Crítica

Piano com extensões

Depois de já este ano nos ter oferecido, a meias com Luís José Martins, uma colossal obra-prima chamada Almost a Song, Joana Sá volta a atirar-se com o piano semi-preparado para um trampolim, assim se permitindo projectar-se para lá das fronteiras previstas para a exploração do seu instrumento. É um salto que mantém as características de inquietude e desassossego aspergidas sobre o anterior Through this Looking Glass, a partir da Alice de Lewis Carroll, mas que aqui busca um novo interlocutor. Se o disco anterior entabulava uma troca de estímulos com o vídeo, em Elogio da Desordem o piano mune-se de outros artefactos, de sons mundanos, e encena uma relação quase surda com a palavra.

De facto, os textos de Gonçalo M. Tavares ditos pela actriz Rosinda Costa atravessam-se à frente do piano, numa fuga apressada, como que pedindo desculpa por, momentaneamente, poderem desviar a atenção do essencial. O essencial, naturalmente, é o discurso musical angustiado, insatisfeito, imprevisível de Joana Sá, que se abate sobre as teclas exigindo-lhes muitas vezes mais do que elas podem dar. A palavra, precisamente, aparece usada como matéria plástica, e tal como o dispositivo de campainhas e sirenes ou a caixa de ruído, é assumida como elemento de expansão das possibilidades do piano. Mesmo quando dela emana um tom mais abrasivo.

Não são caminhos fáceis, aqueles que Joana Sá elege para a sua obra, colocando-se repetidamente debaixo de fogo. Mas é nesse singular fôlego, em que a desordem se pode transformar em desesperante sufoco (como acontece no magistral tema-título), que a compositora testa os limites do instrumento e concebe uma música que arrisca como poucas e não tem medo de se atirar para o desconhecido. Ouvir Joana Sá continua a ser o privilégio de poder aceder a uma linguagem musical autónoma, ousada e teimosamente interessada em se questionar.

Quase sempre obra de causar espanto e maravilhamento, Elogio da Desordem é a segunda peça de uma trilogia a solo que, já se percebeu, a afirma como uma das mais originais “vozes” da nossa contemporaneidade.