Bloco só atingiu um dos quatro objectivos nas eleições, mas direcção não está em causa

Coordenador João Semedo assume que os resultados do partido “ficaram muito aquém” e reconhece o seu fraco enraizamento autárquico.

Semedo reconhece o fraco "enraizamento" local do Bloco, que se arrasta desde o início da história do partido e não tem explicação para ele.
Foto
Semedo reconhece o fraco "enraizamento" local do Bloco e não tem explicação para ele Enric Vives-Rubio

O Bloco de Esquerda só atingiu um dos quatro objectivos que tinha definido para as eleições autárquicas do passado domingo, e os resultados conseguidos pelo partido “ficaram muito aquém das expectativas”.

A análise, realista, foi feita esta terça-feira pelo coordenador João Semedo, na sequência da reunião da comissão política nacional realizada na segunda-feira à noite. Apesar do desaire eleitoral, a cúpula bloquista “não vê qualquer razão” para pôr em causa a coordenação, a direcção ou a sua estratégia política. Mas promete que se alguém no partido quiser discutir os resultados “encontrará espaço para o fazer com toda a naturalidade, sem discriminação ou preconceito”.

“Definimos, para estas eleições, quatro objectivos e ficámos longe de os alcançar; só alcançámos um deles. Não conseguimos manter a Câmara de Salvaterra de Magos; não elegemos um vereador [o próprio Semedo] em Lisboa por 52 votos; tivemos menos 45 mil votos, baixámos 0,62%, e perdemos mandatos nas câmaras, embora tenhamos conseguido nas freguesias”, enumerou o coordenador bloquista.

“A única vitória foi a das coligações anti-Jardim, onde derrotámos estrondosamente o jardinismo no Funchal”, apontou, reforçando que “os resultados são claramente insatisfatórios e estão muito longe” daquilo que o partido pretendia. O BE participou na coligação que na Madeira juntou todos os partidos, excepto PSD e CDS-PP.


O Bloco apostava na eleição de Semedo em Lisboa para reconquistar o lugar de vereador que foi em tempos ocupado por Sá Fernandes, que entretanto se desvinculou dos bloquistas e passou a integrar as listas socialistas. Mas falhou. O coordenador diz que, se teve "uma quota-parte de responsabilidade”, não enjeita essa responsabilidade. Prefere, no entanto, dizer: “No Bloco quando ganhamos, ganhamos todos; quando perdemos, perdemos todos.”

Semedo apenas se regozija com a “derrota monumental do PSD, das coligações do PSD com o CDS, e do Governo”, que aponta mesmo como “o factor mais marcante das eleições”. “Estas eleições têm claramente essa leitura, porque elas condenam o Governo e a sua política de austeridade e a política da troika.”

Fraco enraizamento local

João Semedo reconhece estas eleições “confirmaram, tal como 2001, 2005 e 2009, uma muito frágil participação, enraizamento e inserção do Bloco nas autárquicas e no trabalho autárquico”. Mas essa fragilidade autárquica não é motivo de grande preocupação para o coordenador, por ser já uma tendência de toda a vida do partido e porque considera que a nível nacional o BE “nunca deixou de ter um papel de grande intervenção na vida política”.

A esse facto há que somar a abstenção, que atingiu todos os partidos, e uma “dupla bipolarização” em boa parte do eleitorado, que se deslocou para a esquerda e se concentrou na dupla PS-CDU, como na dupla PS-PSD, consoante os municípios, mas sempre em prejuízo do Bloco, realçou Semedo.

Isso não significa, porém, que se deva simplesmente aceitar a situação. “É evidente que até hoje não encontrámos a chave para resolver as dificuldades no nosso trabalho local. Assumimos isso. O Bloco não tem sabido encontrar o modo de intervir localmente para poder superar o diferencial de 25 anos de implantação dos restantes partidos”, lamenta João Semedo.

A solução é “continuar a discutir, sendo certo que não há soluções milagrosas e que não há mudanças que operem resultados diferentes num curtíssimo intervalo de tempo. Esse é um trabalho paciente, persistente. Mas é óbvio que tem que ser continuado.” Semedo prefere realçar que, apesar da “fraquíssima implantação no poder local”, o partido “tem crescido e tem influência política nacional”.

Tal como acontece logo após todas as eleições, a comissão política convocou uma reunião da mesa nacional para o próximo dia 12 para analisar os resultados das eleições e falar sobre a actualidade política, que será marcada nas próximas semanas pela apresentação do Orçamento do Estado e pelo segundo resgate.

Seguro que se decida

Considerando que desde domingo o executivo está mais “fragilizado, dividido e derrotado”, João Semedo realça que foi o próprio primeiro-ministro que já assumiu que “o Governo está mais fraco”. É necessário, no entendimento do bloquista, “encontrar, à esquerda, muito rapidamente, uma alternativa”.

Depois das tentativas infrutíferas em Julho, na sequência da crise das demissões no Governo, o Bloco continua disposto a entendimentos com o PS, que na altura preferiu sentar-se à mesa com os partidos do Governo – ainda que não tenha fracassado. “Nós não deixaremos de procurar essa alternativa, sendo certo que só contamos com aqueles que encontram, como nós, solução de alternativa contra a austeridade e contra o memorando e contra a troika.”

O recado é direitinho para o líder do PS. “A questão está em saber se António José Seguro faz uma rejeição clara ao convite, ao namoro descarado que Passos Coelho, Paulo Portas, Poiares Maduro e Cavaco Silva todos os dias fazem ao PS”, lança Semedo em desafio. “Até hoje – e isso é muito importante – não vimos da boca de António José Seguro uma resposta clara, um não claro a estas tentativas de aliciamento e de sedução ao PS.”