Crianças precisam de correr riscos para se desenvolverem

Pediatra critica "cultura de segurança fóbica" que impede crianças de brincarem fora de casa

Pediatra diz que "brincar fora de casa, na natureza, é insubstituível"
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Pediatra diz que "brincar fora de casa, na natureza, é insubstituível" PEDRO CUNHA/arquivo

Os boletins de saúde das crianças obrigam os pediatras a recordar aos pais os riscos de acidentes, durante as consultas de rotina. Mas o ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Pediatria Luís Januário preferiu ontem destacar a importância de deixar as crianças correrem riscos, durante o congresso nacional desta especialidade.

"Brincar fora de casa, na natureza, é insubstituível [para o desenvolvimento das crianças]", sublinhou Luís Januário, no congresso que decorre na Alfândega do Porto, em que criticou a actual "cultura de segurança fóbica" e a "organização estereotipada dos espaços" criados para o lazer dos mais novos. "Não se pode negar às crianças a oportunidade de se envolverem em actividades de risco", defende.

O médico de Coimbra avançou mesmo com um exemplo da "cultura actual para mimar o desenvolvimento infantil" que considera desajustada - parques temáticos "como o Kidzania [onde as crianças brincam às profissões, em Lisboa]". Ali, ironizou, "os adultos são tratados como crianças e as crianças são tratadas como pequenos adultos". Lembrando que "o ambiente adequado para brincar é um local não estruturado", Luís Januário observou que "já não há crianças a brincar na natureza". "O espaço de liberdade das crianças da geração actual em relação à geração dos meus filhos mudou completamente. Contraiu-se o espaço de circulação das crianças de uma maneira incrível", lamentou. E isso não é uma inevitabilidade, defendeu, aludindo a um movimento que desde há alguns anos tenta contrariar esta tendência, nos países do Norte e em Inglaterra, as chamadas "escolas de floresta" (escola tradicional numa zona onde ainda há floresta).

"A Associação Portuguesa de Segurança Infantil (APSI) anda há 21 anos a chamar a atenção para o facto de não podermos pôr as crianças dentro de redomas. Uma criança que não corre riscos não aprende os riscos que pode correr [mais tarde]. Hoje, temos crianças superprotegidas na área do brincar, não têm autonomia e não são responsáveis. São analfabetos do corpo", comenta, a propósito, Helena Sacadura, da APSI.

Mas, se na área dos acidentes de lazer, os pais são muitas vezes "superprotectores", na área rodoviária e doméstica "desvalorizam muitas vezes os ricos e desprotegem", afirma. Fazem-no, por exemplo, quando não usam cintos de segurança nos automóveis ou quando não guardam substâncias perigosas em armários altos, em casa. Resultado? Ainda há muitos acidentes que poderiam ser evitados. Apesar da redução significativa na mortalidade por traumatismos e lesões dos 0 aos 19 anos verificada em Portugal nas últimas décadas, entre 2006 e 2010, 625 crianças e jovens até aos 19 anos morreram num acidente (INE) e mais de metade destes casos aconteceram entre os 15 e os 19 anos de idade. Os acidentes rodoviários foram responsáveis por dois terços do total.