Do lado do "exótico"?

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Junot Díaz nasceu em Santo Domingo - é uma voz "representativa" da imigração LEONARDO CENDAMO GRAZIA NERI

Junot Díaz, Teju Cole, Ali Smith - o mundo vê-os como escritores em representação de um colectivo. Americanos via imigração, trazem as marcas da distinção ou da diferença para a literatura contemporânea dos Estados Unidos. Uma geração de luxo, com direito a edição em português em 2013.

"Quando escrevo, ouvir música é ruído. Preciso de silêncio absoluto." É uma regra, apesar de não ter propriamente um método. "Quando as coisas correm bem, torno-me obcecada. Quando correm mal, fico muito triste e paro." Em que fase de trabalho está agora? Sorri. Só isso. Chimamanda Ngozi Adichie tem consciência do espaço singular que ocupa nos escaparates de uma livraria, na estante do leitor mais ecléctico. Africana na linha dos contadores de histórias tradicionais, trouxe uma África cheia de contágios, nunca linear, para os livros que escreveu. Três romances, muitos contos, alguma poesia, muitas referências. A de Chinua Achebe, o escritor nigeriano que, como ela, também viu África pelos contrastes civilizacionais, escrevendo de fora, voltando, é notória e assumida. "É como se A Flecha de Deus nunca me abandonasse. Ele fala do que é a essência do africano e isso pertence à ordem das emoções. É um modo de ser. Está na escrita, claro." Está no resto.

Para Chimamanda, essa é a diferença, o que torna uma escrita singular. De onde se vem, o que se lê, como nos deixamos contaminar. Por exemplo, ler os russos na adolescência, mais do que os escritores chamados negros ou da africanidade. "Mas eu não sou apenas a rapariga que leu os russos e agora escreve. No workshop de escrita que dirijo na Nigéria, o meu grande conselho é sempre: "Leiam muito". Quando não consigo escrever, leio. Não-ficção. Ensaios, poesia." Vai espalhando esses contágios na tal escrita que conquistou os leitores e a crítica e que fez dela um dos nomes mais sólidos, aos 36 anos, da actual literatura... Não apenas africana.

Literatura americana remixed

Numa livraria de Nova Iorque, o rapaz segue decidido quando lhe perguntamos por novidades. Literatura americana contemporânea, é isso que se pede. A figura que sobressai é a de Junot Díaz, 44 anos, americano filho de dominicanos que chamou a si as atenções via Pulitzer, quando em 2008 escreveu A Assombrosa Vida de Oscar Wao, romance que mergulha na história da República Dominicana através da intimidade e do quotidiano dos seus personagens menos ilustres. Díaz ganhou leitores fiéis um pouco por todo o mundo; entre outras coisas, chamam-lhe uma das vozes mais representativas da comunidade de imigrantes da América, seja lá isso o que for. O facto é que a América gosta de lhe chamar americano. Ele é. Mas nasceu em Santo Domingo e essa marca está na sua escrita. É Assim que a Perdes, o seu livro mais recente, editado este ano em Portugal pela Relógio D"Água, volta a essas origens - "exóticas", dizem - a que muitos leitores parecem rendidos e que a crítica e os jornalistas vão sublinhando nas páginas dos melhores suplementos.

Chimamanda entra nesse rol dos que trazem as origens para a literatura americana, fazendo um mix. Ela não é americana, mas mesmo assim o rapaz da livraria não hesita em apresentar Americanah como o que de mais representativo de um certa contemporaneidade se vai fazendo na América e que é visto como marca de uma espécie de colectivo. Seja feito por quem vem da primeira geração de imigrantes na América ou pelos chamados expatriados, os que escolheram viver ali e integram, por oposição, um outro colectivo. Junot Díaz, Chimamanda Ngozi Adichie, mas também Zadie Smith. A inglesa de 37 anos, filha de pai jamaicano e mãe inglesa, vencedora do Orange Prize em 2006 e finalista do Booker no mesmo ano com Uma Questão de Beleza, passou a viver entre Londres e Nova Iorque. Tem um livro novo, NW, que a D. Quixote anuncia para Portugal a 31 de Dezembro. Um trabalho de linguagem com muitas das técnicas da dramaturgia, experimental, passado num bairro do Noroeste de Londres, onde Zadie nasceu. Não há Nova Iorque, mas é como se... É a experiência de um tal colectivo numa abordagem a que chamam realista, mas com um toque pós-moderno.

Teju Cole, nigeriano-americano de 38 anos, não se vê como parte do tal colectivo. Professor, ensaísta, fotógrafo, autor do romance A Cidade Aberta, que a Quetzal também publicou em Portugal neste ano de 2013, Teju Cole vive em Brooklyn e ensina na New York University, depois de ter crescido em Lagos e de partilhar a admiração de Chimamanda por Chinua Achebe. Mas faz uma distinção. "O trabalho de Zadie Smith e Junot Díaz tem mais em comum entre eles do que com o meu. Eu não escrevo sobre imigração, não escrevo sobre famílias excêntricas, não escrevo sobre uma voz colectiva", disse este ano numa entrevista ao Ípsilon. Escreve sobre a experiência de um homem africano, sobretudo numa cidade da América: Nova Iorque.

Todos eles, Chimamanda, Díaz, Smith e Cole, vêem livros seus editados em Portugal este ano. Pertencem a uma mesma geração. Escrevem sobre origens que não as da América em que vivem, ou em que vivem grande parte do tempo (caso de Chimamanda) e estão a transformar a literatura actual. Até um ponto isso é um marco? "Não sei se é assim tão marcante o facto de os americanos estarem a ler livros de ingleses negros ou de nigerianos. Não acho que seja. Acho que nos põem juntos porque não somos brancos. Não temos nada em comum. Junot Díaz é americano. Acontece que é um americano de cor. Zadie Smith é inglesa. Acontece que é negra. Eu sou nigeriana. Escrevemos sobre realidades muito diferentes e os estilos são muito distintos", refere, a propósito, Chimamanda Ngozi Adichie. E se estivesse a falar com os alunos do workshop em Lagos ela agora diria: "Se querem escrever, sentem-se e escrevam. A diferença vem desse acto." I.L.