Guerra contra Obamacare é "medida extrema" para não perder eleitores

Obama não recua um milímetro na sua principal bandeira e a ala radical do Partido Republicano está a forçar a entrada num beco sem saída. Ninguém vislumbra o fim do shutdown a curto prazo.

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John Boehner, o líder do Partido Republicano na Câmara dos Representantes, à saída de uma reunião com Obama na Casa Branca Jason Reed/REUTERS

"Deixem de agir como fedelhos mimados", escreveu a norte-americana Janette Dunder no cartaz que foi mostrar aos membros do Congresso, numa manifestação em frente ao edifício do Capitólio.

Janette é uma das 800.000 pessoas afectadas pela paralisação do Governo dos EUA e as suas palavras reflectem o pensamento da maioria dos norte-americanos, a julgar pela realidade vista através das sondagens: a culpa é dos políticos de Washington. Mais do Partido Republicano do que do Partido Democrata, mais do Partido Democrata do que do Presidente Barack Obama, e muito mais do movimento radical Tea Party do que de todos os outros.

A crise política em Washington é um somatório de vários duelos e ninguém sabe muito bem quando e se irá aparecer um xerife para pôr ordem na cidade.

Ainda é cedo para saber quem vai vencer o braço-de-ferro, mas o cartaz de Janette Dunder traz à memória um cartoon desenhado por Ed Murawinski para a capa do tablóide nova-iorquino Daily News, em finais de 1995, durante a última paralisação do Governo norte-americano. O então speaker da Câmara dos Representantes, o republicano Newt Gingrich, foi retratado como um bebé e acusado de ter paralisado o Governo Clinton por causa de uma birra.

Mas, apesar dos pontos de contacto, as questões políticas são agora muito mais complexas do que há quase duas décadas e têm um alvo bem definido - o Patient Protection and Affordable Care Act, mais conhecido como "Obamacare" ou como o inimigo público dos membros mais radicais do Partido Republicano.

"É tentador descartar os activistas do Tea Party que estão a puxar pelo Partido Republicano como um grupo de loucos - como alguns comentadores têm feito - motivados pelo medo e pela convicção de que a bancarrota não causará muitos danos e que até servirá como uma purga para libertar a economia de uma governação inchada", escreveu Eduardo Porter, jornalista responsável pela coluna Economic Scene no jornal The New York Times.

É esta a imagem que o líder da maioria democrata no Senado, Harry Reid, tem passado dos seus opositores na Câmara dos Representantes. As propostas de última hora do Partido Republicano para evitar a paralisação do Governo foram "brincadeiras de crianças", disse Reid - "uma ideia ridícula e impossível de ser aprovada atrás de outra". Refém de uma minoria radical devido a uma luta interna pelo poder, o líder do Partido Republicano na Câmara dos Representantes, John Boehner, perdeu o controlo para um grupo de "republicanos das bananas".

Mas Eduardo Porter defende que existe uma "alternativa plausível à irracionalidade" dos mais radicais entre os membros do Partido Republicano na câmara baixa do Congresso, que representam menos de 20% da bancada.

"Apesar de poder vir a ser um programa com falhas, o Obamacare pode alterar os fundamentos da relação entre os trabalhadores americanos e o seu Governo. Isto pode representar uma ameaça existencial à defesa da doutrina de menos intervenção governamental que tem definido o Partido Republicano há décadas", sugere o colunista do The New York Times.

Apesar de todas as suas potenciais falhas, o Obamacare deverá "melhorar a vida de milhões de americanos, incluindo uma grande parte daquilo que [se conhece] como classe média trabalhadora", escreve Porter. Como resultado, a base dos apoiantes do Tea Party - os homens brancos entre os 45 e os 64 anos - "sairá beneficiada com a lei", que é também a principal bandeira da Administração Obama.

A especialista em política Theda Skocpol, da Universidade de Harvard, resume tudo em três frases: "Os principais beneficiários são as pessoas com salários mais baixos e que trabalham em empresas pequenas, que não disponibilizam seguros de saúde. Mas não são os mais idosos. E também não são os mais pobres." O colunista Eduardo Porter acrescenta e conclui: "E podem agradecer aos democratas esses benefícios. Para os republicanos conservadores, a perda de uma grande fatia da classe média para o Partido Democrata pode justificar medidas extremas."

Sem sinais de qualquer cedência de ambos os lados, a questão vai agravar-se com a discussão sobre o aumento do limite da dívida, que terá de ficar resolvida até 17 de Outubro.

Até lá, os corredores do Congresso e da Casa Branca podem abrir portas a uma solução de compromisso, mas a gravidade da situação é tal que a edição online da revista The Atlantic publicou um artigo que remete para um cenário extremo. "Se o Congresso não aumentar o limite da dívida, Obama será forçado a violar a lei", escreveu Garrett Epps, antigo jornalista do The Washington Post e professor de Direito na Universidade de Baltimore.

Se o Congresso não autorizar o aumento do limite da dívida, Barack Obama poderá ser confrontado com uma decisão histórica, diz Garrett Epps: "Se um Presidente não agir e permitir que a economia mundial entre em colapso, esse Presidente pode ser acusado de violar o seu juramento. Se um Presidente agir, pode ser acusado do mesmo. Em qualquer dos casos, a questão só poderia ser resolvida através de um processo de impeachment."