredita que a sua missão como programador é desaparecer: "Gosto de estar na sombra. Só acompanho uma coprodução se o artista mo solicitar. Evito fazê-lo porque tenho medo de ter qualquer tipo de influência. De resto, vejo tudo quanto me é possível: primeiros trabalhos, apresentações em espaços alternativos. Um programador tem de ver, embora seja cada vez mais impossível ver tudo."

Exactamente por nem sequer valer a pena tentar, Francisco Frazão (Lisboa, 1978), que chegou à Culturgest sem experiência de programação (e vindo de uma aproximação ao teatro pela tradução e selecção de textos para os Artistas Unidos), escolheu o seu circuito, bastante anglo-saxónico. Foi assim que construiu "uma história de acompanhamento de alguns artistas" - alguns deles: Elevator Repair Service, theTEAM, Tim Crouch - que se tornou parte do ADN do teatro que só se pode ver na Culturgest (há outra parte, apoiada numa série de protagonistas nacionais: Mónica Calle, Tiago Rodrigues, Primeiros Sintomas, Teatro Praga, Cão Solteiro). "Frequento mais o Festival de Edimburgo do que os outros programadores portugueses, que fazem o circuito continental: Avignon, Bruxelas, Paris. Por proximidade com a língua, mas também porque o ecossistema do teatro britânico é exemplar na qualidade do discurso que consegue produzir e que ajuda a criar um contexto para os espectáculos. O nosso meio, pelo contrário, tem sofrido com o desaparecimento da crítica; nisso é pouco saudável. A memória é muito curta, é como se vivêssemos num eterno presente", lamenta.

Não totalmente indiferente a isso, continua a escolher espectáculos por instinto: "Escolho aquilo que me gera mais convicção de querer mostrar aos outros - ou, simplificando, mais vontade de rever. Mas procuro sobretudo objectos que testem os limites do teatro - a começar pelo texto, vendo-o não como um dado adquirido mas como um problema." À falta de melhor termo ("este é antiquado"), define o teatro que tem andado a mostrar (e nalguns casos a gerar, tanto no âmbito das coproduções como do programa PANOS, de incentivo à criação de um reportório juvenil) como "experimental". Tão experimental que pode fracassar: "Damos condições aos artistas para que façam o seu melhor. Mas ainda lhes permitimos que falhem, até por não termos de cumprir níveis de público." O que não quer dizer que eles não estejam na cabeça de um programador: "Um espectáculo que corre bem são 500 pessoas. Nunca passamos de um certo limiar e isso é preocupante: estou sempre a achar que não chegámos a todas as pessoas que deviam saber que estes espectáculos existem. O Gatz, que em 2007 foi o espectáculo do ano, foi visto por 80 pessoas. Mas se os artistas podem falhar talvez o público também tenha esse direito..."

Aquilo a que Frazão chama "o ecossistema" é, com todos os seus problemas, o ponto de partida da programação que Miguel Wandschneider (Lisboa, 1969) concebeu para as artes visuais, feita a partir de um trabalho de observação, com os pés no terreno. "Propus-me dar um contributo para a emancipação do contexto local de divulgação, apresentação e recepção de arte contemporânea, claramente semi-periférico e ancorado em nomes já consagrados, tendendo por isso a funcionar como caixa de ressonância do que já foi validado no centro ou do trendy. Tenho-o feito através da aposta em artistas cujo trabalho é desconhecido em Portugal, inclusive por artistas, críticos, curadores e programadores." É, diz, uma tarefa "sempre inacabada" - e também por defeito do contexto,"muito interessante e ao mesmo tempo muito ingrato", que conheceu primeiro como sociólogo, depois como quadro do Instituto da Arte Contemporânea e finalmente como curador independente. "Alguns dos artistas que apresentámos concluíram entretanto processos de consagração. Mas quando aqui vieram num timing ascendente foi um problema - como se fossem anónimos que eu tivesse descoberto nalgum vão de escada. Pagamos um preço elevado por trilhar este caminho sem concessões", insiste, dando o exemplo do espaço do Porto, reconvertido numa livraria de arte depois de verificada a "total deserção da crítica e, consequentemente, do público". Tem, admite, esta inclinação para ver o copo meio vazio, mas também podia vê-lo meio cheio: "Tem sido uma constante descoberta, e um descoberta com utilidade social: acredito que na Culturgest posso fazer serviço público e contribuir para a democratização da arte contemporânea, o que não passa necessariamente por fazer exposições para 100 mil visitantes."

Sugerir correcção