Editorial

Uma eleição, dois novos ciclos

Foi mais uma derrota da maioria do que uma vitória do PS. E a hora dos independentes chegou de vez

Quando os números da economia deram alguns sinais de melhoria, o Governo apressou-se a falar no início de um ciclo virtuoso de crescimento económico. Esse foi, aliás, um dos temas de campanha da maioria. Mas não impediu que o PSD e muitas coligações dos dois partidos da maioria sofressem um enorme desaire eleitoral, em particular no eleitorado urbano. O enorme trambolhão do PSD-Madeira sublinhou a dimensão telúrica da derrota, que uma outra vitória (Guarda ou Braga) não compensou de todo.

O cartão vermelho foi inequívoco. O crescimento do CDS em número de câmaras não chega para o disfarçar, mas permite ao partido enfrentar os estilhaços destas autárquicas longe do PSD. Como convém a Portas e não convém à coligação. A derrota da maioria foi mais expressiva do que o resultado do maior partido da oposição. Até porque o triunfo de António Costa em Lisboa e o facto de ter perdido para a CDU câmaras como Loures, Évora e Beja fizeram sombra à vitória do PS e de Seguro.

Esta manhã, a maioria acordou enfraquecida e dividida, com um vasto caderno de encargos pela frente. A penalização eleitoral rouba-lhe força para continuar a impor políticas de austeridade e retira-lhe margem para negociar com a troika. Por outro lado, o Presidente voltará à carga com a ideia de um acordo tripartido entre os partidos do arco da governação. O ciclo dito "virtuoso", que era a tentativa de superação da crise política aberta em Julho, esfumou-se na noite de ontem. Entrámos num ciclo político de incerteza, que as subidas dos juros e as dúvidas quanto ao regresso aos mercados já anunciavam.

Mas a noite eleitoral de ontem foi, acima de tudo, a noite das independências. A vitória de Rui Moreira, no Porto, com tudo o que esta candidatura tinha de específico, foi como um sinal que se repetiu por inúmeros municípios. Quase sempre sob a forma de movimentos dissidentes dos grandes partidos, é certo, o que não foi o caso da candidatura que surpreendentemente conquistou o Porto. Mas há um duplo sintoma de mudança que é necessário ler nos resultados desta noite autárquica. Seja sob a forma de movimentos genuinamente saídos da sociedade civil, como no Porto ou Coimbra, ou de candidatos em ruptura com os seus partidos de origem, que venceram ou condicionaram decisivamente alguns concelhos muito importantes, a revolta contra a centralização dos aparelhos partidários rebentou e não se sabe onde vai parar.

Um independente vai dirigir a segunda cidade do país e o teste ao futuro dos movimentos saídos da sociedade civil será a forma como Rui Moreira governará. O outro grande vencedor da noite, o socialista António Costa, deu conta da mudança que a ascensão dos independentes significa e do desafio que representa para os partidos. Ele, a quem a vitória em Lisboa reabriu outra vez as portas para fazer o que quiser no seu partido. Quando (e se) esse ciclo se abrir.