Maioria das mulheres com cancro não é informada sobre a possibilidade de vir a ter filhos

Especialista defende que oncologistas estão mal informados sobre técnicas e não dão hipótese de escolha às doentes

Foto
Por ano, entre 340 a 430 mulheres podiam usar técnicas gratuitas JOãO GUILHERME

A mais nova é uma estudante de 15 anos que teve cancro nasofaringeo, a mais velha é uma advogada solteira de 40 anos que teve cancro dos ovários. São duas das 48 mulheres que, desde 2010, tiveram a oportunidade de ter ovócitos, tecido ovárico ou embriões criopreservados, que lhes permitem poder tentar engravidar depois de terem feito tratamentos que, muitas vezes, as deixam infertéis. Por ano poderia haver em Portugal entre 340 a 430 mulheres a beneficiar de técnicas que são gratuitas, mas a maioria não são referenciadas pelos seus médicos oncologistas, critica a presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução, Teresa Almeida Santos, que hoje aborda esta questão no 5.º Congresso Português de Medicina da Reprodução, na Figueira da Foz.

Aos homens que adoecem com cancro e correm o risco de ficar infertéis depois dos tratamentos pode ser oferecida a colheita de esperma. É um processo simples, rápido e indolor e está disponível há décadas, explica a médica. Mesmo assim, "ainda há homens que não são referenciados". No Centro de Preservação da Fertilidade do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, que dirige, têm 225 amostras de esperma, mas há centenas de amostras em todo o país.

No caso da preservação da fertilidade das mulheres em idade reprodutiva que sofrem de cancro, a situação é tecnicamente mais complicada, mas, ainda é assim, é possível e está disponível gratuitamente no Serviço Nacional de Saúde apenas neste centro de Coimbra, que existe desde 2010.

No caso das mulheres o centro oferece às doentes com cancro a hipótese da criopreservação de embriões, de ovócitos e de tecido ovárico. Entre as 48 amostras no centro estão sobretudo ovócitos, mas também tecido ovárico, uma técnica que ainda é experimental e que consiste na extracção de um ovário inteiro ou apenas do seu tecido que, após os tratamentos, é reimplantado. No centro também há alguns embriões criopreservados, mas, para poderem ser usados, a mulher tem de ter o mesmo parceiro quando decidir engravidar, e este tem de dar a sua autorização. Ainda não houve nenhum caso de gravidez.

O problema, critica, é a falta de informação dos oncologistas, que não explicam atempadamente às suas doentes que existem as técnicas. A situação é cada vez mais premente, tendo em conta que 8% dos cancros acontecem abaixo dos 40 anos e que as taxas de sobrevivência são cada vez maiores, diz. Dos 15 aos 24 anos as taxas de sobrevivência a cinco anos rondam os 85%, explica.

Teresa Almeida Santos lamenta que "haja muitas mulheres em idade reprodutiva a quem não é dada oportunidade de escolha de preservação da fertilidade. É muito importante para as sobreviventes. Vão revoltar-se quando perceberem que não lhes deram a oportunidade".

Se as amostras das 48 mulheres forem dividas pelos três anos em que existe o centro (há apenas quatro anteriores a 2010), dá uma média de 16 mulheres por ano. Segundo estimativas da médica, 340 a 430 mulheres por ano poderiam beneficiar desta possibilidade.

A especialista diz que tentou, junto dos três institutos de oncologia do país, perceber que informação falta aos médicos e aos doentes sobre este tema, mas não teve acolhimento, não conseguiu pôr em curso inquéritos de recolha de dados. Teresa Almeida Santos acredita que este bloqueio acontece porque os médicos têm receio que as doentes os venham acusar de não terem sido informadas a tempo. Uma das perguntas do questionário que queria fazer aos doentes era "se foram informados" e "se queriam ser informados" [sobre a preservação de fertilidade]. Num questionário feito apenas a oncologistas de Coimbra (em 2006), 65% responderam que "o importante era tratar o cancro" e diziam não ter conhecimento sobre técnicas existentes. "Não tendo conhecimento, preferem nem levantar o problema."

"Cerca de metade das mulheres [cerca de 50] que vieram ter connosco vêm demasiado tarde, por referenciação tardia." A médica lamenta que as poucas mulheres a quem chega a informação cheguem ao centro quando, por exemplo, já foram operadas há seis semanas e vão começar quimioterapia daí a poucos dias. É que a colheita de ovócitos pressupõe a estimulação hormonal dos ovários durante cerca de duas a cinco semanas.