Ao terceiro romance Chimamanda riu

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Chimamanda Ngozi Adichie saiu da Nigéria para ir viver quatro anos nos EUA: "Se tivesse passado dez anos fora, talvez o regresso [a Lagos] fosse terrível" RUI GAUDÊNCIO

Chimamanda Ngozi Adichie, a escritora nigeriana que recupera, para a inovar, uma velha tradição - a tradição de contar histórias, tal como fundada pelo enorme Chinua Achebe -, leva-nos para dentro de Americanah, o seu mais recente romance. Amor, raça, identidade e regressos, a meio caminho entre África e a América.

A palavra sai meio cantada porque ela já é mesmo assim, uma melodia, última sílaba no ar, prolongada: Americanah, aquela que é "engrinaldada em alegria", como Bisi, a rapariga que foi à América e não voltou à Nigéria igual. Trazia "afectações esquisitas, fingindo já não compreender ioruba, acrescentando um erre arrastado a todas as palavras inglesas que pronunciava". Americanah é o terceiro romance de Chimamanda Ngozi Adichie e vão faltando razões para ainda não conhecer este nome. Aos 36 anos, a escritora nigeriana que divide a vida entre os Estados Unidos e a Nigéria acumula prémios e distinções e não falta quem a refira como uma sucessora - pelo carisma, pela capacidade de inovar e de representar um colectivo na literatura - de Chinua Achebe (Ogidi, 1930), o "pai" da nova literatura africana, que terá fundado com o romance Quando Tudo se Desmorona, em 1958. Chimamanda gosta de se sentir herdeira do poeta, crítico e escritor (de etnia igbo, como ela) que morreu em Março deste ano, depois de vencer, em 2007, o Man Booker International (tinha sido finalista do Booker duas décadas antes, com o romance Anthills of the Savannah). Um "exemplo", diz.

Há uma pausa suspirada quando fala de Chinua Achebe. A única pausa num discurso com poucas hesitações. "Adoro-o profundamente. Ao seu legado humano e ao seu trabalho como escritor. Era íntegro e verdadeiro", declara Chimamanda Ngozi Adichie ao Ípsilon em Lisboa, sítio onde nunca tinha estado, mas aonde quer voltar depois da maratona de entrevistas de promoção do romance, para tentar compreender melhor de onde vieram os homens que chegaram à Nigéria no século XV e baptizaram a capital com o nome de uma cidade deles. Lagos e Lagos. A da pronúncia inglesa e a original. A cidade de onde saiu Ifemelu, a protagonista de Americanah. E de onde saiu também Chimamanda, aos 19 anos.

Ifemelu e Chimamanda, personagem e autora, foram para a América estudar comunicação. Ambas voltaram a Lagos. Mas não vale encontrar mais pontos em comum. Não vale também esconder que há, de facto, pontos em comum. "Mas ela não sou eu", garante Chimamanda Ngozi (o "n" aqui não se lê, avisa) Adichie. E carrega no "Chi"... "Tchimamanda", como "Atchebe", assim soam os nomes dos dois escritores no inglês com sotaque da Nigéria que ela aprendeu a ler muito nova - é a língua em que escreve as suas histórias desde os seis anos. Se não há pretensão na forma como se apresenta, também não há qualquer tentativa de simplificar o que a expressão pode ter de redutor. Contar histórias. E aqui há uma espécie de desafio no olhar. Por exemplo, contra as doutrinas que dizem que a literatura já não é isso. Não há só uma verdade, parece estar Chimamanda sempre a dizer. "Eu conto histórias. Interessam-me as vidas dos outros. A minha é monótona. Interessam-me as pessoas e interessa-me a política pelo modo como toca as pessoas, e o modo como a sociedade as molda."

São pessoas em lugares muito precisos. A Nigéria, que Chimamanda percorre na sua História enquanto país em A Cor do Hibisco, de 2003. O Biafra, território do Sudeste do país que se autonomizou como república entre Maio de 1967 e Janeiro de 70, dando origem à infame guerra civil que ficaria conhecida como a Guerra do Biafra, e que é a geografia principal de Meio Sol Amarelo, vencedor do Orange Prize em 2007. Mas ainda Lagos, Nova Iorque, Londres, Filadélfia e Baltimore, cidadezinhas do interior e campus universitários, como os deste Americanah e de muitos contos que tem publicado, alguns reunidos no volume A Coisa à Volta do Teu Pescoço, que a D. Quixote editou por cá no Verão de 2012. Chimamanda esteve em todos estes lugares. "Escrevo sobre os lugares que conheço. Nunca escrevi sobre sítios onde não estive. Acho que o facto de conhecer os lugares nos traz alguma autoridade à escrita."

Na América

Chimamanda conhece por exemplo Princeton, onde foi bolseira, e tornou-a também cenário da sua literatura. "Princeton, no verão, não cheirava a nada, e embora Ifemelu gostasse do verde tranquilo das muitas árvores, das ruas limpas e das casas imponentes, das lojas delicadamente caras e do ar sossegado e duradouro de graciosidade conquistada, era isto, a ausência de cheiro, que mais a atraía, talvez porque as outras cidades americanas que ela conhecia bem tinham todas tido um cheiro distinto. Filadélfia tinha o cheiro bafiento da História. New Haven cheirava a desleixo. Baltimore cheirava a salmoura e Brooklyn a lixo aquecido ao sol. Mas Princeton não tinha cheiro. Ela gostava de inspirar fundo aqui."

"Aqui" é onde encontramos Ifemelu no arranque de Americanah. É a autora de um "blogue sobre estilos de vida", "um blogue anónimo chamado Sobre Raça ou Várias Observações Sobre os Negros Americanos (Anteriormente Chamados Pretos) por uma Negra Não Americana"; uma nigeriana há 13 anos na América, uma ex-magra a habituar-se ao som da palavra "gorda", a dar palestras em troca de bons honorários. Uma nigeriana "com uma bolsa de investigação em Princeton e uma relação com Blaine - "Tu és o amor absoluto da minha vida", escrevera ele no último postal de anos dela - e, no entanto, havia cimento na sua alma. Já lá estava há algum tempo, uma doença de fadiga matinal, de desolação, de falta de fronteiras pessoais".

Talvez essa "doença" se tivesse manifestado já na América, quando Ifemelu deixou de responder a Obinze, o seu amor nigeriano, depois de um episódio de vergonha em que se "prostituiu" em troca de uma renda de casa num momento de grande aperto financeiro. Nunca mais atendeu os telefonemas nem respondeu aos e-mails de Obinze, a quem os amigos chamavam Zê, a quem ela começara a chamar Teto, nome que era a meta a seguir aos "entrelaçamentos quentes" de ambos, na ausência da mãe dele. ""Anseio pelo teto", escreveu ela nas costas do caderno de apontamentos de Geografia, e durante muito tempo ele não conseguia olhar para aquele caderno sem um estremecimento..." Obinze, o rapaz criado num campus universitário, como Chimamanda, filha de um professor de Estatística e de uma secretária do mesmo departamento. O mesmo campus de Nsukka, a Universidade da Nigéria, onde Obinze cresceu. Ele que, como Ifemelu, sonhava com a América por toda a liberdade de opções que um regime totalitário ia limitando na Nigéria. Obinze tinha sido o amor de Ifemelu, desde o liceu e até à universidade e depois. E foi por ele, ou nele, que começou a sua quase-fuga ao amor. "A personagem deste livro que tem mais momentos em comum comigo é Obinze, o amor de Ifemelu. De tal forma que quase se poderia dizer que, realmente, Obinze sou eu. Mas ele é homem e aí começa uma grande diferença. Temos, no entanto, um passado semelhante, um modo parecido de questionar o mundo. Ele adora livros, tal como eu adoro...", vai dizendo Chimamanda.

Quem é quem

Talvez tudo comece por aí. Às reticências segue-se uma lista de referências que contagiou o livro e que começa com James Baldwin, o escritor afro-americano de Nova Iorque, homossexual, negro, que sempre viveu e escreveu sobre a diferença nos seus direitos e desesperos. Dentro do romance, não é difícil reconhecer Chimamanda nas recomendações literárias de Obinze a uma Ifemelu recém-chegada à América. "Sugeria-lhe que lesse livros americanos, romances, livros históricos e biografias. No primeiro e-mail que lhe mandou - abrira recentemente um cibercafé em Nsukka - deu-lhe uma lista de livros. The Fire Next Time era o primeiro da lista. Ela ficou de pé junto à prateleira na biblioteca e deu uma vista de olhos ao primeiro capítulo, preparada para uma grande maçada, mas lentamente foi-se aproximando de um sofá, sentou-se e continuou a ler até ter lido três quartos do livro, depois tirou da prateleira todos os livros de James Baldwin."

Há também a poesia de Yusef Komunyakaa, o afro-americano do Sul, professor na New York University, que soube levar às elites a vida dos trabalhadores negros dos campos da Louisiana. Os poemas de Esiaba Irobi, o escritor do Biafra, que viveu exilado na Nigéria, na Inglaterra e nos Estados Unidos e morreu em Berlim, em 2010, com 49 anos. Jean Toomer (1864-1967), cujo romance, Cane, Ifemelu leu no dia em que viajou de Princeton até Trenton, de comboio, para entrançar o cabelo. "Um texto rebuscado, tinha-lhe chamado Blaine, naquele tom suavemente paciente que usava quando falavam de romances, como se tivesse a certeza de que ela, com um pouco mais de tempo e um pouco mais de entendimento, acabaria por aceitar que os romances de que ele gostava eram superiores, romances cheios de coisas, uma acumulação fascinante e confusa de marcas e de música e de banda desenhada e de ícones, com emoções abordadas superficialmente e frases estilisticamente conscientes do seu valor estilístico. Ela tinha lido muitos deles, porque Blaine lhos recomendava, mas eram como algodão doce que se dissolvia muito depressa da memória da sua língua."

Blaine não era Obinze. E Chimamanda está em Obinze, apesar de também ter criado Blaine. O homem que Ifemelu também vai deixar depois de ter deixado Curt, o branco bonito de olhos azuis, simpático e feliz, que lhe carimbou o passaporte com muitos vistos e deu acesso a um mundo privilegiado. No seu blogue, ela chama-lhe o Ex Branco Giro. Amou-o sem chama, apesar de tudo, e tudo era muito. A Tia Uju (ex-segunda esposa de um general do regime, irmã do pai, mãe de Dike, confidente de sempre que antecedeu a aventura americana e que Ifemelu vai encontrar em Brooklyn em exames, para conseguir o internato de Medicina) garantia-lhe que nunca arranjaria ninguém que a amasse como ele. Ou, como lhe dizia Ginika, a amiga que também veio da Nigéria, parecia que Ifemelu inconscientemente não queria ser feliz. Cliché? As amigas dizem essas coisas, diz agora Chimamanda com um encolher de ombros. "Ifemelu é a personagem que mais admiro neste livro. Uma das razões pelas quais gostei de escrever Americanah é porque Ifemelu não faz as coisas que esperamos que faça. Ela muda a agenda. Nas relações, por exemplo. Ela tem relações felizes mas é o elemento destrutivo. Ela é a pessoa que não está certa acerca de compromissos."

Ifemelu é a que vai embora. "Geralmente, esperamos que sejam os homens a ir, não as mulheres. Dei-lhe essa característica", sorri Chimamanda, no primeiro sorriso da manhã. E fala-se da condição feminina que atravessa a sua literatura, da raça - inevitável -, e das razões de tudo isto. "Escrevo sobre mulheres porque sou mulher. Os homens estão sempre a escrever sobre homens e isso é tido como normal, como se a literatura fosse uma coisa de homens sobre homens. Para mim, o facto de ser mulher não é importante, mas é a minha condição e não sinto necessidade de justificar ou explicar porquê. É assim. Sou uma mulher e as mulheres preocupam-se com o cabelo. Mas não é sobre cabelo... é sobre o que somos." A cor da pele entra aí. Outra condição. Importante apenas por ser lembrada pelo outros. "Quando apanho um comboio na Nigéria não me lembro que sou negra, porque não tenho de me lembrar. Na Nigéria estou muito mais consciente da minha identidade enquanto mulher. É quando estou na América que me ocorre a raça, a cor", refere Chimamanda, enquanto bebe uma chávena de chá, pequeno-almoço improvisado numa manhã que começou tarde. "Lá, estou sempre a ser alertada para isso", continua.

E Americanah também é isso, mas é mais sobre a identidade, sobre ser-se diferentes coisas em diferentes lugares. "Conforme o lugar, é-se. É-se de outra forma. Nessa perspectiva, eu estou um pouco em Ifemelu. Mas, repito, não penso em mim como uma negra a não ser quando estou nos Estados Unidos. Não há alternativa, não há escolha. É assim que nos vêem. É o que acontece quando se vive numa sociedade onde as pessoas são classificadas com base na raça. Na Nigéria todos são negros. A questão não se põe. Mas nos Estados Unidos a raça é o que comanda. O problema da raça não é o facto de você ser branca e eu ser negra. O problema da raça é que se a pessoa é negra então é A, B ou C. É-se mais ou menos inteligente, há mais ou menos probabilidade de se roubar, há mais ou menos probabilidade de conseguir aquele emprego. É por isso que é um problema. Não tem nada a ver com a biologia; é sobre o facto de ser errado ou certo ser diferente. É um conceito social que estratifica. As pessoas que cresceram numa sociedade racial aprendem a lidar com isso. É uma presença constante. Há sempre uma primeira vez em que pensamos no que significa ser negro na América", comenta, num tom em que mistura irritação e vontade dizer de uma vez porque é que volta à raça. Nas conversas, na literatura... E fala, então, dessa sua estreia num sentimento que classifica de tão surpreendente quanto ridículo. Aconteceu na universidade, quando um professor pediu para escreverem um ensaio. "O professor quis conhecer o autor do melhor e pediu ao aluno chamado Adichie para se levantar. Quando levantei a mão e disse o meu nome ele pareceu chocado. Não esperava que a pessoa que tivesse escrito o texto se parecesse comigo."

O discurso flui. A escravatura não explica tudo. O que aconteceu após a escravatura sim. Foi tão mau quanto. "Foi uma espécie de tentativa de institucionalizar que nem todos poderiam ter acesso aos direitos civis mais básicos. Uns teriam, de acordo com o plano, e outros não. Nos anos 60 muitas pessoas não votavam simplesmente porque eram negras. Não foi assim há tanto tempo. Não é surpreendente que um professor universitário fique muito surpreendido com o facto de um negro ter escrito o melhor ensaio. Para mim é só ridículo - é mais fácil porque não sou americana. Se fosse americana seria diferente."

Regressos

Ocorrem a propósito as conversas entre Ifemelu e Shan, a irmã de Blaine, a que andou pelo mundo e "fez jornalismo", que perdeu um amor e vive entre Paris e os Estados Unidos. Shan impressionava e havia que impressionar Shan. Há desconforto nos ânimos sempre que se fala de raça. Shan acusa Ifemelu de se refugar no seu exotismo, no facto de ser de outro continente, para lhe ser permitido dizer o que diz do racismo americano, a "coisa da África autêntica". Quanto a Ifemelu, faz suas as palavras de Paula e de Marcia, amigas de Blaine, quando a narrativa já vai longa. Página 498, a propósito da candidatura de Obama. Diz Paula, dirigindo-se a Pee, outra amiga, mas de olhos numa assistência maior: "Se tu estás pronta para um presidente negro, então quem é exactamente este vago país que não está pronto? As pessoas dizem isso quando não podem dizer que elas estão prontas. E até a ideia de estar pronto é ridícula." Como é que Ifemelu passou a ideia no blogue? "Ninguém vê quão absurdo é perguntar às pessoas se elas estão prontas para um presidente negro? Estão prontas para o Rato Mickey ser presidente? E o Sapo Cocas? E Rodolfo, a rena de nariz vermelho?" Nesta ironia está Chimamanda.

Fora do livro, num hotel de Lisboa, a conversa percorre então as emoções originais. As da escrita. Das lágrimas à gargalhada. Se há percurso desde a publicação de A Cor do Ibisco, há dez anos, e o que veio depois, ele é marcado por momentos de choro e de riso e de outras coisas. "Pensar em evolução pressupõe quase sempre vir de um ponto mais baixo até chegar a uma altura maior. Não consigo pensar sobre o que tenho feito dessa forma." Vamos por romances. Três. A Cor do Hibisco é um princípio em que Chimamanda não se demora muito, mas fixa-se em Meio Sol Amarelo. "Talvez seja o livro com maior significado emocional para mim. É a história da minha família num momento delicado da História do meu país. Foi escrever sobre um assunto muito difícil. O meu avô morreu naquela guerra. Passei por momentos de muito choro ao longo do processo de escrita do livro." Refere-se à história de Ugwu, o pequeno criado, e de Odenigbo, o senhor que inventa uma revolução, professor universitário apaixonado por Olanna, rapariga de magias, gémea de Kainene, por quem Richard, o inglês branco, se apaixona contrariando usos antigos. "Dava por mim a repetir My God... enquanto escrevia. Isto foi o que aconteceu ao meu avô? Ou o que poderia ter acontecido ao meu avô!"

E agora, Americanah... racismo, o amor, a identidade ou, "sobretudo, o impulso de regressar ao sítio de onde somos". O que fez Ifemelu decidir voltar a Lagos, mesmo sendo bem-sucedida na América. O que fez também Chimamanda regressar. "No caso dela, uma década depois. No meu, apenas quatro anos. Se tivesse passado dez anos fora, talvez o regresso fosse terrível. Quando não se volta a casa durante muito tempo isso pode afectar de maneiras muito profundas", diz como que de uma estranheza. A que fez de Ifemelu uma "americanah" no regresso a Lagos, como Bisi um dia? A resposta está no romance: "Ao princípio Lagos agrediu-a; a pressa aturdida pelo sol, os autocarros amarelos cheios de braços e de pernas esmagados, os vendedores ambulantes suados a correrem atrás dos carros, os anúncios em gigantescos painéis publicitários (e outros garatujados nos muros - CANALIZADOR TLF 080177777) e os montes de lixo que se erguiam nas bermas das estradas como uma provocação. O comércio insistia demasiado provocadoramente. E o ar estava denso com exageros, as conversas cheias de declarações excessivamente solenes (...). Quando é que os lojistas se tinham tornado tão grosseiros? Os edifícios em Lagos sempre tinham tido esta pátina de deterioração? E quando é que Lagos se tinha tornado uma cidade de pessoas prontas a mendigar e demasiado interessadas em coisas de borla?" Diante dessa estranheza, Ranyinudo, a velha amiga de Lagos, vai buscar a terminologia antiga. Sabe que a toca. "Americanah (...). Estás a olhar para as coisas com olhos americanos. Mas o problema é que tu nem sequer és uma verdadeira "americanah". Se pelo menos tivesses sotaque americano, nós tolerávamos-te as queixas!"

A Nigéria para onde Ifemelu quer voltar não é a mesma que a fez sair. É aquela onde vive Chimamanda, que confessa que ao escrever o terceiro romance riu. "Ri muito, diverti-me imenso. Adorei escrever este livro." Como quando passou ao papel os ares incrédulos dos que ouviam Ifemelu contar a decisão de voltar a África, à Nigéria, a Lagos. Brincou com eles publicamente, mas no íntimo das páginas havia a incerteza de Ifemelu, o medo de saber como seria ela nesse tempo sem generais, sem o ditador Sani Achaba (governante entre 1993 e 1998) e sem racionamentos de todo o tipo. Num país que era o dela mas que ela não reconheceria. Reconheceria? Chimamanda fala antes da sua história pessoal de regresso. "Saí da Nigéria quando o país estava numa ditadura. Foi quando muita gente saiu, mas as pessoas estão a voltar. A história de Ifemelu baseia-se nas histórias de muitas pessoas que estão a voltar. Como já disse, queria escrever sobre esse regresso. Para muitos, há melhores oportunidades agora na Nigéria do que em muitos outros países onde os nigerianos são imigrantes. As economias no Ocidente estão a falhar, estagnaram; os Estados Unidos também. Mesmo estrangeiros do Ocidente estão a procurar empregos em alguns países africanos. Não é fácil, por vezes, entender que a Nigéria pode ter mais oportunidades. A surpresa vem dessa ignorância."

Ifemelu regressou também por Obinze. Disse-lhe, num e-mail, que estava de volta. Na América deixou Blaine. Nenhuma inconfidência narrativa. Sabe-se no início deste livro com mais de 700 páginas. E que ele ficou rico. Casou bem, tem filhos. Continua a não ser revelação imprópria. Obinze não chegou a ir à América do sonho. Foi até Inglaterra, a antiga colónia, de onde será deportado. Numa livraria de Londres, numa folga de entregas, entre um café caro, Obinze lia e imaginava Ifemelu. "Lia ficção americana contemporânea, porque tinha esperança de encontrar uma ressonância, uma forma para os seus anseios, um sentido da América de que ele se imaginara a formar parte. Queria ficar a conhecer o dia a dia na América, o que as pessoas comiam e o que as consumia, o que as envergonhava e o que as atraía, mas lia romance atrás de romance e sentia-se dececionado: nada era grave, nada era sério, nada era urgente, e a maior parte dissipava-se numa vacuidade irónica."

É outra vez Chimamanda, a dos olhos brilhantes, porte altivo, cor de chocolate, cabelo entrançado, como antes Ifelemu, como antes a Tia Uzu. Vê o mundo como Obinze o viu num jantar em Londres. Eles, os dali, "compreendiam a necessidade de fugir à guerra, ao tipo de pobreza que esmagava as almas humanas, mas não compreenderiam a necessidade de escapar da letargia opressiva da falta de escolha". Foi o que fez sair Ifemelu. Foi o que fez sair Obinze. Os africanos não têm uma história única, como lembrou mais uma vez Chimamanda a propósito de um livro que é uma história de amor. E agora poupem-lhe os clichés.