Muda o discurso, fica a austeridade

Portugal passou no exame da troika. Uma boa notícia. Mas os sacrifícios vão continuar

A troika fechou a oitava e a nona avaliações. A boa notícia, além do cheque de 5,5 mil milhões de euros que vamos receber, é que Portugal passou. Este é um passo muito importante para que o país continue a acumular o seu capital de credibilidade junto dos mercados, uma condição essencial para a descida dos juros. Se a correcção das taxas que começou esta semana continuar, Portugal ainda pode ir a tempo de evitar um segundo resgate.

A boa notícia não significa necessariamente que a vida dos portugueses vai melhorar no próximo ano. A austeridade vai continuar, o novo pacote de reformas do Estado vai tirar poder de compra aos pensionistas e funcionários públicos e as medidas ditas extraordinárias (sobretaxa do IRS, a contribuição extraordinária de solidariedade e o corte de salários na função pública) são para continuar.

Nesta avaliação, ao contrário das anteriores, não foi Vítor Gaspar a fazer o balanço do exame da troika. Paulo Portas foi o protagonista. E as diferenças foram notórias. De um discurso técnico, que elencava ao pormenor as medidas de austeridade, às vezes até à exaustão, o Governo adoptou um discurso mais político. O vice-primeiro-ministro tentou minimizar as más notícias e não se cansou de repetir um sem-número de vezes que a troika deixou cair a chamada TSU dos pensionistas, uma bandeira do CDS. Sobre a austeridade que aí vem e sobre o facto de não ter conseguido convencer os técnicos a flexibilizar as metas do défice, foi telegráfico e parco em palavras.

Mesmo com um discurso novo, o que fica da oitava e da nona avaliações da troika é que a austeridade é para continuar e que os portugueses vão continuar a perder poder de compra em 2014. E o desemprego vai continuar a subir, apesar de não atingir os níveis estimados anteriormente.

Lampedusa e a vergonha da Europa

Em Fevereiro deste ano, a presidente da Câmara de Lampedusa, Giusi Nicolini, perguntou, numa carta aberta à União Europeia: de que tamanho deve ser o cemitério da minha ilha? A morte de centenas de imigrantes ilegais, ontem de madrugada, foi a resposta que obteve. O Papa Francisco, em apenas uma palavra, disse aquilo que os discursos políticos não conseguem transmitir: vergonha. O Mediterrâneo, mar de civilizações e encontros desde a Antiguidade, tornou-se igual a um campo de extermínio. Nas suas margens, como também em tempos disse o Papa, passou a haver apenas indiferença. Indiferença perante a morte e perante as tragédias que se sucedem. "Não há solução milagrosa", dizia a ministra dos Estrangeiros italiana, Emma Bonino. Não há milagre. Mas a Europa em crise e com medo que se fecha ao outro deixará de ser a Europa se não entender que a morte no Mediterrâneo é a sua própria morte.

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